Em 25 de julho, o Brasil celebra o Dia do Colono — data que homenageia os imigrantes europeus que chegaram ao país a partir do século XIX, principalmente alemães e italianos no Sul, e que foram gradualmente se espalhando pelo interior. No Cerrado, esse processo de colonização chegou com força nas décadas de 1960 e 1970, impulsionado pelo governo militar com programas de incentivo à ocupação do Centro-Oeste. A promessa era simples e sedutora: terra barata, solo que a ciência da Embrapa logo aprendeu a corrigir e um horizonte de prosperidade que parecia sem limite. O resultado foi o maior processo de conversão de vegetação nativa em área agrícola da história brasileira — e também, décadas depois, um dos mais complexos desafios de reparação ambiental do século XXI.
A ocupação que transformou o bioma
Entre 1970 e 2010, a densidade demográfica do Centro-Oeste aumentou 300%, passando de 2,88 habitantes por km² para 8,75 habitante por km². Produtores rurais sulistas chegaram ao Cerrado atraídos por terras abundantes e baratas — em alguns casos, fruto da grilagem — incentivos fiscais e empréstimos subsidiados pelo governo. Onde antes havia campo limpo, campo sujo e cerradão, surgiram lavouras de soja, pastagens extensivas, silos e cidades que cresceram ao redor das commodities.
O preço ambiental foi imenso. A vegetação nativa do Cerrado já foi reduzida pela metade — de um bioma que cobria 24% do território nacional, menos de metade permanece em pé. Das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil, oito têm suas nascentes no Cerrado. À medida que o bioma encolhe, a vazão dessas bacias diminui — com consequências diretas para o abastecimento de água, a geração de energia elétrica e a produção de alimentos. O desmatamento no bioma, que havia caído 41% entre 2023 e 2024, segue concentrado nas mãos de poucos: segundo dados do Cadastro Ambiental Rural, apenas 1% das propriedades rurais é responsável pela maior parte da supressão de vegetação nativa.
Mas a história do colono no Cerrado não cabe numa narrativa única de vilania. Como reconhece o agricultor familiar José Carlos dos Santos, do interior do Maranhão, em depoimento recente à Agência Brasil: o agro tem o lado destruidor, mas traz o alimento para a mesa, porque são várias comunidades e famílias que dependem dele para sobrevivência. E, ao mesmo tempo, há quem viva lutando para pôr um limite para o grande produtor não acabar com o bioma. Essa ambiguidade é real, e ignorá-la não ajuda ninguém.
O Cerrado tem dez milhões de hectares prontos para recuperação
Aqui entra um dado que raramente é destaque nas discussões sobre o bioma: o Cerrado tem hoje dez milhões de hectares de vegetação secundária — áreas que já passaram por desmatamento mas que estão em processo de regeneração natural. São áreas de baixo custo para manutenção e com alto potencial de recuperação, que a ciência identifica como prioritárias para políticas de restauração. Se protegidas e manejadas adequadamente, podem se tornar reservas legais produtivas, corredores ecológicos e nascentes recuperadas — sem custo de plantio, aproveitando a força regenerativa que o Cerrado sempre teve.
No DF e entorno, há exemplos concretos dessa recuperação em curso. Produtores rurais de Sobradinho, Planaltina e Brazlândia que antes simplesmente deixavam o Cerrado avançar para ampliar a área de pastagem hoje recebem orientação técnica da Embrapa, do Emater-DF e de organizações como a Rede de Sementes do Cerrado para cercar nascentes, implantar sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e restaurar Áreas de Preservação Permanente. Não é filantropia — é economia. Produtor que protege nascente tem água nos meses de seca. Produtor que implanta sistema integrado reduz custo de insumo. Produtor que regulariza o CAR acessa linhas de crédito que produtores em débito ambiental não conseguem mais acessar, especialmente com as novas exigências do acordo Mercosul-UE.
O que o Dia do Colono pode ensinar em 2026
Homenagear o colono em 2026 é, antes de tudo, reconhecer uma história complexa — de trabalho duro, de transformação econômica real e de um custo ambiental que agora precisa ser dividido de forma justa. Os grandes grupos que grilaram terras públicas e converteram Cerrado em soja de exportação não podem ser equiparados ao agricultor familiar que sobrevive de uma pequena propriedade no entorno do DF. Mas ambos vivem num território que tem limite — e esse limite está sendo testado como nunca antes.
A reparação é possível. O Pronaf RenovaAgro, as novas linhas de crédito para bioeconomia e agroecologia, o mercado de carbono em construção, o pagamento por serviços ambientais que começa a ganhar escala — tudo isso são ferramentas que podem remunerar o colono que escolhe recuperar em vez de avançar. O que falta, na maioria dos casos, não é vontade. É acesso à informação, assistência técnica e políticas que cheguem de Brasília até a porteira da fazenda.
O Cerrado foi colonizado. Agora precisa ser, em parte, devolvido. E quem melhor do que os colonos e seus filhos para liderar essa reparação?
🌾 O Produtor de Água, programa do GDF em parceria com a ANA, a Embrapa e o Emater-DF, remunera produtores rurais do DF que adotam práticas de conservação e proteção de nascentes em suas propriedades. O programa é uma das referências nacionais em pagamento por serviços ambientais no Cerrado.
Eco Políticas em Pauta
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