O Brasil que está secando: desertificação avança sobre o semiárido — e o Cerrado não está imune

Amanhã, 17 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca — data instituída pela ONU em 1994 para chamar a atenção sobre um dos processos mais silenciosos e devastadores da degradação ambiental planetária. No Brasil, o tema costuma ser associado quase que exclusivamente ao semiárido nordestino. Mas há um alerta crescente na literatura científica, e já visível nos dados do Cerrado e do Planalto Central: a desertificação não é problema só de quem vive no sertão. E Brasília, sede das políticas que poderiam reverter esse processo, precisa olhar para ele com a urgência que ele merece.

O que é desertificação — e o que ela não é

Existe uma confusão comum que precisa ser desfeita antes de qualquer análise: desertificação não é o mesmo que transformação de um lugar em deserto de areia. A desertificação não se refere apenas à expansão dos desertos e engloba também a degradação de terras em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Esse processo é impulsionado por fatores climáticos e, sobretudo, por práticas humanas inadequadas, como o desmatamento ilegal, o manejo insustentável do solo e a gestão ineficiente dos recursos hídricos. 

É a terra que perde progressivamente sua capacidade de sustentar vida. Que para de absorver água. Que não retém mais nutrientes. Que se torna impermeável, compactada, erodida. Que larga de ser produtiva, de alimentar comunidades, de abrigar biodiversidade. Esse é o processo — lento, cumulativo, frequentemente irreversível — que avança sobre o Brasil de formas que poucos percebem antes que seja tarde.

O semiárido: o epicentro do problema

No Brasil, mais de 1,4 milhão de km² estão suscetíveis à desertificação, afetando 38 milhões de pessoas em mais de 1.500 municípios, principalmente no semiárido nordestino. Somente no Brasil, do total de 982.563 km² da área do Semiárido, cerca de 600 mil km² já foram gravemente atingidos, englobando oito estados da região Nordeste, além do norte de Minas Gerais. 

Segundo o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da UFAL, 12,85% do Semiárido brasileiro já está em processo de desertificação, totalizando mais de 126 mil km² — área superior à soma dos estados de Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte. O Ministério do Meio Ambiente reconhece quatro núcleos em processo avançado de degradação ambiental na Caatinga: Gilbués, no Piauí; Irauçuba, no Ceará; Seridó, na divisa entre Rio Grande do Norte e Paraíba; e Cabrobó, em Pernambuco. Em Gilbués, o solo arenoso vermelho já se parece com uma paisagem marciana — e ficou assim por décadas de pastoreio excessivo, desmatamento e queimadas combinadas com chuvas torrenciais que erodiam um solo sem vegetação para protegê-la.

A ONU projeta que até 2045 três em cada quatro pessoas devem sofrer algum impacto causado pela seca, e 135 milhões podem ser deslocados por conta da desertificação. Migração climática não é ficção científica — já é realidade em partes do Nordeste, onde famílias abandonam propriedades que simplesmente pararam de produzir. 

O Cerrado: vulnerabilidade silenciosa

Aqui começa a parte da história que raramente é contada. O Cerrado, bioma que abraça Brasília e sustenta parte significativa da produção agrícola brasileira, não está imune ao processo de degradação acelerada dos solos. A principal causa da desertificação é a retirada da cobertura vegetal, que provoca a exposição do solo aos agentes erosivos. O solo sem cobertura vegetal fica exposto à erosão eólica, solar e pluvial. E o Cerrado perdeu, entre 2000 e 2018 sozinhos, cerca de 150 mil quilômetros quadrados de vegetação para a expansão agropecuária. 

Os solos do Cerrado têm características que os tornam particularmente vulneráveis. São solos altamente intemperizados, profundos, com baixa fertilidade natural e quimicamente pobres — o que foi amplamente corrigido pela agricultura com calcário e fertilizantes, mas que também significa que, uma vez removida a vegetação nativa que os protege e os nutre, eles ficam expostos a processos erosivos intensos. As modificações nos padrões climáticos apontadas pelo IPCC podem desencadear ou acelerar processos de desertificação em áreas mais vulneráveis — e o Cerrado, com seu clima tropical sazonal de inverno seco, é uma dessas áreas. 

O Distrito Federal e o entorno são um espelho desse risco. Com o solo urbano largamente impermeabilizado, as áreas rurais pressionadas pela expansão imobiliária e por monoculturas, e o regime de chuvas cada vez mais irregular, a capacidade de infiltração hídrica do Cerrado local diminui ano após ano. Cada nascente que some, cada vereda que seca, cada campo limpo que vira pastagem compactada representa um passo em direção a um solo progressivamente menos capaz de sustentar a vida que depende dele.

O que pode ser feito — e o que precisa parar

A restauração de terras degradadas é uma solução viável e estratégica: recupera ecossistemas, fortalece comunidades e contribui para a segurança alimentar, hídrica e climática. Para ter impacto real, é necessário ampliar investimentos, fortalecer políticas públicas e integrar saberes tradicionais com inovação tecnológica, com ações locais e cooperação internacional. 

No Brasil, o combate à desertificação passa necessariamente por três frentes. Primeiro, o fortalecimento das políticas de convivência com a seca no semiárido — cisternas, manejo agroecológico, recuperação de nascentes e preservação da Caatinga. Segundo, a proteção efetiva do Cerrado contra o avanço das monoculturas sobre áreas de recarga hídrica e nascentes — o que a nova Lei do Licenciamento torna mais difícil, não mais fácil. Terceiro, o investimento em restauração de solos degradados, com incentivos reais para produtores rurais que adotem sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e práticas de agricultura regenerativa.

Neste 17 de junho, o convite da ONU é para olhar para o chão. Literalmente. Para o solo que sustenta a vida, que filtra a água, que armazena carbono, que alimenta populações. E perguntar, com honestidade, quanto dele ainda existe no Brasil — e por quanto tempo vai continuar existindo.

🌍 Para acompanhar: o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, define as estratégias nacionais para o tema. A Embrapa Semiárido publica regularmente dados e pesquisas sobre convivência com a seca e recuperação de solos degradados.


Eco Políticas em Pauta

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