Bioeconomia do Cerrado: o novo nome do desenvolvimento que sempre existiu aqui

Na véspera do Dia Mundial do Desenvolvimento Rural — celebrado em 6 de julho — vale uma pergunta direta: o que é bioeconomia? A palavra virou presença obrigatória em todo documento oficial, todo discurso de ministro, todo painel de conferência desde a COP30. O Plano Nacional de Bioeconomia foi lançado em Belém. O Eco Invest Brasil mobilizou R$ 140 bilhões com foco em bioeconomia. A Carta para o Cerrado, firmada na COP Cerrados realizada em Brasília em novembro de 2025, fala em bioeconomia como estratégia central de valorização do bioma. Mas o que isso significa na prática, para o Cerrado, para as comunidades que vivem nele e para a cidade de Brasília que depende dele?

O que é bioeconomia — de verdade

A definição formal é simples: bioeconomia é o conjunto de atividades econômicas que usam recursos biológicos renováveis — plantas, animais, microrganismos, biomassa — como base para a produção de alimentos, energia, materiais e serviços, de forma sustentável. Em linguagem mais direta: é fazer dinheiro com a vida, sem matar a vida que gera o dinheiro.

O conceito não é novo. O que é novo é o reconhecimento institucional de que esse modelo é viável, estratégico e necessário — e que o Brasil, com a maior biodiversidade do planeta, tem vantagens comparativas extraordinárias para liderar essa transição. O Cerrado, com seus 5% da biodiversidade mundial, suas nascentes, seus frutos nativos, seus solos profundos e suas comunidades tradicionais que manejam o bioma há gerações, está no coração dessa oportunidade.

Quem já faz bioeconomia no Cerrado — sem saber o nome

Há uma ironia importante nessa história toda: a bioeconomia que os governos agora descobrem e nomeiam é exatamente o que as comunidades tradicionais do Cerrado sempre fizeram. As quebradeiras de babaçu do Maranhão que coletam, processam e comercializam o óleo e o carvão da palmeira. As coletoras de sempre-vivas de Minas Gerais que manejam as flores secas com técnicas milenares. Os apanhadores de flores do Espinhaço. Os geraizeiros que praticam o extrativismo de baru, murici e cagaita nos cerrados do norte de Minas e da Bahia. Os coletores de sementes nativas que abastecem os projetos de restauração do bioma em todo o Brasil.

Um estudo publicado em abril de 2026, que ouviu sete organizações comunitárias distribuídas em diferentes regiões do Cerrado — entre elas a Associação Cerrado de Pé, a Cooperativa dos Agricultores Familiares do Vale do Peruaçu, a Rede de Sementes do Araguaia e a Rede de Sementes do Oeste da Bahia —, revelou que todas essas organizações já atuam na coleta, beneficiamento e comercialização de sementes nativas, com desdobramentos crescentes na execução de projetos de restauração. São negócios reais, com renda real, ancorados na biodiversidade do Cerrado. Bioeconomia em estado puro — praticada por quem nunca precisou do nome para fazê-la.

O que os instrumentos de 2026 oferecem

A novidade de 2026 é que, pela primeira vez, há um arcabouço institucional razoavelmente coeso para apoiar essa economia que já existe. O PPCerrado em sua 4ª fase prevê 37 resultados esperados em 78 linhas de ação, incluindo a elaboração e implementação de programas de apoio à bioeconomia, fortalecimento da fiscalização e destinação de terras públicas para proteção e uso sustentável dos recursos naturais.

O Pronaf incorporou novas linhas voltadas à sociobiodiversidade e à bioeconomia — com destaque para o Pronaf B Agroecologia, o Pronaf Quintais Produtivos para Mulheres Rurais e linhas específicas para bioeconomia. O Ministério do Meio Ambiente lançou o Programa de Formação em Sociobioeconomia e Agroecologia para Agentes de Crédito Rural, que prevê qualificar agentes financeiros para atuar junto a mais de 3,5 mil famílias com potencial de crédito de R$ 200 milhões. O Fundo CEPF Cerrado, no ciclo 2025-2026, investiu em negócios sustentáveis de pequeno e médio porte associados à sociobiodiversidade — com foco em indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais.

Os riscos que precisam ser nomeados

Mas a bioeconomia não é imune a distorções — e seria ingênuo não nomeá-las. O primeiro risco é o do esverdeamento de práticas que não são sustentáveis: grandes corporações que colocam o rótulo de bioeconomia em operações que não mudam nada de substantivo na sua relação com os ecossistemas. O segundo risco é o da captura: projetos de bioeconomia que chegam às comunidades tradicionais com contratos complexos, que não entendem, assinados sob pressão de necessidade imediata, e que acabam restringindo seus usos tradicionais do território em vez de fortalecê-los.

O terceiro risco — talvez o mais estrutural — é o da desconexão entre o discurso da bioeconomia e a realidade fundiária do Cerrado. Não é possível construir uma bioeconomia robusta sobre territórios sem regularização. Não é possível remunerar adequadamente serviços ambientais prestados por comunidades que não têm segurança jurídica sobre suas terras. E não é possível atrair investimentos de longo prazo para um bioma cuja proteção legal acabou de ser enfraquecida pela Lei do Licenciamento.

O que o Dia Mundial do Desenvolvimento Rural pede ao Cerrado

Em 6 de julho, o mundo lembra que o desenvolvimento rural não pode ser apenas aumento de produtividade por hectare. É qualidade de vida nas comunidades rurais, acesso a serviços, geração de renda justa, preservação de culturas e saberes, e relação saudável entre as pessoas e os territórios que habitam.

A bioeconomia do Cerrado tem o potencial de ser tudo isso — se for construída com as comunidades que já fazem isso há gerações, não para elas. Se respeitar a titulação territorial como pré-condição, não como detalhe. Se distribuir a renda ao longo da cadeia, não apenas no elo final onde o capital financeiro está. E se reconhecer que o melhor plano de bioeconomia que o Brasil poderia ter seria, simplesmente, deixar as comunidades que já conhecem o Cerrado continuarem cuidando dele — com apoio, recursos e segurança jurídica.

O novo nome existe. Agora precisa de política pública à altura.

🌾 O PPCerrado — Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado — em sua 4ª fase pode ser acompanhado no portal do Ministério do Meio Ambiente. O Fundo CEPF Cerrado apoia organizações da sociedade civil no bioma, com editais abertos periodicamente pelo ISPN. O Pronaf para bioeconomia e sociobiodiversidade pode ser acessado por agricultores familiares em agências do Banco do Brasil e instituições financeiras credenciadas ao MDA.


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