A floresta que alimenta 70% dos brasileiros — e está desaparecendo diante dos seus olhos

Amanhã, 27 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Mata Atlântica — data criada em 1999 para marcar o aniversário da Carta de São Vicente, assinada pelo Padre Anchieta em 1560, o primeiro documento a registrar oficialmente a biodiversidade das florestas tropicais brasileiras. Mas antes de acender qualquer vela de celebração, é preciso olhar para os dados com olhos abertos. Em 2025, a Mata Atlântica registrou a menor quantidade de mata nativa entre os biomas brasileiros — o que transforma a efeméride, mais do que uma comemoração, num chamado de urgência. 

A boa notícia, fresca e histórica, chegou esta semana: o desmatamento na Mata Atlântica atingiu, entre 2024 e 2025, o menor nível registrado desde o início do monitoramento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo INPE, em 1985. A supressão de florestas maduras caiu 40% em relação ao período anterior, passando de 14.366 hectares para 8.658 hectares — a primeira vez, em quatro décadas de acompanhamento contínuo, que a devastação anual fica abaixo da marca de 10 mil hectares. É um avanço real, conquistado com esforço e que precisa ser reconhecido. Mas não é suficiente para respirar aliviado. Não com o tamanho da dívida acumulada. 

Uma floresta de números impressionantes — e assustadores

A Mata Atlântica é um dos biomas mais biodiversos do mundo, abrigando cerca de 20 mil espécies de plantas, 849 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes. Originalmente cobria cerca de 15% do território nacional, estendendo-se por 17 estados do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Hoje, segundo dados consolidados do MapBiomas, restam menos de 23% de sua cobertura original, fragmentada e pressionada pela urbanização, agricultura e desmatamento. E apenas cerca de 12,4% são florestas maduras e preservadas — aquelas com maior estoque de carbono, maior biodiversidade e menor capacidade de ser substituídas. 

O número que mais deveria parar qualquer conversa sobre desenvolvimento a qualquer custo é este: a Mata Atlântica abriga cerca de 70% da população brasileira e é responsável por mais de 80% do PIB do país. Sete em cada dez brasileiros vivem em território que foi Mata Atlântica. Oito em cada dez reais da riqueza nacional são produzidos dentro de sua área de abrangência. A saúde econômica e humana do Brasil está lastreada, em boa medida, naquilo que resta dessa floresta — e naquilo que ainda pode ser restaurado.

O que está destruindo o que sobrou

A expansão urbana, a agricultura intensiva, a extração ilegal de madeira e a construção de grandes empreendimentos são algumas das principais ameaças que resultaram na drástica redução de sua área original. Esse desmatamento descontrolado provoca a fragmentação dos habitats, ameaçando a sobrevivência de inúmeras espécies. 

Os dados mais recentes revelam padrões preocupantes mesmo dentro da tendência de queda: em 2024, a Mata Atlântica foi o único bioma brasileiro que não apresentou redução nas taxas de desmatamento, segundo dados do Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas. Os eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 contribuíram para esse resultado, com perda de 3.307 hectares devido a eventos classificados como "desastres naturais". Deslizamentos e enchentes foram responsáveis por 46,4% da destruição em Áreas de Preservação Permanente no bioma. 

O dado é revelador em dois sentidos: primeiro, mostra que a destruição da Mata Atlântica não é apenas resultado de motosserras e tratores — as mudanças climáticas já destroem a floresta por meio de eventos extremos. Segundo, evidencia que desmatamento e clima são uma espiral viciosa: destruir a floresta intensifica os eventos extremos, que por sua vez destroem mais floresta.

As perdas permanecem altas, principalmente em áreas historicamente críticas, e avançam sobre matas maduras, que são insubstituíveis em biodiversidade e regulação climática. A Mata Atlântica é o bioma com o maior número de espécies extintas do Brasil — e grande parte dos animais ameaçados de extinção no país, como os micos-leões, a lontra, a onça-pintada, o tatu-canastra e a arara-azul-pequena, são originários dela. 

O que ainda pode ser salvo — e restaurado

Diversas iniciativas têm sido desenvolvidas para reverter esse cenário. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, uma coalizão que reúne mais de 300 instituições, tem o objetivo de restaurar 15 milhões de hectares de florestas até 2050. Um exemplo inspirador vem do Instituto Terra, fundado pelo fotógrafo Sebastião Salgado e sua esposa Lélia: na fazenda da família, em Aimorés, Minas Gerais, foram plantadas 3 milhões de árvores nativas, resultando em uma floresta de 710 hectares, certificada como Reserva Particular do Patrimônio Natural. O sertão virou floresta. O impossível virou realidade. 

Mas a restauração individual, por mais inspiradora que seja, não substitui políticas públicas robustas. Para o diretor-executivo da SOS Mata Atlântica, Luís Fernando Guedes Pinto, o impacto do desmatamento devido a causas climáticas é já evidente e pode ameaçar até mesmo as Unidades de Conservação. Se não houver coordenação eficaz entre conservação ambiental, uso do solo e adaptações climáticas adequadas, os ciclos destrutivos continuarão se repetindo. 

O que Brasília tem a ver com a Mata Atlântica

O Cerrado, que abraça Brasília, não é Mata Atlântica — mas as duas histórias se entrelaçam. É de Brasília que saem as normas que definem os critérios de licenciamento para obras no domínio da Mata Atlântica. É no Congresso que se aprova ou se enfraquece a lei específica de proteção do bioma — a única lei especial que uma floresta brasileira possui. E é o governo federal que decide quantos recursos destinará ao Ibama, ao ICMBio e à fiscalização dos 17 estados que ainda abrigam fragmentos dessa floresta extraordinária.

Amanhã é o Dia da Mata Atlântica. Que seja um dia de compromisso — não de celebração prematura.

🌿 Para acompanhar: o Atlas da Mata Atlântica 2024-2025, com os dados históricos mais recentes, está disponível em sosma.org.br/atlas. O SAD Mata Atlântica permite monitoramento em tempo real em parceria com o MapBiomas. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica está em pactomataatlantica.org.br.


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