Brasil tem 20% da biodiversidade do planeta — e está cumprindo o acordo para protegê-la?

Ontem, 22 de maio, o mundo celebrou o Dia Internacional da Biodiversidade. A data marca a adoção do texto da Convenção sobre Diversidade Biológica, em 1992, no Rio de Janeiro — um acordo histórico que colocou a proteção da vida na Terra no centro da agenda global. Mais de três décadas depois, a pergunta que ninguém quer responder com honestidade é: o que foi entregue? E o Brasil, que abriga entre 15% e 20% de toda a biodiversidade do planeta, tem cumprido sua parte?

O país mais biodiverso do mundo — e suas contradições

Os números do Brasil impressionam. O território brasileiro abriga entre 15% e 20% de toda a biodiversidade do planeta, com ecossistemas extremamente ricos e diversos, como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga e os Pampas. Essa riqueza natural, porém, também está sob ameaça — o desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado, os incêndios florestais, a expansão agrícola desordenada, a poluição dos rios e a mineração predatória vêm comprometendo a integridade dos ecossistemas brasileiros. 

O paradoxo é inescapável: o país que mais tem a perder com a crise de biodiversidade é o mesmo que mais contribui para ela. E é também o país que, nos últimos anos, voltou a ocupar papel de liderança nas negociações internacionais sobre o tema — o que torna a cobrança por resultados ainda mais legítima e urgente.

O Acordo de Kunming-Montreal e as metas para 2030

Em dezembro de 2022, em Montreal, 196 países assinaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal — o chamado "Acordo de Paris para a biodiversidade". Esse marco estabelece metas ambiciosas, como a de proteger pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030, restaurar ecossistemas degradados e garantir o uso sustentável dos recursos naturais. São 23 metas para a década, num pacote que a comunidade científica reconhece como a última janela real para reverter o colapso da biodiversidade global. 

O Brasil respondeu com seriedade institucional. Em fevereiro de 2025, a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) publicou a Resolução nº 9, recomendando a adoção das Metas Nacionais de Biodiversidade para o período 2025 a 2030 e sua implementação pelo governo federal. Foram estabelecidas 23 metas que buscam a regeneração de todo o conjunto de vida dos biomas brasileiros. Entre os compromissos mais ambiciosos estão zerar o desmatamento e avançar na meta 30×30 — proteger 30% do território nacional em áreas efetivamente conservadas. 

O que o Brasil já alcançou — e o que falta

Nos últimos anos, o avanço foi real. O desmatamento caiu consistentemente na Amazônia e no Cerrado entre 2022 e 2025. O governo federal criou novas unidades de conservação e acelerou processos de regularização. A COP30, em Belém, colocou o Brasil no centro das negociações sobre florestas e biodiversidade, com protagonismo reconhecido internacionalmente.

Mas os nós persistem. O Brasil ainda está longe da meta 30×30: hoje, cerca de 23% do território está em áreas protegidas de alguma forma — mas a proteção efetiva, com gestão ativa e fiscalização, é muito menor. O Cerrado, o bioma que sustenta Brasília, continua sendo o menos protegido do país, com menos de 10% do território em unidades de conservação, apesar de abrigar 5% de toda a biodiversidade mundial.

Um estudo sobre o desmonte de políticas socioambientais no Brasil aponta que o país pode enfrentar desafios sérios para a implementação da meta 30×30, especialmente diante do retrocesso na política de áreas protegidas e das recentes mudanças no licenciamento ambiental. A nova Lei Geral do Licenciamento — aprovada em 2025 e em vigor desde fevereiro de 2026 — é um obstáculo concreto: ao reduzir o controle sobre atividades de impacto ambiental, enfraquece a proteção de facto dos ecossistemas, mesmo onde há unidades de conservação formalmente estabelecidas. 

Biodiversidade como economia — e como sobrevivência

A perda de biodiversidade ameaça inclusive a saúde humana. Está provado que ela pode expandir as zoonoses — doenças transmitidas de animais para humanos — enquanto a biodiversidade intacta oferece ferramentas para lutar contra pandemias. A Covid-19, originada em interface entre humanos e fauna silvestre, foi o mais recente lembrete de que destruir ecossistemas não é apenas um problema ambiental. É um risco sanitário global. 

No plano econômico, a biodiversidade brasileira representa bilhões em serviços ecossistêmicos — polinização, purificação da água, regulação climática, controle de pragas, produção de princípios ativos farmacêuticos. São serviços prestados gratuitamente pela natureza, que quando destruídos precisam ser substituídos por tecnologia a custos inimagináveis — quando a substituição é sequer possível.

O que Brasília pode fazer — e o que precisa parar de fazer

A capital do país é, ao mesmo tempo, o lugar onde as políticas de proteção são decididas e onde o Cerrado — o bioma mais ameaçado e menos protegido do Brasil — está literalmente na janela. Implementar a meta 30×30 começa em casa: ampliando as unidades de conservação do DF, protegendo efetivamente as APPs, investindo na restauração das veredas e matas de galeria e criando corredores ecológicos entre os fragmentos que restam.

A Rede de Trilhas do Brasil foi destacada como exemplo de sinergia entre os três níveis de governo e o setor privado como solução eficaz na promoção da conectividade entre áreas protegidas — e o DF pode ser protagonista nesse modelo, com sua malha de parques e reservas interligada ao Parque Nacional de Brasília, ao Jardim Botânico e às APAs do entorno. 

O Dia Internacional da Biodiversidade passou. Mas a biodiversidade não espera celebrações anuais. Ela precisa de decisões diárias — sobre o que se planta, onde se constrói, o que se protege e o que se deixa de destruir. E o Brasil, que carrega 20% da vida do planeta em seu território, não pode continuar sendo o país que mais tem e que menos cuida.

🌿 Para acompanhar: as Metas Nacionais de Biodiversidade do Brasil para 2025-2030 estão disponíveis no site do Ministério do Meio Ambiente (gov.br/mma). O Portal de Monitoramento de Áreas Protegidas (PMDBBS), do Ibama, permite acompanhar em tempo real o desmatamento nas unidades de conservação brasileiras. A plataforma MapBiomas traz dados atualizados sobre cobertura vegetal em todos os biomas.


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