Os guardiões do Cerrado: por que o Dia do Bombeiro é também um dia ambiental

Em 2 de julho de 1856, o Imperador Dom Pedro II assinou o decreto que criou o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte, no Rio de Janeiro, sob o comando do major João Batista de Morais Antas. Desde então, a data é celebrada como o Dia do Bombeiro Brasileiro — e também marca o início da Semana Nacional de Prevenção Contra Incêndios. Em 2026, essa semana começa com um peso inédito: o primeiro dia de julho marcou o início do período proibitivo do uso do fogo nos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônia, que vai até 30 de novembro. E o Distrito Federal, que já se encontra em emergência ambiental desde maio, enfrenta a temporada de queimadas mais temida em anos.

Hoje, neste Dia do Bombeiro, é hora de olhar para esses profissionais não apenas com gratidão — mas com a consciência de que o trabalho deles é, em parte, consequência de escolhas que fazemos como sociedade.

A Operação Verde Vivo 2026: a maior mobilização da história

Em 26 de maio, em frente ao Palácio do Buriti, a governadora do DF Celina Leão lançou a Operação Verde Vivo 2026 do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. A cerimônia tinha um tom diferente das edições anteriores — mais urgente, mais preocupado. E havia razão para isso.

A operação deste ano é a maior já montada pelo CBMDF para o combate a incêndios florestais. Diariamente, entre 170 e 600 bombeiros atuam exclusivamente no combate a incêndios florestais no DF, distribuídos em 12 postos avançados e nas 33 unidades operacionais da corporação espalhadas pelo Distrito Federal. Em grandes ocorrências, o contingente pode chegar a 1.500 militares por dia — somando reforços do expediente administrativo e do serviço operacional. A estrutura operacional inclui até 35 viaturas exclusivas para combate a focos no DF, além de sopradores, mochilas costais, abafadores, motobombas e ferramentas para atuação em vegetação. O apoio aéreo conta com dois aviões Air Tractor, um helicóptero e drones.

O grande diferencial de 2026 é o uso intensivo de tecnologia. Por meio do Centro de Gerenciamento Ambiental, o CBMDF monitora ocorrências em tempo real utilizando sistemas de inteligência artificial, drones e imagens de satélite capazes de identificar focos de calor e áreas de risco com maior precisão. Pesquisadores da Universidade de Brasília instalaram câmeras de alta resolução na Torre Digital do Grande Colorado, capazes de alcançar aproximação de até 400x para monitorar temperaturas de território. É ciência e tecnologia a serviço do Cerrado.

Por que 2026 é o ano mais difícil

O comandante-geral do CBMDF, coronel Moisés Alves Barcelos, foi direto no lançamento da operação: este será o ano mais difícil de combate ao incêndio que o DF já enfrentou. A afirmação não é alarmismo — é leitura de dados. As projeções climáticas do Inmet e do Cemaden apontam probabilidade de 90% de formação de El Niño de forte intensidade entre setembro e outubro de 2026 — um fenômeno que altera drasticamente o regime de chuvas, eleva as temperaturas e transforma o Cerrado num terreno fértil para grandes queimadas. A governadora Celina Leão foi ainda mais direta: o alerta do El Niño pode ser o pior em 149 anos.

O histórico do DF reforça a preocupação. Em 2024, mais de 18 mil hectares queimaram no Distrito Federal — incluindo mais de 6% da área do Parque Nacional de Brasília, destruído por incêndio de origem criminosa. Três pessoas morreram em 2025 em decorrência de incêndios combatidos pelo CBMDF. A meta da corporação para 2026 é clara e dolorosa na sua honestidade: nenhuma morte.

Quase 100% de causa humana

Há um dado que o coronel Barcelos repete em todas as entrevistas e que precisa entrar na consciência coletiva de Brasília: quase 100% dos incêndios florestais combatidos pelo Corpo de Bombeiros nos últimos anos têm causa humana. O secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, foi ainda mais enfático: "Aqui não tem raio, não tem nuvem. Praticamente todos os incêndios ocorrem por ação humana."

Isso significa que a solução não está apenas nas brigadas, nos helicópteros e nos drones — está nas escolhas de cada pessoa. A queima de entulho ou restos de poda que "em segundos pode fugir do controle e se transformar num incêndio florestal devastador", como alertou o tenente-coronel Marcelino do Grupamento de Proteção Ambiental do CBMDF. A bituca de cigarro jogada numa calçada seca. O lixo queimado num terreno vazio. A fogueira abandonada às margens de uma área de Cerrado. Atos cotidianos que, na seca do Cerrado, têm consequências que um exército de bombeiros pode não conseguir conter.

O apoio federal — e o que ainda falta

No plano federal, o governo investiu R$ 150 milhões do Fundo Amazônia para capacitação e equipamentos nos Corpos de Bombeiros do Cerrado e do Pantanal. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, sancionada em julho de 2024, criou uma nova governança do fogo — coordenando governo federal, estados, municípios, proprietários rurais e academia. A Lei 15.143/2025 permite transferência direta de recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente para estados e municípios e agilizou a contratação de brigadistas. São avanços concretos.

Mas há um ponto que os especialistas destacam com insistência: a prevenção ainda é mais barata e mais eficaz do que o combate. Cada hectare de vegetação nativa preservado, cada aceiro bem mantido, cada comunidade rural orientada sobre o manejo adequado do fogo representa uma economia de recursos, de vidas e de biodiversidade que nenhuma operação de combate consegue repor depois que o fogo passa.

Hoje é o Dia do Bombeiro. Homenageie-os de verdade: não coloque fogo.

🚒 Para denunciar focos de incêndio no DF: ligue 193 (Corpo de Bombeiros) ou 0800-618-080 (Ibama). Para se cadastrar nos alertas da Defesa Civil do DF, envie mensagem para 40199. O DF também monitora focos pelo programa DF 360 Graus, com câmeras em tempo real integradas ao Centro de Gerenciamento Ambiental do CBMDF.


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