Na véspera do Dia Mundial das Abelhas, celebrado amanhã, 20 de maio, vale parar um instante e pensar no café da manhã. As laranjas do suco, a banana da fruteira, o mel da torrada, as flores do jardim pela janela — tudo isso existe porque um inseto minúsculo, silencioso e ameaçado fez seu trabalho. Abelhas e outros polinizadores como borboletas, morcegos e beija-flores estão sob ameaça crescente de atividades humanas. A polinização é um processo crucial para a sobrevivência dos ecossistemas e quase 90% de todas as espécies selvagens de plantas dependem, pelo menos em parte, dela. Sem abelhas, o prato brasileiro — e o mundo — seria radicalmente diferente. E o que é mais urgente: esse cenário está mais próximo do que gostaríamos de acreditar.
O Brasil e suas 1.600 espécies
O Brasil ocupa uma posição singular nesse debate. O país possui mais de 1.600 espécies de abelhas, incluindo as nativas sem ferrão, que são criadas pela meliponicultura. Essas abelhas são menos agressivas e se adaptam bem a ambientes urbanos, desempenhando papel fundamental na polinização da flora local. São as jataís, as mandaçaias, as uruçus, as tubibas — insetos que fazem parte da vida cotidiana do Cerrado há milênios, polinizando o pequizeiro, o buriti, o araticum, o ipê-amarelo e centenas de outras plantas que compõem o bioma que abraça Brasília.
As abelhas-sem-ferrão são foco especial da pesquisa científica e da meliponicultura por sua diversidade, presença natural em ambientes rurais e urbanos e pelas demandas de conhecimentos sobre sua criação, manejo e conservação. A polinização como serviço ambiental é essencial para a produção de alimentos e o equilíbrio ecológico, incluindo a estabilidade climática. E há um dado que raramente aparece nos debates sobre alimentação: três de cada quatro culturas que produzem frutos ou sementes para consumo humano no mundo dependem, pelo menos em parte, de abelhas e outros polinizadores, assim como 35% de toda a terra agricultável do planeta. O agronegócio brasileiro, que se orgulha de alimentar o mundo, depende estruturalmente desses insetos — e frequentemente os envenena.
O veneno que vem de fora para matar por dentro
A ameaça mais documentada às abelhas brasileiras é o uso de agrotóxicos, especialmente os neonicotinóides — inseticidas à base de nicotina que afetam o sistema nervoso central dos insetos. O tiametoxam, um neonicotinóide da empresa Syngenta, atinge o sistema nervoso central das abelhas, desorientando-as a ponto de não conseguirem retornar para as colmeias, além de afetar seu aprendizado, sistema digestivo, reprodutivo e imunológico — em muitos casos levando à morte.
A dimensão do problema é chocante. O Brasil presenciou a morte de mais de 500 milhões de abelhas nos últimos cinco anos com o uso excessivo de pesticidas. Uma investigação do Greenpeace e da Public Eye revelou que a União Europeia exportou seis mil toneladas de agrotóxicos neonicotinóides para o Brasil em 2021 — produtos proibidos na própria Europa por sua letalidade para os polinizadores. O que é ilegal no país de origem é despejado livremente no Brasil.
Em fevereiro de 2024, o Ibama restringiu o uso do tiametoxam após dez anos de reavaliação ambiental — uma vitória importante, mas ainda insuficiente. Em 2024 o Ibama também suspendeu, como medida cautelar, a aplicação do fipronil por pulverização foliar em área total. Apesar da conquista, pesquisadores destacam que é importante encarar essa medida como um pequeno passo para a resolução de um enorme problema, afinal suspensão não é o mesmo que proibição.
Há ainda uma vulnerabilidade específica das espécies nativas que a legislação brasileira ainda não enfrenta de forma adequada: no Brasil, as abelhas Apis mellifera — produto de cruzamento entre espécies europeias e africanas — são resguardadas pela legislação vigente sobre aplicação de pesticidas. Já as abelhas sem ferrão, que são nativas, não possuem proteção direta e, infelizmente, são as principais afetadas pelos agrotóxicos — apresentando em 72% dos ensaios científicos maior sensibilidade aos pesticidas do que as espécies com ferrão.
O Cerrado como laboratório vivo
Em Brasília e no entorno do DF, a relação entre abelhas e o Cerrado é especialmente rica e especialmente ameaçada. O bioma concentra uma das maiores diversidades de abelhas nativas do Brasil — e também sofre com a expansão agropecuária que destrói habitats, elimina a diversidade floral e contamina as paisagens com agrotóxicos.
O Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal propõe a conservação das abelhas nativas nos biomas Mata Atlântica e Cerrado presentes nas Unidades de Conservação, e a divulgação da importância desses polinizadores por meio de pesquisa, educação ambiental e comunicação, com implantação de meliponários educativos nas UCs por meio da captura dos enxames através de ninhos-isca. A meliponicultura — criação de abelhas sem ferrão — cresce como alternativa econômica e de conservação, gerando renda para agricultores familiares e comunidades tradicionais enquanto preserva a biodiversidade local.
O que cada um pode fazer
Proteger as abelhas não é tarefa exclusiva do governo ou dos pesquisadores. Reduzir ou eliminar o uso de pesticidas em jardins e quintais urbanos, plantar flores nativas do Cerrado como ipê, barbatimão e sucupira, apoiar produtores de mel de abelhas nativas e cobrar do poder público políticas mais rigorosas sobre neonicotinóides são ações concretas, ao alcance de qualquer morador do DF.
Amanhã é o Dia Mundial das Abelhas. Mas a defesa desses insetos precisa durar 365 dias — porque sem elas, o prato fica vazio. Literalmente.
🐝 Para saber mais: o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, produzido pelo ICMBio e pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), é referência científica sobre o tema. A Embrapa Meio Ambiente mantém uma coleção nacional de 12 espécies de abelhas patrimoniais, armazenadas em Brasília.
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