Hoje, 25 de julho, é Dia do Colono — e também é sábado, o que faz desta data um convite duplo: para refletir sobre a história do território que habitamos e para sair de casa e conhecê-lo de perto. Porque o argumento que este artigo quer fazer é simples e direto: visitar um parque nacional é um ato político. Não apenas lazer, não apenas turismo, não apenas contato com a natureza. É um voto de apoio ao modelo de desenvolvimento que acredita que o Brasil pode ser potência econômica e guardiã da biodiversidade ao mesmo tempo.
O Brasil que ainda não conhece seus parques
O Brasil tem cerca de 340 parques nacionais e outras unidades de conservação federais, estaduais e municipais, cobrindo pouco mais de 23% do território nacional em algum grau de proteção. É uma rede enorme — e surpreendentemente pouco visitada. Enquanto os Estados Unidos registram mais de 320 milhões de visitas por ano a seus parques nacionais, o Brasil não ultrapassa 20 milhões de visitas anuais a toda a sua rede de unidades de conservação federais. A diferença não é apenas de infraestrutura ou de cultura — é de percepção. Os brasileiros, em geral, ainda não entendem os parques como parte de sua identidade nacional, como herança coletiva que merece ser conhecida, defendida e frequentada.
Essa lacuna tem consequências políticas diretas. Parques que não têm visitantes não geram renda para as comunidades do entorno, não constroem lobby de usuários satisfeitos e não aparecem no radar dos eleitores como prioridade de gestão. Parques sem visitantes viram alvos fáceis de cortes orçamentários, invasões e pressões para redução de seus limites. Quando uma área protegida tem dezenas de milhares de pessoas passando por ela todo mês — pessoas que voltam para casa encantadas, que contam para amigos, que postam nas redes, que votam —, ela fica politicamente mais segura.
2026: um ano de novidades no mapa das áreas protegidas
Este ano trouxe novidades concretas para o sistema de parques brasileiros. Em março de 2026, o governo federal criou o Parque Nacional Marinho do Albardão, no Rio Grande do Sul — com 1.004.480 hectares, o maior parque marinho do país. A criação foi resultado de 18 anos de luta de pesquisadores e organizações ambientais, e representa um avanço significativo para a meta de proteger 30% dos oceanos até 2030. O Albardão abriga 24 espécies ameaçadas de tubarões e raias, cinco espécies de tartarugas marinhas, a toninha — o cetáceo mais ameaçado do país — e uma paisagem de dunas, lagoas costeiras e praia de concheiros que não existe em nenhum outro lugar do Brasil.
Em Brasília, o Parque Nacional da capital completou, no ano passado, mais de seis décadas de existência — sendo criado em 1961, um ano após a inauguração da cidade. Suas mais de 42 mil hectares de Cerrado nativo, suas nascentes que abastecem parte da população do DF e sua fauna que inclui capivaras, tamanduás, lobos-guará e centenas de espécies de aves compõem um dos parques mais visitados do país. E que, apesar disso, sofreu em 2024 um dos piores incêndios de sua história — mais de 6% de sua área destruída por ignição criminosa. O parque existe. A fiscalização ainda é insuficiente. A visitação crescente é uma das formas mais eficazes de pressionar por mais recursos para sua proteção.
Uma carta manifesto que chegou esta semana
Dias atrás, uma coalizão de organizações ambientais brasileiras lançou uma carta manifesto sobre o turismo de natureza no Brasil, com uma mensagem direta: o país precisa transformar seu patrimônio natural em motor de desenvolvimento sustentável, e as eleições de outubro de 2026 são uma oportunidade decisiva para isso. O documento defende que é necessário comprometimento com a criação e gestão adequada de parques e outras áreas protegidas, metas sustentáveis de visitação, integração entre as políticas de economia, turismo e meio ambiente, e ampliação de investimentos e incentivos financeiros para infraestrutura e gestão.
A carta lembra que países como África do Sul, Chile, Costa Rica e Estados Unidos já compreenderam o valor estratégico de suas áreas protegidas e as transformaram em âncoras para desenvolvimento econômico e projeção internacional. O Brasil, que tem a maior biodiversidade do planeta e um dos litorais mais extensos do continente, ainda não chegou lá. E a diferença entre chegar e não chegar pode depender, em grande medida, de quem os brasileiros elegem em outubro.
O que você pode fazer neste sábado
A resposta prática é simples: vá a uma área protegida. Em Brasília, o Parque Nacional da capital abre às 8h. O Jardim Botânico tem trilhas guiadas. A APA das Águas Emendadas é acessível pelo entorno do DF. A Chapada dos Veadeiros, a três horas de carro, tem um dos Cerrados mais preservados e mais belos do planeta.
Leve água, protetor solar e calçado fechado. Não faça fogueira. Não deixe lixo. Não saia das trilhas demarcadas. E quando voltar, fale sobre o que viu — com amigos, nas redes, com seus representantes políticos. Porque cada pessoa que conhece um parque se torna, inevitavelmente, um defensor daquilo que conhece. E o Brasil precisa, com urgência, de mais defensores do que ainda tem.
🥾 O Parque Nacional de Brasília abre diariamente das 8h às 16h, na Via Epia Norte. O Jardim Botânico de Brasília oferece trilhas guiadas e atividades de educação ambiental — consulte a programação no site institucional. Para conhecer os parques nacionais do Brasil e planejar visitas em todo o país, o ICMBio disponibiliza informações no portal Visit Parques.
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