O Cerrado que Brasília esquece

Há um paradoxo silencioso no coração do Brasil. Brasília, a capital da nação, foi erguida sobre um dos biomas mais ricos do planeta — e, ao mesmo tempo, é uma das cidades que menos celebra essa herança. O Cerrado, segundo maior bioma brasileiro em extensão e o mais biodiverso savana tropical do mundo, é o chão sobre o qual a cidade foi construída, o aquífero que abastece suas torneiras e o horizonte que emoldura seus fins de tarde. E, ainda assim, raramente aparece nos discursos oficiais, nas aulas das escolas públicas ou nas políticas urbanas da capital.

Pesquisadores estimam que o Cerrado abriga mais de 11 mil espécies de plantas nativas — das quais cerca de 4.400 são endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do planeta. São lobos-guará, tamanduás-bandeira, araras-canindé, garças-brancas e uma infinidade de aves migratórias que cruzam o Planalto Central ao longo do ano. A lista de espécies ameaçadas de extinção cresce a cada revisão do Livro Vermelho da Fauna Brasileira, e grande parte delas tem o Cerrado como último refúgio.

"O Cerrado não é uma savana pobre. É uma floresta que cresceu para baixo, com raízes que podem atingir 15 metros de profundidade. É ali que está a água, o carbono e a resiliência do bioma." — Dra. Mercedes Bustamante, ecóloga da Universidade de Brasília

O que resta dentro do Distrito Federal

O Distrito Federal preserva, dentro de seus limites, algumas das mais importantes unidades de conservação do bioma. O Parque Nacional de Brasília — criado em 1961, mesmo ano da inauguração da cidade — protege cerca de 42 mil hectares de Cerrado nativo, com veredas, matas de galeria e campos limpos. As piscinas naturais do parque, abertas à visitação pública, são frequentadas por milhares de brasilienses, mas poucos que mergulham naquelas águas cristalinas sabem que estão dentro de um dos principais fragmentos de Cerrado protegido do Centro-Oeste.

A Estação Ecológica de Águas Emendadas, por sua vez, guarda uma raridade geográfica: o único lugar do mundo onde nasce água para duas grandes bacias hidrográficas — o Amazonas e o Prata — em distância de poucos metros entre si. Já a APA do Lago Paranoá envolve o entorno do lago artificial que se tornou símbolo de Brasília, abrigando espécies aquáticas e avifauna ribeirinha que dependem da qualidade dessas águas para sobreviver.

O avanço que não para

Apesar desses espaços protegidos, a pressão sobre o Cerrado brasiliense é constante. O crescimento urbano desordenado em direção às cidades-satélites e ao entorno do DF fragmenta corredores ecológicos fundamentais para a fauna. Condomínios irregulares avançam sobre Áreas de Proteção Ambiental com conivência histórica do poder público. A especulação imobiliária encontra no Cerrado um obstáculo inconveniente — e frequentemente vence.

Dados do MapBiomas indicam que o Cerrado perdeu mais de 50% de sua cobertura original em todo o país. No Distrito Federal, a situação não é diferente: estima-se que menos de 40% da vegetação nativa original ainda esteja de pé. O que resta é, em grande medida, o que foi formalmente protegido nas décadas de 1960 e 1970 — um legado que as políticas contemporâneas deveriam expandir, não corroer.

O que as políticas distritais têm (ou não têm) feito

A Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal mantém programas de recuperação de áreas degradadas e fiscalização de unidades de conservação, mas os recursos humanos e financeiros destinados a essas ações são cronicamente insuficientes. O número de fiscais ambientais é desproporcional à extensão territorial a ser monitorada. As multas aplicadas a desmatadores raramente são cobradas na íntegra.

Por outro lado, iniciativas da sociedade civil mostram que é possível avançar. Grupos de voluntários promovem mutirões de replantio de espécies nativas em nascentes degradadas. Organizações como o WWF-Brasil e o Instituto Cerrados monitoram a cobertura vegetal e pressionam o poder público por políticas mais robustas. Pesquisadores da UnB e da Embrapa Cerrados produzem conhecimento de ponta sobre o bioma — conhecimento que precisa urgentemente encontrar seu caminho até os gestores públicos e as salas de aula.

Brasília tem a chance rara de ser uma capital que convive com, e não apenas ao lado de, um dos maiores tesouros naturais do planeta. Essa chance, porém, exige escolhas — e as escolhas precisam ser feitas agora, enquanto ainda há Cerrado para escolher.

Fontes consultadas: MapBiomas, WWF-Brasil, Instituto Cerrados, Embrapa Cerrados, Ibram-DF.


Eco Políticas em Pauta

 

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