Toda vez que abril chega, Brasília reencontra uma de suas contradições
mais antigas. A estação chuvosa, que em tese é o período de recarga dos
aquíferos, de renovação da vegetação e de florescimento do Cerrado,
transforma-se em sinônimo de alagamentos, deslizamentos e transtorno urbano.
Ruas viram rios. Passagens subterrâneas ficam submersas. Famílias em áreas de
risco passam noites sem dormir ao som da chuva. E, na manhã seguinte, o
noticiário registra os danos — até que o sol volte e tudo seja esquecido até o
próximo aguaceiro.
O problema não é a chuva. O Planalto Central recebe, entre outubro e
março, índices pluviométricos que estão entre os maiores do país em termos de
intensidade por evento. Mas o que transforma chuva em tragédia urbana é a forma
como as cidades são construídas — e Brasília, apesar de ter sido planejada do
zero, cometeu e continua cometendo erros que qualquer urbanista reconheceria
como evitáveis.
O problema da impermeabilização do solo
Quando o concreto, o asfalto e as edificações substituem o solo natural,
a água da chuva não tem para onde ir além das sarjetas e bueiros. O Cerrado, em
condições naturais, funciona como uma esponja gigante: suas raízes profundas e
seu solo poroso absorvem enormes volumes de água, alimentando gradualmente os
aquíferos e os cursos d'água. Quando esse solo é impermeabilizado, o escoamento
superficial aumenta dramaticamente — e a água que antes infiltrava agora corre,
rápida e violenta, em direção às partes mais baixas da cidade.
Estudos do Laboratório de Planejamento e Projeto da FAU-UnB estimam que o
DF impermeabilizou, nas últimas três décadas, uma fração significativa de sua
superfície urbana e periurbana. O crescimento das cidades-satélites, muitas
vezes sem o acompanhamento adequado de infraestrutura de drenagem, concentrou
os impactos nas populações mais vulneráveis — que geralmente habitam exatamente
as áreas de fundo de vale, à beira dos córregos que transbordam.
"Uma cidade que impermeabiliza sem planejar a
drenagem está, na prática, transferindo o risco climático das áreas nobres para
as periferias. É uma injustiça ambiental que se expressa em metros cúbicos de
água."
Infraestrutura de drenagem: um passivo histórico
O sistema de drenagem pluvial de Brasília foi dimensionado em uma época
em que a população e a área impermeabilizada eram uma fração do que são hoje.
Boa parte das galerias pluviais existentes está subdimensionada para os volumes
de chuva que eventos extremos — cada vez mais frequentes com as mudanças
climáticas — são capazes de gerar. O resultado é que, mesmo com chuvas dentro
da média histórica, pontos críticos da cidade alagam com regularidade
previsível.
O Governo do Distrito Federal mantém um programa de obras de drenagem
urbana, com intervenções em córregos e canais em diversas regiões. Mas as obras
avançam em ritmo lento diante da dimensão do passivo acumulado. Em Ceilândia,
Samambaia, Recanto das Emas e outras regiões populosas, moradores convivem há
décadas com o mesmo ciclo: chove forte, alaga, estraga, conserta parcialmente,
chove de novo.
O que cidades planejadas deveriam fazer diferente
A ironia do caso de Brasília é que pouquíssimas cidades do mundo tiveram
a oportunidade que ela teve: nascer do zero, sobre uma prancheta, com a
possibilidade de incorporar desde o início os melhores princípios de urbanismo
sustentável. Em parte, isso foi feito — o Plano Piloto preservou generosas
áreas verdes, manteve parques entre as superquadras e protegeu as bordas do
Lago Paranoá. Mas o crescimento além do Plano Piloto reproduziu os vícios das
cidades que se formaram sem planejamento.
Hoje, o conceito de infraestrutura verde urbana oferece respostas que não
existiam em 1960. Jardins de chuva, biovaletas, telhados verdes, calçadas
permeáveis e corredores verdes ao longo de córregos são soluções que combinam
estética, funcionalidade e resiliência climática. Cidades como Curitiba,
Medellín e Singapura já incorporaram essas ferramentas em larga escala.
Brasília tem projetos-piloto espalhados aqui e ali — mas ainda carece de uma
política pública abrangente que leve essas soluções às regiões mais
vulneráveis.
A urgência climática que muda o cálculo
As mudanças climáticas estão alterando o regime de chuvas no
Centro-Oeste. Os modelos climáticos indicam estações secas mais longas e
eventos de precipitação mais intensos e concentrados — o pior dos dois mundos
para uma cidade que já lida mal com os extremos. Isso significa que o problema
das enchentes urbanas em Brasília não vai se resolver sozinho com o tempo: ao
contrário, tende a se agravar se nada for feito.
A boa notícia é que existem soluções conhecidas, testadas e acessíveis. A
má notícia é que elas exigem vontade política, planejamento de longo prazo e
investimento consistente — três elementos que, no histórico recente da gestão
urbana do DF, têm aparecido com menos frequência do que as enchentes de abril.
Fontes
consultadas: Novacap, Adasa, FAU-UnB, Instituto Nacional de Meteorologia
(Inmet), Cemaden, ONU-Habitat.
Eco Políticas em Pauta

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