As baleias chegaram mais cedo — e isso pode não ser uma boa notícia para o Atlântico Sul

Hoje, 23 de julho, o mundo celebra o Dia da Baleia — data criada em memória de 19 de fevereiro de 1986, quando a Comissão Baleeira Internacional proibiu a pesca comercial mundial desses mamíferos, após séculos de caça que reduziram algumas espécies a menos de 5% de suas populações originais. No Brasil, o dia chega com uma notícia que parece boa à primeira vista, mas que carrega um sinal de alerta que os cientistas já não conseguem ignorar: em 2026, as primeiras baleias-francas-austrais foram avistadas no litoral catarinense em maio — o registro mais precoce da história.

Historicamente, o período de maior ocorrência da migração de baleias para a costa brasileira se concentra entre julho e outubro. As águas mais quentes e calmas do litoral brasileiro funcionam como um grande berçário natural, onde as fêmeas dão à luz e amamentam seus filhotes antes da viagem de retorno à Antártica. A chegada antecipada de 2026 reforça a importância de acompanhar cada vez mais de perto as transformações que acontecem no oceano — porque o comportamento das baleias é um dos mais sensíveis indicadores de mudança climática disponíveis para a ciência.

As baleias do Brasil: uma história de quase extinção e recuperação

No Brasil, as baleias-jubarte foram caçadas desde 1602, primeiro no Recôncavo baiano, com a chegada dos baleeiros bascos, e depois pelas estações costeiras de caça que se estabeleceram entre a Bahia e Santa Catarina. Na primeira metade do século XX, baleeiros noruegueses e japoneses trouxeram navios modernos para matar as baleias que restavam em águas brasileiras — um massacre que só terminou em 1985, quando o presidente José Sarney suspendeu a caça no país.

O resultado de séculos de matança quase extinguiu as jubartes do Atlântico Sul. Estima-se que mais de 300 mil tenham sido mortas apenas entre os séculos XVIII e XX. Quando o Projeto Baleia Jubarte foi fundado em 1988, havia apenas cerca de 500 jubartes nas águas brasileiras. Hoje, décadas de pesquisa, proteção legal e educação ambiental resultaram numa recuperação notável: a baleia-jubarte foi retirada da lista de espécies ameaçadas e sua população no Atlântico Sul se recuperou significativamente. É um dos maiores sucessos de conservação da história ambiental brasileira.

Mas a baleia-franca-austral — a única espécie que efetivamente se reproduz no Brasil — ainda está classificada como Em Perigo na Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção. E suas águas de reprodução no litoral de Santa Catarina estão sob pressão crescente da especulação imobiliária que avança sobre a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca.

O papel climático que ninguém esperava

Há um aspecto da biologia das baleias que mudou completamente a forma de pensar sua conservação nas últimas décadas: esses animais são agentes climáticos de primeira grandeza. Ao se alimentarem em profundidade e retornarem à superfície, elas ajudam a fertilizar o ambiente marinho com nutrientes que estimulam o crescimento do fitoplâncton — organismo responsável por absorver cerca de 40% do dióxido de carbono produzido no planeta e gerar mais de 50% do oxigênio da Terra. Uma única grande baleia pode acumular, em média, 33 toneladas de carbono ao longo da vida — muito mais do que qualquer árvore individual. Conservar baleias não é apenas proteger animais carismáticos. É manter funcionando uma das peças mais importantes da bomba de carbono dos oceanos.

2026: um ano de avanços e ameaças persistentes

O cenário de 2026 para a conservação das baleias é de avanços reais e ameaças que persistem. Em janeiro, o Tratado Global dos Oceanos entrou em vigor após ser ratificado por mais de 60 países, incluindo o Brasil — criando mecanismos para ampliar áreas marinhas protegidas em águas internacionais e contribuindo para a meta de proteger 30% do oceano até 2030. Em março, o governo federal criou o Parque Nacional Marinho do Albardão, no Rio Grande do Sul, com 1.004.480 hectares — a maior unidade de conservação marinha do Brasil. O parque protege o cetáceo mais ameaçado do país, a toninha, além de 24 espécies ameaçadas de tubarões e raias e cinco espécies de tartarugas marinhas.

Na região de Abrolhos — o maior berçário de baleias-jubarte do Atlântico Sul —, uma força-tarefa científica lançada em março de 2026 pelo WWF-Brasil e pelo ICMBio busca concluir, até dezembro, uma proposta para ampliar os limites do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, que hoje protege menos de 2% do vasto Banco dos Abrolhos. Em janeiro, o Brasil enviou à Unesco um dossiê de candidatura do parque à lista do Patrimônio Mundial Natural — o que poderia impulsionar definitivamente essa proteção.

Mas as ameaças persistem com força. A exploração de petróleo e gás ameaça rotas migratórias com ruídos, poluição e risco de vazamentos. A mineração em águas profundas surge como um novo perigo, capaz de alterar ecossistemas marinhos pouco conhecidos. A pesca predatória mata anualmente centenas de baleias e golfinhos em redes de emalhe — as chamadas redes fantasma, perdidas ou abandonadas propositalmente, seguem boiando e matando tudo o que entra em contato com elas. E o aquecimento dos oceanos, principal fator por trás da chegada antecipada das baleias em 2026, segue acelerando.

Brasília e as baleias: uma conexão improvável

Pode parecer distante, para quem vive no Planalto Central a mais de dois mil quilômetros do litoral, a história das baleias do Atlântico Sul. Mas há uma conexão real: as políticas que determinam o futuro das baleias são decididas em Brasília. A legislação de proteção de cetáceos, os orçamentos do ICMBio, as concessões de petróleo em áreas marinhas, a ratificação do Tratado Global dos Oceanos — tudo passa pela capital. E o clima que regula as chuvas do Cerrado está diretamente ligado à saúde dos oceanos que as baleias ajudam a manter.

Neste Dia da Baleia, o convite é para olhar para o oceano — mesmo daqui de dentro do Brasil central. E entender que o gigante que nada no Atlântico Sul e o campo limpo que seca no Planalto Central fazem parte de um mesmo sistema climático que está mudando mais rápido do que qualquer um de nós gostaria.

🐋 O Projeto Baleia Jubarte monitora as baleias-jubarte no Banco dos Abrolhos desde 1988. O Projeto Franca Austral, do Instituto Australis, acompanha as baleias-francas no litoral de Santa Catarina e aceita colaboração de ciência cidadã — qualquer pessoa que aviste uma baleia pode registrar no aplicativo desenvolvido pelo projeto.


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