Existe um paradoxo cruel no coração do Brasil. O bioma que abriga as nascentes dos principais rios do país, que regula o clima de metade da América do Sul e que sustenta a maior biodiversidade de savana do planeta inteiro é, ao mesmo tempo, o menos protegido, o menos visível nas manchetes e o mais negligenciado pelas políticas públicas. O Cerrado não é apenas o quintal de Brasília. Ele é a caixa d'água, o banco de sementes e o pulmão verde da nação — e está em chamas.
A savana mais rica do mundo
O Cerrado é
considerado a savana mais biodiversa da Terra, superando as savanas africanas e
australianas. Com seus mais de 2 milhões de km² — o equivalente a cerca de 22%
do território nacional —, abriga aproximadamente 5% de toda a biodiversidade do
planeta. São cerca de 4.000 espécies endêmicas de plantas, além de uma fauna
riquíssima que inclui o lobo-guará, a arara-azul, a onça-pintada, o
tamanduá-bandeira e centenas de espécies de aves, répteis e anfíbios que não
existem em nenhum outro lugar do mundo.
Além da
biodiversidade, o Cerrado é a 'caixa d'água do Brasil'. Ele abriga nascentes
que alimentam três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul:
Tocantins-Araguaia, São Francisco e Prata. Os rios que nascem no Cerrado
abastecem cidades, irrigam lavouras e geram energia elétrica em estados que
sequer fazem fronteira com o bioma.
"O Cerrado armazena estimados 265 toneladas de carbono por hectare em suas raízes profundas e solos ricos — um reservatório climático imenso que, quando destruído, libera décadas de carbono acumulado de volta à atmosfera."
Uma emergência silenciosa
O problema é
que o Cerrado perdeu mais de metade de sua cobertura original. Hoje, menos de
50% da vegetação nativa permanece intacta. E apenas 0,85% do bioma está
protegido em unidades de conservação oficiais — um número vergonhosamente baixo
para um patrimônio de tamanha relevância global.
A fauna paga o
preço. De acordo com dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), das 5.191 espécies animais presentes no Cerrado, pelo
menos 478 estão ameaçadas de extinção. Entre elas, 64 espécies estão no nível
'Criticamente em Perigo' — o último estágio antes do desaparecimento total na
natureza. São espécies endêmicas: se desaparecerem do Cerrado, desaparecem do
planeta.
As principais ameaças são conhecidas: a expansão da monocultura intensiva de grãos e da pecuária extensiva, que avança especialmente na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia); o uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes que contamina solo e água; a fragmentação dos habitats que impede a movimentação das espécies; e as queimadas — cada vez mais frequentes, intensas e devastadoras.
Brasília e o Cerrado: uma relação urgente
Setembro do ano
passado foi marcado por milhares de focos de incêndio no Distrito Federal. Um
deles devastou quase metade da área da Floresta Nacional de Brasília. Em 2024,
o DF viveu 167 dias consecutivos sem chuva — o maior período de seca já
registrado na história da capital. A combinação de seca extrema, vegetação
ressecada e ignição criminosa tornou as queimadas um pesadelo recorrente.
Pesquisadores da Universidade de Brasília alertam que o Cerrado está sendo fortemente afetado por secas cada vez mais duradouras e intensas — agravadas pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura, a redução da precipitação e o prolongamento da estação seca afetam a fisiologia das plantas, a reprodução dos animais, a comunidade de microrganismos do solo e as relações entre polinizadores e flores. Um efeito dominó cujas consequências ainda são difíceis de dimensionar por completo.
Existe saída?
Sim — mas ela
exige urgência. Em 2023, o governo federal lançou a 4ª fase do Plano de Ação
para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado
(PPCerrado), com vigência até 2027 e meta de desmatamento zero até 2030. O
plano prevê rastreabilidade de produtos agropecuários, ampliação do manejo
integrado do fogo e a criação de um 'Fundo Biomas' — embora ainda sem fonte de
recursos definida.
A boa notícia é
que o desmatamento no Cerrado registrou queda de 32,3% entre 2022 e 2025. É um
avanço real. Mas a devastação acumulada em décadas de expansão agrícola não se
reverte com dois ou três anos de números positivos. A proteção efetiva do
Cerrado exige mais unidades de conservação, mais recursos para fiscalização,
pagamentos por serviços ambientais para comunidades que vivem no bioma e —
fundamentalmente — uma mudança cultural que reconheça o Cerrado como patrimônio
nacional, não como terra disponível para o próximo ciclo agrícola.
O Cerrado não é
apenas o bioma de Brasília. É o bioma do Brasil. E o Brasil não pode continuar
olhando para a Amazônia enquanto a savana que sustenta metade do país queima em
silêncio.
Eco Políticas em Pauta
🔥 Para saber mais: acompanhe os dados do INPE
sobre focos de incêndio no Cerrado em tempo real. Apoie organizações como o WWF
Brasil, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e o Cerrado Vivo,
que trabalham pela conservação do bioma. E lembre-se: o Cerrado começa aqui, em
Brasília.

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