Hoje é dia de Santo Antônio — e em Brasília, como em boa parte do Brasil, junho significa forró, quadrilha, milho verde, quentão e a chama que acende a festa mais popular do calendário brasileiro. As festas juninas são patrimônio imaterial da nação, expressão viva da cultura nordestina que viajou pelo interior do país e ganhou sotaque cerradeiro. Ninguém quer estragar a festa. Mas há uma conversa honesta que precisa acontecer antes que o primeiro palito de fósforo seja riscado: em plena emergência ambiental no DF, com El Niño se formando e o Cerrado mais seco do que deveria estar em junho, o que fazemos com a fogueira?
A história da fogueira junina
Antes de qualquer coisa, é preciso entender de onde vem a tradição. As festas juninas foram introduzidas pelos portugueses durante o período colonial e celebram os santos católicos de junho — Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). A grande fogueira, conhecida como fogueira junina, tem origem numa história católica de um fogo aceso para informar Maria sobre o nascimento de São João Batista. As festas ocorriam tradicionalmente nas regiões do interior, mais próximas das grandes plantações do Nordeste.
No Brasil, a fogueira ganhou dimensão própria. Tornou-se o coração visual das festas, o símbolo do calor comunitário, o ponto de encontro que aquece não apenas o corpo mas o sentimento de pertencimento. Proibir a fogueira sem oferecer alternativas é ignorar o peso cultural que ela carrega — e já gerou conflitos jurídicos reais. Em 2022, na Bahia, a OAB ingressou com ação civil pública contra a proibição executiva das fogueiras juninas em uma cidade do interior, obtendo tutela de urgência para garantir que o símbolo da festa fosse aceso. A tensão entre proteção ambiental e expressão cultural não é nova — e merece ser tratada com respeito aos dois lados.
O contexto de 2026 em Brasília
O problema é que 2026 não é um ano comum para o DF. O Governo do Distrito Federal decretou estado de emergência ambiental para o período de estiagem de 2026, com validade até novembro, para acelerar ações de prevenção e combate aos incêndios florestais no Cerrado. Em 2024, mais de 18 mil hectares foram atingidos por incêndios no DF. A temporada de queimadas está oficialmente aberta. A vegetação do Cerrado está secando. Há elevada probabilidade de formação de um El Niño de forte intensidade entre setembro e outubro, com seca severa e prolongada e aumento expressivo do risco de incêndios florestais.
Nesse contexto, a fumaça da festa junina não é apenas fumaça festiva. A queima de materiais para acendimento de fogueiras gera fumaça que se dispersa rapidamente, atingindo não apenas quem acende, mas também moradores do entorno. Esse tipo de poluição atmosférica pode agravar problemas respiratórios como asma e bronquite, além de causar desconforto em crianças, idosos e pessoas com maior sensibilidade. O uso de fogueiras em áreas urbanas também aumenta o risco de incêndios, podendo provocar acidentes e danos materiais.
Em Brasília, o risco é potencializado pela proximidade com o Cerrado nativo. Uma faísca que escapa de uma fogueira em um lote de Sobradinho, do Gama ou de São Sebastião pode, com o vento seco de junho, percorrer metros em segundos e alcançar vegetação nativa ressecada. Não é alarmismo — é o que o Corpo de Bombeiros do DF documenta todos os anos.
Festejar sem queimar: é possível?
A resposta é sim — e a festa pode ser ainda mais bonita. As festas juninas em Brasília em 2026 já têm programação robusta, com arraiás em quadras, comunidades, escolas e espaços culturais espalhados por todo o DF. A maioria já optou por fogueiras simbólicas — estruturas de madeira iluminadas por LED ou luz colorida que reproduzem a atmosfera da chama sem o risco do fogo real. O efeito visual é praticamente idêntico. O risco, zero.
Essa solução não é invenção de burocratas ambientais — foi adotada espontaneamente por organizadores de festas em diversas cidades brasileiras nos últimos anos, especialmente após temporadas de seca severa. Escolas públicas do DF já utilizavam a "fogueira de LED" antes mesmo das regulamentações — porque faz sentido, porque é segura para as crianças e porque permite festejar em qualquer clima.
Outras alternativas que funcionam: espetáculos de dança do fogo controlada por profissionais habilitados, em área preparada e com Corpo de Bombeiros presente; projeções de imagem de chama em telas; e — por que não — a valorização dos outros elementos da festa, que não dependem de fogo algum: a quadrilha, o forró, a canjica, o arroz doce, o bumba-meu-boi, o pau de sebo, a dança dos casais.
A cultura junina sobrevive ao fogo que não acendemos
Há algo de profundamente brasileiro nessa tensão — entre o impulso de celebrar a vida com exuberância e a necessidade crescente de fazer isso sem destruir o ambiente que nos sustenta. As festas juninas nasceram no interior, numa relação íntima com a terra, com as chuvas esperadas, com os santos que protegem as colheitas. Essa origem agrária é, em si, uma consciência ecológica avant la lettre.
Talvez o espírito mais autêntico das festas juninas, em 2026, seja exatamente esse: festejar o Cerrado que ainda temos, as chuvas que ainda chegam, a terra que ainda produz — e proteger tudo isso da faísca que poderia consumi-lo. Santo Antônio, padroeiro dos namorados e dos pobres, provavelmente aprova.
Em Brasília, que tem sol quente, Cerrado seco e o coração festeiro de quem veio de todos os cantos do Brasil, junho pode ser tudo — forró, quadrilha, milho na brasa e quentão quente. A fogueira, este ano, pode brilhar em LED. O calor da festa continuará real.
🎉 Para curtir com consciência: a programação completa das festas juninas em Brasília 2026, com eventos gratuitos e para todas as idades, está disponível em brasiliacomcriancas.com.br e brasilia.deboa.com. Para denunciar fogueiras em áreas de risco, ligue 193 (Bombeiros) ou acesse o aplicativo do CBMDF.
Eco Políticas em Pauta
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