Hoje encerra o X Simpósio Nacional sobre o Cerrado e III Simpósio Internacional sobre as Savanas Tropicais. Ao longo de três dias, cerca de 400 pesquisadores, professores, produtores rurais, gestores públicos e representantes da sociedade civil debruçaram-se sobre os dados mais recentes do bioma que abraça Brasília — e sobre as perguntas mais difíceis do nosso tempo: como produzir alimentos em larga escala sem destruir o que ainda resta do Cerrado? Como restaurar o que já foi perdido? Como garantir que as políticas públicas sigam o que a ciência recomenda — e não o contrário?
As respostas não são simples. Mas o simpósio deixa um conjunto de sinalizações claras que o Eco Políticas em Pauta traz hoje para o leitor que não pôde acompanhar o evento diretamente.
O Cerrado como protagonista da segurança alimentar global
A palestra de abertura do professor Rattan Lal — ganhador do Prêmio Mundial da Alimentação em 2020 e uma das maiores autoridades mundiais em ciências do solo — posicionou o Cerrado num contexto que vai muito além das fronteiras brasileiras. As savanas tropicais representam os biomas com maior potencial de produção sustentável de alimentos no mundo. E o Cerrado brasileiro, com suas tecnologias de manejo desenvolvidas ao longo de cinco décadas pela Embrapa, é o modelo mais bem-sucedido de desenvolvimento agrícola em savana tropical do planeta.
O professor Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, completou esse quadro com uma análise sobre o poder geopolítico do alimento. O Brasil, que ocupa o Cerrado como principal fronteira agrícola, tem nas mãos uma responsabilidade histórica: o mundo vai precisar de muito mais alimento nas próximas décadas, e o Cerrado é um dos poucos lugares do planeta com capacidade real de ampliar a produção. A questão é como fazê-lo sem reproduzir os erros das últimas décadas.
Clima, produção e a urgência de integrar
O Painel de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, moderado pela professora Mercedes Bustamante da UnB — uma das maiores especialistas em ecologia do Cerrado do país —, aprofundou a análise sobre as sinergias entre as crises de biodiversidade e clima. A mensagem central é que não é possível enfrentar uma sem enfrentar a outra. O desmatamento do Cerrado não é apenas um problema de biodiversidade — é um problema climático. Cada hectare de vegetação nativa destruído libera carbono, reduz a capacidade de recarga hídrica e amplifica os extremos climáticos que já afetam a produção agrícola da região.
O pesquisador Eduardo Delgado Assad, da FGV, apresentou os números sobre mudanças climáticas e agropecuária no Cerrado: o bioma já registra alterações nos padrões de chuva, aumento das temperaturas médias e prolongamento da estação seca que afetam diretamente a janela de plantio e a produtividade das culturas. A adaptação não é mais opcional — é condição de sobrevivência do agronegócio cerradeiro.
Sistemas de produção que produzem e conservam
O Painel de Sistemas de Produção Agrícola Sustentáveis e Resilientes destacou experiências concretas de como é possível produzir mais com menos impacto ambiental. A integração lavoura-pecuária-floresta, desenvolvida e aprimorada pela Embrapa Cerrados ao longo de décadas, foi apresentada como uma das ferramentas mais eficazes disponíveis: em propriedades que adotam o sistema, a produtividade aumenta, a emissão de gases de efeito estufa por unidade produzida cai e a cobertura vegetal do solo é mantida o ano inteiro.
O caso da Fazenda Malunga, referência nacional em produção orgânica no DF, foi apresentado no Painel de Agropecuária Sustentável como exemplo de que é possível produzir alimentos saudáveis e de alto valor agregado no Cerrado sem uso de agrotóxicos e com práticas que regeneram o solo. Do canteiro à mesa, como resumiu a apresentação, o caminho é possível — e rentável.
Políticas públicas: a ciência que ainda não chegou a Brasília
O Painel de Políticas Públicas, que encerrou o simpósio nesta tarde, foi talvez o mais tenso — e o mais necessário. A mensagem dos especialistas é clara: existe hoje, no Brasil, um volume enorme de conhecimento científico sobre como produzir e conservar o Cerrado de forma integrada. O problema é que esse conhecimento não se traduz em políticas públicas com a velocidade e a consistência necessárias.
Thiago Belote Silva, diretor do Ministério do Meio Ambiente, apresentou os desafios da governança multiescalar para a restauração e a bioeconomia do Cerrado — reconhecendo que as metas de restauração do bioma exigem ação coordenada entre governo federal, estados, municípios e setor privado, e que o arcabouço institucional disponível ainda é insuficiente para esse desafio. O representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário trouxe o recorte da agricultura familiar e das políticas de incentivo à produção de alimentos no Cerrado — reforçando que o bioma não é apenas território do agronegócio de exportação, mas também de comunidades que produzem e conservam há gerações.
O que fica do simpósio
O X Simpósio do Cerrado encerra com uma mensagem que este blog acompanha desde o início: o Cerrado não é problema nem obstáculo. É oportunidade e responsabilidade. Oportunidade de produzir alimentos, sequestrar carbono, conservar biodiversidade, gerar renda para comunidades tradicionais e posicionar o Brasil como líder global de um modelo de desenvolvimento que o mundo precisa urgentemente. E responsabilidade de não desperdiçar esse potencial com políticas que desmontam o licenciamento ambiental, que retardam a regularização fundiária de territórios tradicionais e que ignoram os alertas que a ciência vem lançando há décadas.
Os pesquisadores voltam para seus laboratórios. Os gestores voltam para seus ministérios. Os produtores voltam para o campo. O Cerrado continua lá — esperando que o que foi discutido nos últimos três dias se transforme em lei, em orçamento, em política pública. E esperando que a próxima edição do simpósio, daqui a alguns anos, possa celebrar mais avanços do que lamentar retrocessos.
🌿 O X Simpósio Nacional sobre o Cerrado é promovido pela Embrapa Cerrados em parceria com a Universidade de Brasília. Os trabalhos científicos apresentados serão publicados nos anais do evento e disponibilizados no portal da Embrapa.
Eco Políticas em Pauta

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