Caatinga: o único bioma 100% brasileiro luta para não virar estatística

Em 28 de abril de 1908, nascia em Pernambuco João Vasconcelos Sobrinho — o agrônomo e ecologista que seria o primeiro a provar ao mundo que o sertão guarda um patrimônio biológico sem igual no planeta. Em sua homenagem, esta data foi escolhida, em 2003, como o Dia Nacional da Caatinga. Mais de duas décadas depois, o bioma que ele consagrou ainda luta, com unhas e dentes, para não desaparecer sob o avanço do desmatamento, da seca intensificada pelo clima e da invisibilidade política que insiste em tratá-lo como terra seca e dispensável.

A Caatinga é o único bioma 100% brasileiro — não existe em nenhum outro lugar do mundo. Ocupa cerca de 11% do território nacional, presente em oito estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais, e abriga aproximadamente 28 a 30 milhões de pessoas. É o lar de mandacarus e xique-xiques, mas também de onças-pintadas, ararinhas-azuis, tatus-bola, veados-catingueiros e de pelo menos 548 espécies de aves. É a paisagem que, na estação seca, parece morta — mas que renasce com a chegada das chuvas, em uma das demonstrações mais poderosas de resiliência da natureza.


Um trunfo climático subestimado


Existe um dado surpreendente sobre a Caatinga que poucas pessoas conhecem: o bioma é extraordinariamente eficiente na captura de carbono. Estudos coordenados pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e pelo Observatório Nacional da Caatinga — uma rede de 13 universidades e seis institutos de pesquisa — revelam que, em áreas de vegetação nativa mais úmida, o bioma pode sequestrar até 5 toneladas de carbono por hectare por ano. Em termos de eficiência hídrica, a Caatinga retém, em média, 45% do CO₂ absorvido — superando todos os outros tipos de florestas estudadas até hoje.

Isso significa que preservar a Caatinga não é apenas uma questão de biodiversidade. É estratégia climática. É segurança hídrica. É, literalmente, uma das melhores ferramentas que o Brasil tem para cumprir seus compromissos no Acordo de Paris — e que segue sendo subvalorizada nas políticas nacionais de combate às mudanças climáticas.


"A vegetação da Caatinga é altamente eficiente no processo de fotossíntese. Ao contrário do que se poderia imaginar de um bioma semiárido, ele é um dos nossos maiores trunfos na luta contra o aquecimento global." — Sudene


O estado crítico de conservação


Os números são alarmantes. Cerca de 40% do território original da Caatinga — algo equivalente a 34 milhões de hectares, uma área do tamanho do estado de Goiás — já foi devastado. Dados do INPE apontam que 42,6% dos 844,4 mil km² do bioma foram convertidos para outro uso. Do que resta, grande parte está fragmentada, comprometendo a capacidade de adaptação e dispersão das espécies.

A proteção legal é tragicamente insuficiente. Menos de 10% do bioma está em unidades de conservação — e apenas cerca de 2% conta com proteção integral, a categoria mais rigorosa. Para se ter uma dimensão: o Cerrado, também sub-protegido, ainda assim possui uma cobertura maior de áreas protegidas. A Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro, é também um dos menos resguardados do país.

As ameaças são conhecidas e persistentes: o desmatamento para a expansão agropecuária, a extração ilegal de madeira, as queimadas, os efeitos das mudanças climáticas — que projetam um semiárido ainda mais quente e seco nas próximas décadas. Estudos indicam que, se as tendências atuais continuarem, até 2060 poderá haver perda de espécies vegetais e animais em pelo menos 90% do território do bioma.


E Brasília, o que tem feito?


A resposta que deveria vir da capital federal ainda é insuficiente. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, alertou neste mês de abril de 2026 que a destruição contínua da Caatinga pode intensificar o processo de desertificação em vastas regiões do país. Segundo ele, o bioma funciona como uma barreira natural essencial contra a degradação do solo — e sua proteção é estratégica para o equilíbrio ambiental brasileiro.

No Congresso Nacional, o Senado aprovou o projeto que cria a Política Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga (PL 1990/2024), agora em análise na Câmara dos Deputados. Além disso, tramita há anos uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 504/2010) para reconhecer o bioma como Patrimônio Nacional — o que abriria portas para um conjunto mais robusto de políticas públicas específicas. E há ainda a articulação entre os estados do Nordeste, com reunião prevista para a primeira semana de maio, em Brasília, para discutir ações conjuntas de conservação.

O caminho existe. Falta percorrê-lo com a velocidade que a urgência exige. A Caatinga não pode esperar mais décadas para ser reconhecida, de fato, como o patrimônio insubstituível que é. Preservar esse bioma é preservar a identidade, a cultura e a sobrevivência de dezenas de milhões de brasileiros que fazem do sertão sua casa.


Eco Políticas em Pauta


🌵 Saiba mais e apoie: acompanhe as iniciativas da Associação Caatinga (acaatinga.org.br), que desde 1998 trabalha pela conservação do bioma e pelo desenvolvimento sustentável das comunidades do semiárido. E cobre de seus representantes no Congresso a aprovação urgente da PEC que reconhece a Caatinga como Patrimônio Nacional.

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