Há cinquenta anos, quando a Embrapa Cerrados foi criada em Planaltina, no dia 1º de julho de 1975, o Cerrado era visto pela ciência agrícola da época como uma terra de solos pobres, ácidos e improdutivos. Cinco décadas depois — celebradas em solenidade no início deste mês, em Planaltina — a história é completamente diferente. O Cerrado se tornou um dos biomas mais estudados do planeta, e a ciência que se debruçou sobre ele revelou camadas de complexidade que seguem surpreendendo até quem trabalha com o bioma há décadas. Em véspera do Dia Nacional da Ciência, celebrado amanhã, vale revisitar o que a pesquisa descobriu sobre o Cerrado nos últimos anos — e por que isso importa para quem vive em Brasília.
O solo como caixa d'água viva
Uma das descobertas mais transformadoras da ciência do Cerrado nos últimos anos diz respeito ao papel do manejo do solo na segurança hídrica. Pesquisas recentes da Embrapa Cerrados mostram que um manejo de solo bem feito, que estimula o desenvolvimento de raízes profundas, transforma a terra em uma verdadeira caixa d'água natural, capaz de proteger as plantas durante veranicos e períodos de estresse hídrico. Isso não é metáfora: é física e biologia do solo trabalhando juntas. Solos cobertos por vegetação ou palhada, com raízes vivas permeando suas camadas, infiltram mais água, erodem menos e mantêm sua estrutura — funcionando como reservatórios subterrâneos que sustentam nascentes mesmo nos meses mais secos.
A pesquisa em recursos hídricos do Cerrado, que ganhou força a partir dos anos 2000 com a chegada de especialistas em hidrologia à Embrapa, confirmou com números o que muitos já intuíam: o Cerrado é o berço das águas do Brasil. O bioma contribui para a formação de doze grandes regiões hidrográficas do país — um dado que, repetido tantas vezes em relatórios técnicos, ainda carrega a força de revelar algo extraordinário: a água que abastece boa parte do território brasileiro nasce, em algum momento de seu percurso, sob a vegetação rasteira e os solos profundos do Cerrado.
Raízes que reescrevem os livros de botânica
A ciência também avançou significativamente na compreensão dos sistemas radiculares das plantas do Cerrado — um dos traços mais extraordinários e menos visíveis do bioma. Estudos conduzidos ao longo das últimas décadas confirmaram que espécies nativas desenvolvem raízes que podem ultrapassar quinze, vinte, trinta metros de profundidade, alcançando lençóis freáticos muito além do que qualquer cultura agrícola convencional consegue acessar. É essa arquitetura subterrânea que explica por que o Cerrado, mesmo no auge da seca, mantém parte de sua vegetação verde — ao contrário da Caatinga, por exemplo, onde a perda foliar é quase total durante a estiagem.
Crises gêmeas: clima e biodiversidade
Uma das contribuições científicas mais importantes dos últimos anos veio da professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília — uma das cientistas mais citadas do mundo em estudos sobre o Cerrado e vencedora, em 2025, do Prêmio Fundação Conrado Wessel na categoria Ciências e Mudanças Climáticas. Em debates recentes promovidos pela Embrapa Cerrados, Bustamante apresentou um conceito que vem orientando boa parte da pesquisa atual sobre o bioma: as crises climática e de biodiversidade são crises gêmeas, que não podem ser tratadas separadamente. Hoje, a mudança no uso da terra é o principal fator de perda de biodiversidade no Cerrado — mas a cientista alerta que o aquecimento global tende a se tornar a principal causa desse problema nas próximas décadas.
Essa conexão tem implicações práticas enormes. O destino do Cerrado, segundo Bustamante, tem impacto muito grande sobre todos os outros biomas brasileiros, dada sua conectividade hidrológica e climática com a Amazônia, a Caatinga, o Pantanal e a Mata Atlântica. Não é exagero dizer que o que acontece no Planalto Central reverbera por todo o território nacional.
Cinquenta anos de tecnologia a serviço do bioma
Ao longo de cinco décadas, a Embrapa Cerrados desenvolveu centenas de soluções tecnológicas específicas para o bioma: cultivares adaptados de soja, milho, café e outras culturas; sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta; recomendações técnicas para manejo e conservação dos solos; zoneamento agrícola de risco climático. Mas talvez a contribuição mais importante para o futuro seja a mais recente: a área de gestão de recursos hídricos, que hoje orienta produtores sobre irrigação eficiente, proteção de nascentes e manejo que estimula a retenção de umidade no solo — sempre com a mesma mensagem central, repetida pelos pesquisadores: para garantir água no futuro, é preciso cercar nascentes e permitir a regeneração da vegetação nativa, a proteção natural do fluxo hídrico.
A ciência do Cerrado não é apenas acadêmica — ela é, literalmente, o conhecimento que decide se haverá água em Brasília daqui a vinte anos. Amanhã, no Dia Nacional da Ciência, vale lembrar que cada nascente protegida, cada hectare de Cerrado nativo mantido em pé, carrega décadas de pesquisa por trás da recomendação simples que parece óbvia, mas não é: deixe o Cerrado em pé, e ele vai cuidar da água que você bebe.
🔬 A Embrapa Cerrados, sediada em Planaltina (DF), opera três áreas experimentais estratégicas no Distrito Federal e em Goiás e disponibiliza parte de suas publicações científicas e recomendações técnicas ao público em seu portal institucional.
Eco Políticas em Pauta

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