Hoje, 23 de junho, Dia do Lavrador, Brasília acorda com dois motivos para pensar no campo. O primeiro é a homenagem aos homens e às mulheres que trabalham a terra — esses lavradores que, com enxada ou trator, com mão calosa ou diploma de agronomia, garantem que o Brasil continue produzindo alimentos. O segundo é o início de um dos eventos científicos mais importantes do ano para quem estuda, pesquisa ou defende o Cerrado: o X Simpósio Nacional sobre o Cerrado e III Simpósio Internacional sobre as Savanas Tropicais, promovido pela Embrapa Cerrados em parceria com a Universidade de Brasília.
A coincidência das datas não é mera casualidade. Ela resume uma das tensões mais produtivas — e mais urgentes — da história do bioma: a relação entre o lavrador que produz e o Cerrado que precisa sobreviver. E esse simpósio existe justamente para mostrar que essa relação não precisa ser conflito. Pode ser simbiose.
O evento e o que ele representa
O Simpósio Nacional sobre o Cerrado é o maior e mais antigo fórum científico do bioma. Sua história começa em 1962, em São Paulo, com o modesto tema "Introdução ao estudo do Cerrado e suas características gerais". Desde então, passou por Rio de Janeiro, voltou para São Paulo, fixou-se em Brasília e foi crescendo junto com o próprio bioma — que nas décadas seguintes se tornaria o maior celeiro agrícola do Brasil e um dos mais pressionados ecossistemas do planeta.
Esta décima edição acontece na Associação dos Docentes da Universidade de Brasília e reúne cerca de 400 participantes entre pesquisadores, professores, estudantes, produtores rurais, representantes do poder público, do terceiro setor e de empresas privadas. Palestrantes nacionais e internacionais debatem ao longo de três dias cinco painéis temáticos que mapeiam os grandes desafios e as melhores respostas da ciência para o bioma: Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Sistemas de Produção Agrícola Sustentáveis e Resilientes, Agropecuária Sustentável, Sociobiodiversidade e Políticas Públicas baseadas em Ciência e Tecnologia.
A abertura traz um nome de peso internacional: o professor Rattan Lal, da Universidade Estadual de Ohio, ganhador do Prêmio Mundial da Alimentação em 2020 — o equivalente ao Nobel para quem trabalha com segurança alimentar e ciências do solo — apresenta uma palestra gravada sobre as savanas tropicais globais e o sucesso do Cerrado. Em seguida, Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV e ex-ministro da Agricultura, faz a palestra magna sobre o papel do Cerrado na segurança alimentar mundial.
Cinquenta anos de ciência em Planaltina
Há uma data que torna este simpósio ainda mais especial. Em 1º de julho de 2026 — daqui a oito dias — a Embrapa Cerrados completa 50 anos de existência. Criada em 1975 em Planaltina, no Distrito Federal, a unidade foi concebida com um desafio monumental: viabilizar a produção agropecuária em solos que, até então, eram considerados impróprios para a agricultura. Os latossolos do Cerrado eram ácidos, compactados, pobres em nutrientes e cobertos por uma vegetação que ninguém sabia muito bem como usar. O Brasil tinha um bioma enorme — 24% do território nacional — e não sabia o que fazer com ele.
Cinquenta anos depois, o Cerrado é responsável por mais da metade da produção de grãos do Brasil. A Embrapa Cerrados está no coração dessa transformação, com tecnologias que foram do desenvolvimento de cultivares tropicais de soja e milho ao manejo integrado de pragas, do plantio direto à integração lavoura-pecuária-floresta. Como destacou o pesquisador Marcelo Fideles em solenidade recente: "Se os Estados Unidos têm o Vale do Silício, nós temos o Planalto do agro. Brasília foi criada no Cerrado, mas a agricultura tropical moderna foi criada em Brasília pela Embrapa."
A questão central: produzir e conservar ao mesmo tempo
O grande mérito histórico da Embrapa Cerrados foi mostrar que era possível produzir alimentos no Cerrado. O desafio dos próximos 50 anos é mais complexo: mostrar que é possível produzir mais e conservar mais ao mesmo tempo. E é exatamente esse o fio condutor do X Simpósio.
O Cerrado que em 1975 era considerado terra sem valor tornou-se o maior bioma produtivo do Brasil. Mas perdeu, nesse processo, mais de metade de sua cobertura vegetal original. As nascentes estão sob pressão. As espécies endêmicas estão ameaçadas. As comunidades tradicionais foram, em muitos casos, expulsas de territórios que manejavam há gerações. O Cerrado ganhou produtividade e perdeu biodiversidade numa troca que a ciência agora sabe que não precisava ser necessária.
É para resolver essa equação — mais alimento, mais biodiversidade, mais clima estável, mais gente bem alimentada e bem remunerada no campo — que 400 pessoas se reúnem hoje na UnB. E é por isso que o Dia do Lavrador e o X Simpósio do Cerrado merecem ser celebrados juntos.
🌾 O X Simpósio Nacional sobre o Cerrado e III Simpósio Internacional sobre as Savanas Tropicais acontece de 23 a 25 de junho na Associação dos Docentes da Universidade de Brasília. A Embrapa Cerrados completa 50 anos em 1º de julho de 2026.
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