Há um paradoxo silencioso no coração do Brasil. Brasília, a capital da
nação, foi erguida sobre um dos biomas mais ricos do planeta — e, ao mesmo
tempo, é uma das cidades que menos celebra essa herança. O Cerrado, segundo
maior bioma brasileiro em extensão e o mais biodiverso savana tropical do
mundo, é o chão sobre o qual a cidade foi construída, o aquífero que abastece
suas torneiras e o horizonte que emoldura seus fins de tarde. E, ainda assim,
raramente aparece nos discursos oficiais, nas aulas das escolas públicas ou nas
políticas urbanas da capital.
"O Cerrado não é uma savana pobre. É uma floresta
que cresceu para baixo, com raízes que podem atingir 15 metros de profundidade.
É ali que está a água, o carbono e a resiliência do bioma." — Dra.
Mercedes Bustamante, ecóloga da Universidade de Brasília
O que resta dentro do Distrito Federal
O Distrito Federal preserva, dentro de seus limites, algumas das mais
importantes unidades de conservação do bioma. O Parque Nacional de Brasília —
criado em 1961, mesmo ano da inauguração da cidade — protege cerca de 42 mil
hectares de Cerrado nativo, com veredas, matas de galeria e campos limpos. As
piscinas naturais do parque, abertas à visitação pública, são frequentadas por
milhares de brasilienses, mas poucos que mergulham naquelas águas cristalinas
sabem que estão dentro de um dos principais fragmentos de Cerrado protegido do
Centro-Oeste.
A Estação Ecológica de Águas Emendadas, por sua vez, guarda uma raridade
geográfica: o único lugar do mundo onde nasce água para duas grandes bacias
hidrográficas — o Amazonas e o Prata — em distância de poucos metros entre si.
Já a APA do Lago Paranoá envolve o entorno do lago artificial que se tornou
símbolo de Brasília, abrigando espécies aquáticas e avifauna ribeirinha que
dependem da qualidade dessas águas para sobreviver.
O avanço que não para
Apesar desses espaços protegidos, a pressão sobre o Cerrado brasiliense é
constante. O crescimento urbano desordenado em direção às cidades-satélites e
ao entorno do DF fragmenta corredores ecológicos fundamentais para a fauna.
Condomínios irregulares avançam sobre Áreas de Proteção Ambiental com
conivência histórica do poder público. A especulação imobiliária encontra no
Cerrado um obstáculo inconveniente — e frequentemente vence.
Dados do MapBiomas indicam que o Cerrado perdeu mais de 50% de sua
cobertura original em todo o país. No Distrito Federal, a situação não é
diferente: estima-se que menos de 40% da vegetação nativa original ainda esteja
de pé. O que resta é, em grande medida, o que foi formalmente protegido nas
décadas de 1960 e 1970 — um legado que as políticas contemporâneas deveriam
expandir, não corroer.
O que as políticas distritais têm (ou não têm) feito
A Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal mantém programas de
recuperação de áreas degradadas e fiscalização de unidades de conservação, mas
os recursos humanos e financeiros destinados a essas ações são cronicamente
insuficientes. O número de fiscais ambientais é desproporcional à extensão
territorial a ser monitorada. As multas aplicadas a desmatadores raramente são
cobradas na íntegra.
Por outro lado, iniciativas da sociedade civil mostram que é possível
avançar. Grupos de voluntários promovem mutirões de replantio de espécies
nativas em nascentes degradadas. Organizações como o WWF-Brasil e o Instituto
Cerrados monitoram a cobertura vegetal e pressionam o poder público por
políticas mais robustas. Pesquisadores da UnB e da Embrapa Cerrados produzem
conhecimento de ponta sobre o bioma — conhecimento que precisa urgentemente
encontrar seu caminho até os gestores públicos e as salas de aula.
Brasília tem a chance rara de ser uma capital que convive com, e não
apenas ao lado de, um dos maiores tesouros naturais do planeta. Essa chance,
porém, exige escolhas — e as escolhas precisam ser feitas agora, enquanto ainda
há Cerrado para escolher.
Fontes
consultadas: MapBiomas, WWF-Brasil, Instituto Cerrados, Embrapa Cerrados,
Ibram-DF.

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