Hoje o calendário vira. Julho começa amanhã — e com ele a parte mais crítica do ano para o meio ambiente brasileiro: a seca intensa, as queimadas, o El Niño que se aproxima e a temporada política que, em ano eleitoral, tende a acelerar pautas que jamais deveriam ser aceleradas. Antes de atravessar essa fronteira, porém, vale parar e olhar para trás. O primeiro semestre de 2026 foi intenso, contraditório e, em muitos aspectos, definidor. O Eco Políticas em Pauta faz o balanço.
O que avançou
Os números do desmatamento são, sem dúvida, o dado mais positivo do semestre. Divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em junho, os alertas de desmatamento caíram 37,5% na Amazônia e 8,2% no Cerrado entre agosto de 2025 e maio de 2026 em comparação com o período anterior. Em fevereiro, o governo já havia divulgado que a taxa estimada de desmatamento na Amazônia para 2025 foi de 5.796 km² — a menor em onze anos. O desmatamento, que chegou a mais de 11 mil km² em 2022, foi praticamente reduzido à metade. É um avanço real, construído com política pública consistente, fiscalização ampliada e pressão de mercado.
O Fundo Amazônia consolidou sua retomada: entre 2023 e 2025, aprovou e contratou R$ 3,7 bilhões em projetos — o equivalente a 56% de tudo que o fundo apoiou desde que foi criado, em 2008. O programa Eco Invest Brasil mobilizou R$ 140 bilhões em quatro leilões para restauração florestal, bioeconomia e infraestrutura verde. O Bolsa Verde foi ampliado e hoje atende 72,2 mil famílias. O Plano Nacional de Bioeconomia foi lançado na COP30. A lei do mercado de carbono foi sancionada. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em julho de 2024, começou a se traduzir em estrutura operacional: 240 brigadas federais, mais de 4.630 profissionais mobilizados, 19 helicópteros, 18 aviões lança-água.
No plano científico, o X Simpósio Nacional do Cerrado, realizado na UnB em junho com 400 participantes de todo o Brasil e de vários países, produziu uma agenda de pesquisa robusta sobre produção sustentável e conservação do bioma. E os dados do Atlas da Mata Atlântica revelaram que o desmatamento de florestas maduras caiu 40% entre 2024 e 2025 — o menor nível em quatro décadas de monitoramento.
O que regrediu
Mas o primeiro semestre de 2026 também deixa marcas profundas no lado oposto da balança. Em fevereiro entrou em vigor a Lei nº 15.190/2025 — a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada em novembro de 2025 num movimento que o Observatório do Clima classificou como um dos maiores retrocessos ambientais dos últimos 40 anos. O processo convencional de licenciamento, com análise prévia e controle dos órgãos ambientais, tornou-se exceção. A simplificação e as dispensas de licença, a regra. Três Ações Diretas de Inconstitucionalidade foram protocoladas no STF — e o processo segue em andamento.
O Congresso Nacional iniciou 2026 com uma agenda legislativa ambiental preocupante. O Observatório do Clima mapeou 70 projetos integrantes do chamado Pacote da Destruição, que avançam com o argumento da desburocratização mas que, na prática, reduzem salvaguardas, fragilizam a fiscalização e incentivam a grilagem de terras públicas. Em ano eleitoral, a previsão é de que parte dessas propostas seja acelerada antes de outubro, reduzindo o espaço para o debate público.
O fim da Moratória da Soja — acordo voluntário que impedia a comercialização de grãos produzidos em áreas desmatadas da Amazônia após 2008 — foi outro sinal preocupante. E o Plano Clima, aprovado após 17 anos de espera, ainda aguarda orçamento, metas específicas e responsáveis claros para sua implementação. Ter o plano no papel é um passo. Colocar em prática é o desafio que segundo semestre terá que enfrentar.
O que o segundo semestre reserva
O cenário climático para os próximos meses é de alerta máximo. Há 90% de probabilidade de formação de El Niño de forte intensidade entre setembro e outubro — o que pode significar a seca mais severa do Centro-Oeste em décadas. O DF já decretou emergência ambiental desde maio. Os bombeiros já estão na linha de frente. E o Cerrado, que entrou no inverno com vegetação ressecada e histórico de 167 dias de seca em 2024, enfrenta a temporada de queimadas com mais estrutura do que em anos anteriores — mas com um risco climático inédito.
No plano político, as eleições de outubro vão dominar a agenda — e a pauta ambiental tende a ser instrumentalizada, ignorada ou distorcida na corrida eleitoral. Cabe à sociedade civil, à imprensa e aos eleitores cobrar que os candidatos apresentem propostas concretas para o Cerrado, para o licenciamento, para o mercado de carbono e para as metas climáticas do Brasil.
O primeiro semestre de 2026 foi um semestre de duas histórias simultâneas: a história dos avanços reais na redução do desmatamento, e a história do desmonte silencioso das ferramentas que tornaram esses avanços possíveis. O desafio do segundo semestre é que a primeira história continue sendo escrita — e que a segunda não apague o que levou anos para ser construído.
🌿 O Eco Políticas em Pauta acompanha a agenda ambiental de Brasília semana a semana. Se você quer contribuir com pautas, coberturas ou sugestões, entre em contato pela seção de comentários. Bom segundo semestre — com olhos bem abertos.
Eco Políticas em Pauta
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