Quem sobrevoa Brasília durante a estação chuvosa tem a impressão de uma
cidade abençoada pelas águas. O Lago Paranoá brilha ao centro, rodeado por
parques e orlas urbanizadas. Os córregos transbordam. As ruas alagam. Parece
impossível imaginar que essa mesma cidade, poucos meses depois, enfrentará
secas severas, queda nos níveis dos reservatórios e alertas de racionamento. E,
no entanto, esse ciclo se repete ano após ano — e a gestão hídrica da capital
federal ainda não aprendeu a lidar com ele de forma estrutural.
Brasília é estrategicamente posicionada no Planalto Central, uma das
regiões do planeta com maior concentração de nascentes e cabeceiras de rios.
Dali brotam afluentes do Amazonas, do São Francisco e do Prata. A cidade
deveria ser, por vocação geográfica, uma referência em gestão hídrica. Na
prática, enfrenta contradições profundas entre abundância e desperdício, entre
proteção legal e degradação real.
O Lago Paranoá: cartão-postal e receptor de pressões
O Lago Paranoá foi criado artificialmente em 1960 para complementar o
abastecimento hídrico e regular o microclima da nova capital. Ao longo das
décadas, transformou-se no coração afetivo da cidade — palco de regatas,
passeios de barco, restaurantes à beira-d'água e o cenário predileto dos
brasilienses nos fins de semana. Mas o lago também carrega o peso de décadas de
lançamento de esgoto, impermeabilização das margens e pressão imobiliária sobre
suas áreas de proteção.
A Caesb — Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal — investe
continuamente no tratamento do esgoto que chega ao lago, e os indicadores de
qualidade da água melhoraram consideravelmente nas últimas duas décadas. Ainda
assim, eventos de floração de cianobactérias (algas tóxicas) ocorrem
periodicamente, sinalizando que o equilíbrio do ecossistema aquático continua
frágil. A ocupação irregular nas bacias hidrográficas que drenam para o lago
segue sendo um dos maiores desafios.
"Preservar as matas ciliares dos córregos que
alimentam o Lago Paranoá é tão importante quanto tratar o esgoto. Sem vegetação
nas margens, nenhuma estação de tratamento resolve o problema." —
Engenheira ambiental da Caesb, em audiência pública de 2025
Os reservatórios e a memória da crise
Em 2016 e 2017, o Distrito Federal viveu sua maior crise hídrica em
décadas. O Reservatório de Santa Maria, principal manancial da capital, atingiu
níveis críticos. O racionamento chegou a dezesseis horas diárias para parte da
população. A crise expôs a vulnerabilidade de um sistema que dependia
excessivamente de uma única fonte de captação e que não havia investido o
suficiente em diversificação de mananciais.
Desde então, a Caesb ampliou a captação no Rio Descoberto e no sistema
Corumbá-Paranoá, e o DF estabeleceu um Plano de Segurança Hídrica. As obras
avançaram. Mas o crescimento populacional acelerado — o DF é uma das regiões
metropolitanas que mais cresce no Brasil — mantém a pressão sobre o sistema. A
crise de 2016 não deve ser esquecida: ela foi um ensaio do que pode acontecer
em escala maior se o clima continuar se alterando e a demanda seguir crescendo
sem contrapartidas efetivas de eficiência hídrica.
Qualidade da água que chega às torneiras
A Caesb divulga regularmente relatórios de qualidade da água tratada
distribuída no DF, e os resultados gerais estão dentro dos parâmetros
estabelecidos pela Portaria de Potabilidade do Ministério da Saúde. No entanto,
moradores de regiões periféricas e de assentamentos irregulares frequentemente
relatam problemas de pressão, intermitência e qualidade nos pontos de consumo —
o que aponta para desigualdades no acesso a água segura dentro do próprio DF.
Além disso, a contaminação por agrotóxicos provenientes das áreas
agrícolas do entorno é um risco monitorado, mas ainda pouco debatido
publicamente. Estudos realizados por pesquisadores da UnB identificaram a
presença de resíduos de defensivos agrícolas em amostras de água subterrânea e
superficial em partes do DF — um alerta que merece muito mais atenção da
imprensa e dos formuladores de políticas.
O que precisa mudar
A gestão hídrica de Brasília precisa avançar em pelo menos três frentes:
proteção das bacias hidrográficas por meio do combate rigoroso à ocupação
irregular nas áreas de mananciais; programas robustos de uso eficiente da água
nos setores residencial, comercial e público — o DF tem um dos maiores índices
de consumo per capita de água do país; e educação hídrica nas escolas e
comunidades, para que a próxima geração de brasilienses entenda que a água não
é abundante por acaso, mas resultado de escolhas coletivas de conservação.
Brasília é uma cidade jovem, com apenas 66 anos. Ainda há tempo de
corrigir erros e construir um modelo de gestão hídrica à altura de sua posição
geográfica privilegiada. Mas esse tempo não é infinito.
Fontes
consultadas: Caesb, Adasa, Ministério do Meio Ambiente, UnB/Instituto de
Ciências Biológicas, Agência Nacional de Águas.
Eco Políticas em Pauta

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