Hoje, 28 de julho, o calendário marca dois encontros improváveis: o Dia do Agricultor e o Dia Mundial da Conservação da Natureza. Para quem acompanha o debate ambiental brasileiro, a justaposição pode parecer uma provocação — afinal, a narrativa dominante insiste em tratar produção agrícola e conservação como forças opostas, como se cada hectare produtivo fosse, necessariamente, um hectare de Cerrado perdido. Mas há uma história diferente sendo escrita nas bordas de Brasília, nas bacias do Pipiripau e do Descoberto, nas chácaras de Brazlândia e nas propriedades do Núcleo Rural Capão da Onça. É a história dos agricultores que decidiram que produzir e preservar podem ser, e precisam ser, o mesmo ato.
O Produtor de Água: o programa que virou exemplo mundial
Em junho de 2026, o Correio Braziliense noticiou que o Projeto Produtor de Água do Pipiripau — coordenado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal, a Adasa, desde 2011 — tornou-se exemplo mundial de pagamento por serviços ambientais. O projeto beneficia cerca de 250 mil pessoas que dependem da água do Pipiripau para consumo e irrigação. Agricultores que adotam práticas de conservação do solo e proteção de nascentes recebem, em troca, um pagamento por serviços ambientais — uma remuneração concreta pelo trabalho invisível de cuidar da água que abastece a capital.
O programa não se limita ao Pipiripau. Na Bacia do Descoberto — responsável por cerca de 60% do abastecimento de água do DF — o Projeto Produtor de Água no Descoberto prevê até R$ 10 milhões investidos em cinco anos, com agricultores de Brazlândia e de Águas Lindas, em Goiás, sendo pagos para adotar práticas de preservação, conservação e restauração do solo e da água da bacia.
Vicente Jorge Ferreira e sua esposa Florinei Lima Cardoso, do Núcleo Rural Capão da Onça, em Brazlândia, foram os primeiros a ganhar o certificado de produtores de água da Bacia do Descoberto. Mais de 1.300 mudas foram plantadas em sua chácara, onde cultivam maracujá-pérola, pitaya-do-cerrado e banana-prata. Antes de entrar no programa, o solo estava descoberto, as árvores morriam e não havia sinal de fauna nativa. Hoje, os animais voltaram. A narrativa é simples e poderosa: quando o agricultor cuida da terra, a terra cuida de volta.
As práticas que funcionam
O acompanhamento técnico do Produtor de Água é feito pela Embrapa Cerrados e pelo Emater-DF, que orientam cada produtor a partir de um projeto individual de propriedade. As práticas disponíveis são concretas e acessíveis: terraceamento para reduzir o escoamento da água da chuva, construção de barraginhas — pequenas escavações no solo que favorecem a infiltração e evitam erosão —, adequação de estradas rurais, cercamento e proteção de nascentes, plantio de matas ciliares e saneamento rural.
A pesquisadora Fabiana de Gois Aquino, da Embrapa Cerrados, resume o que a ciência confirma com os dados: a atuação pontual não é capaz de mudar a realidade de uma bacia, então a adesão voluntária ao programa faz diferença porque é um conjunto de ações realizadas nas propriedades em prol da conservação do solo e da água. É bacia, não fazenda. É paisagem, não lote. É coletivo, não individual. Essa lógica de ação conjunta é o que transforma práticas isoladas em segurança hídrica real para uma cidade de três milhões de pessoas.
O que os números mostram sobre a tensão real
Mas seria ingênuo apresentar só o lado positivo sem nomear a contradição que persiste. O Cerrado tem hoje dez milhões de hectares de vegetação secundária em regeneração — áreas que já foram desmatadas mas que estão se recuperando naturalmente. São áreas de alto potencial e baixo custo de manutenção. Ao mesmo tempo, segundo dados do MapBiomas, apenas 1% das propriedades rurais é responsável pela maior parte do desmatamento recente no bioma. Ou seja: a ameaça não vem do pequeno produtor que planta maracujá em Brazlândia. Vem do grande capital que expande monoculturas sobre nascentes no Matopiba.
Essa distinção importa porque ela define onde o Estado precisa ser duro — com fiscalização, multas e responsabilização — e onde precisa ser generoso — com assistência técnica, crédito, capacitação e pagamento por serviços ambientais. Confundir os dois é errar o alvo duas vezes: punir quem conserva e deixar livre quem destrói.
Neste Dia do Agricultor e do Conservador da Natureza
O agricultor do Cerrado que planta e que preserva ao mesmo tempo não é uma raridade exótica. É uma realidade em expansão — ainda que lenta, ainda que insuficiente para reverter sozinha décadas de devastação. É Antônio do Capão, que renovou o contrato com o Produtor de Água do Pipiripau. É Vicente e Florinei, que viram os animais voltarem para a chácara. São centenas de produtores no DF e entorno que aprenderam que proteger a nascente é proteger a própria lavoura.
Homenagear o agricultor neste 28 de julho é também reconhecer que a conservação da natureza não acontece apenas nas unidades de conservação e nos parques nacionais. Acontece nas propriedades rurais, nas decisões diárias de cercar ou não cercar uma nascente, de plantar ou não plantar uma mata ciliar, de participar ou não de um programa de pagamento por serviços ambientais. O futuro hídrico de Brasília passa pelas mãos de quem trabalha a terra nos núcleos rurais que a cidade quase não enxerga.
🌾 O Projeto Produtor de Água do Pipiripau é coordenado pela Adasa e conta com parceria da Embrapa Cerrados, do Emater-DF, da Caesb e da ANA. O Projeto Produtor de Água no Descoberto cobre a Bacia do Alto Rio Descoberto, em Brazlândia. Produtores rurais do DF interessados em aderir podem buscar informações junto ao Emater-DF ou à Adasa.
Eco Políticas em Pauta

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