Quem alimenta o Brasil também protege o Cerrado: a agroecologia do pequeno produtor


Na última segunda-feira, 25 de maio, o Brasil celebrou o Dia do Trabalhador e da Trabalhadora Rural. A data passou com pouco barulho nos grandes veículos de comunicação — como sempre. Mas merece mais do que uma nota de rodapé. Porque os agricultores familiares do Centro-Oeste brasileiro carregam sobre os ombros algo que vai muito além da produção de alimentos: eles são, silenciosamente, alguns dos mais eficazes guardiões do Cerrado.

A agricultura familiar é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos diariamente na mesa de milhões de brasileiros e brasileiras, gera 10,1 milhões de ocupações no campo e, embora utilize apenas 23% da área rural do país, representa 23% do valor bruto da produção agropecuária. E faz isso, frequentemente, de um jeito que o agronegócio de escala não consegue — com diversidade, com memória ecológica, com respeito aos ciclos da terra. 

O que o pequeno produtor guarda que o grande ignora

Realino Lopes é agricultor familiar e técnico agropecuário no Cerrado. Quando perguntado sobre as espécies nativas que habitam sua propriedade, ele precisa de um tempinho para listar a biodiversidade: pequi, angá, veludo branco, mamacadela, pé-de-anta, algodãozinho, maria pobre, jacarandá e ipês — branco e rosa. E a biodiversidade vai além de vegetais: pela conservação da propriedade, aparecem espécies de macaco, jacu, quati, tatu, tamanduá e mutum, sem mencionar os pássaros. A fazenda de Realino não é uma unidade de conservação oficial. É uma propriedade produtiva, de agricultura familiar, que simplesmente não destruiu o que o Cerrado lhe ofereceu.

Esse padrão não é exceção. É regra. Por trabalhar em pequena escala, as propriedades de agricultura familiar contribuem para a preservação de tradições culturais, a manutenção da biodiversidade e a manutenção de áreas florestadas com mais facilidade. A diversidade na produção — cultivar diferentes espécies em pequenas porções de terra — se estabelece como alternativa à monocultura, que cultiva uma única espécie em larga escala, causando esgotamento e contaminação do solo, perda de biodiversidade e piora do aquecimento global. 

O Cerrado como despensa e farmácia

O bioma que abraça Brasília oferece aos agricultores familiares uma riqueza que o mercado convencional ainda não sabe precificar adequadamente. O Catálogo de Produtos da Sociobiodiversidade do Cerrado, elaborado pelo WWF-Brasil, lista espécies como araticum, babaçu, bacuri, baru, buriti, cagaita, cajuí, capim dourado, coquinho-azedo, fava-d'anta, gueroba, jatobá, jenipapo, licuri, macaúba, mangaba, murici, pequi, pitomba e umbu — cada uma com seu ciclo de safra, área de ocorrência e importância econômica. O catálogo apresenta ainda 60 empreendimentos comunitários — associações e cooperativas — que produzem, processam e comercializam os frutos do Cerrado. 

São comunidades geraizeiras, apanhadores de flores sempre-vivas, coletores de pequi, quebradeiras de babaçu, extrativistas de mangaba — povos que desenvolveram ao longo de gerações um conhecimento profundo do bioma, aprendendo quando colher e quando deixar a planta descansar, como manejar o fogo de forma controlada, como intercalar espécies para manter a fertilidade do solo. Em 2023, o extrativismo vegetal movimentou R$ 6,2 bilhões no Brasil, com o pequi registrando aumento de 34% em comparação com dados de 2022. É dinheiro real, gerado por mãos que conhecem cada espinho e cada aroma do Cerrado.

Mulheres que produzem e que protegem

Em Nioaque, Mato Grosso do Sul, um projeto recente mostra o que acontece quando se combina agroecologia com protagonismo feminino. De maio de 2024 ao início de 2025, dez famílias do Assentamento Andalucia — lideradas pelas mulheres — receberam estrutura para implantar quintais agroecológicos de até um hectare cada. Resultado: em um ano, as famílias produziram alimento, recuperaram nascentes e registraram mais de 20 espécies de fauna silvestre na propriedade. Tamanduá, tatu, seriema, gralha, gambá — a biodiversidade voltou a habitar o lugar onde o monocultivo havia deixado o solo nu. 

A engenheira florestal e indígena do povo Terena que conduziu o projeto resume o que a ciência e a prática confirmam: "Quando a gente entra nos territórios, a gente nunca está indo para ensinar. A gente sabe que quando vem em territórios, tudo vem da nossa ancestralidade." O conhecimento ecológico tradicional não é romantismo — é tecnologia. E é uma das ferramentas mais poderosas que o Brasil tem para conciliar produção e conservação.

O que o Pronaf 2025/2026 trouxe de novo

O governo federal reconhece, pelo menos no papel, a dimensão ambiental da agricultura familiar. O Plano Safra 2025/2026 trouxe novas linhas do Pronaf voltadas à sustentabilidade: o Pronaf Bioeconomia, de apoio à produção de bioprodutos e uso de resíduos agroindustriais, e o Pronaf RenovaAgro, com crédito especial a 3% ao ano para projetos de transição agroecológica, sistemas agroflorestais e manejo regenerativo do solo. São instrumentos concretos — mas que dependem de assistência técnica acessível, de extensão rural qualificada e de mercados dispostos a pagar o preço justo pelos produtos do Cerrado. 

Porque é aí que a cadeia quebra. O pequeno produtor que preserva o Cerrado, que mantém nascentes limpas e que cultiva a diversidade não recebe pelo serviço ambiental que presta à sociedade. A água que abastece Brasília, as chuvas que alimentam a agricultura do Centro-Oeste, o carbono estocado nos solos profundos do bioma — tudo isso passa pelas mãos de quem trabalha a terra de forma diversa e respeitosa. E quase nada disso é remunerado.

O protagonismo das mulheres rurais merece destaque especial: elas são responsáveis por boa parte da manutenção da vida no campo e seguem engajadas na luta contra a fome, fazendo da produção de alimentos uma garantia de acesso à alimentação saudável no Brasil. Por meio da promoção de práticas agroecológicas, do fortalecimento da preservação ambiental e da defesa do direito à terra, elas inspiram novas gerações. 

Neste pós-Dia do Trabalhador Rural, a homenagem mais justa não é um artigo comemorativo. É a cobrança por políticas que reconheçam, remuneram e protejam quem alimenta o país enquanto cuida do Cerrado. Antes que o latifúndio e a soja engulam o que resta.

🌾 Para acompanhar: o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) coordena o Programa Cerrado-Jalapão e apoia comunidades agroextrativistas em todo o bioma. O Catálogo de Produtos da Sociobiodiversidade do Cerrado está disponível em wwf.org.br. O Pronaf RenovaAgro pode ser acessado via agentes financeiros credenciados ao Ministério do Desenvolvimento Agrário.


Eco Políticas em Pauta

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