Hoje, 16 de maio, os garis do Distrito Federal estão de folga. Não haverá coleta convencional, não haverá varrição, não haverá catação de recicláveis. O Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal promove o Dia Sem Lixo, em que a população não deve descartar resíduos nas ruas e nem depositar o lixo fora de casa, para que os profissionais responsáveis pela limpeza urbana possam aproveitar sua folga. É uma data que existe desde 2022, quando o governador instituiu o ponto facultativo exclusivo para os trabalhadores da limpeza urbana — uma conquista de quem sustenta, a cada madrugada, a ilusão de que Brasília é uma cidade limpa.
A ideia por trás do Dia Sem Lixo é simples e poderosa: um único dia sem coleta é suficiente para que a maioria das pessoas perceba o quanto depende desses trabalhadores — e o quanto produz de resíduo sem pensar muito a respeito. É um exercício forçado de consciência ambiental. E também uma boa oportunidade para fazer uma pergunta que vai além da homenagem: para onde vai, afinal, o lixo de Brasília?
A dimensão do problema
De acordo com o SLU, cerca de 2.200 toneladas de lixo domiciliar são coletadas por dia no DF por meio das coletas convencional e seletiva. Só no primeiro trimestre de 2025, foram retiradas diariamente 1.700 toneladas de resíduos e entulhos descartados irregularmente em vias públicas. Some os dois números e você tem uma ideia do volume diário de resíduos que uma cidade de 3 milhões de pessoas gera — e que cerca de 5 mil garis, distribuídos em três empresas terceirizadas, coletam, carregam e destinam, seis ou sete dias por semana, com sol ou chuva, de madrugada ou ao meio-dia no cerrado seco.
Os moradores do Distrito Federal são os brasileiros que mais produzem lixo por dia — cada pessoa gera aproximadamente 1,6 kg de resíduos. Uma capital planejada, moderna, símbolo da racionalidade urbanística brasileira, que ao mesmo tempo ostenta um dos maiores índices de geração de resíduos por habitante do país. A contradição diz muito sobre o modelo de consumo que Brasília representa.
De onde viemos: o lixão que envergonhou o Brasil
Para entender onde Brasília está, é preciso lembrar de onde veio. Até 2017, o Distrito Federal ainda era possuidor do maior lixão em funcionamento da América Latina, o segundo maior do mundo, onde catadores trabalhavam de forma informal em meio ao lixo, sujeitos a todos os tipos de riscos. Em 20 de janeiro de 2018, o Lixão da Estrutural foi encerrado para o recebimento de lixo doméstico. A cidade que abriga o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e a Presidência da República mantinha, a poucos quilômetros do Palácio do Planalto, uma das maiores vergonhas ambientais do planeta.
O fechamento do Lixão da Estrutural foi um avanço concreto, celebrado com razão. Em seu lugar, desde 2017 opera o Aterro Sanitário de Brasília, em Samambaia, com padrões técnicos adequados. Mas a história não acabou — ela apenas mudou de fase.
Onde estamos: avanços reais, desafios imensos
Segundo dados do SLU, em 2024 o DF gerou mais de 730 mil toneladas de resíduos domiciliares, enquanto a Coleta Seletiva recolheu cerca de 58 mil toneladas de materiais recicláveis. É um crescimento expressivo em relação aos anos anteriores — a coleta seletiva avançou 25% entre 2022 e 2023, e continua crescendo. Mas a proporção ainda é pequena: apenas cerca de 8% do total de resíduos passa pela coleta seletiva. O restante vai para o aterro.
E o aterro tem prazo de validade. A operação na área está prevista para ir até 2027, e a expansão está sendo planejada para uma área adjacente de 67 hectares, o que permitiria uma vida útil adicional de 20 anos a partir de 2027. A expansão é necessária — mas também é um sintoma. Se o DF não reduzir drasticamente o volume de resíduos que envia para o aterro, qualquer expansão será apenas um adiamento do problema.
Entre os principais desafios apontados por especialistas estão: o aproveitamento do biogás gerado no aterro, que poderia ser convertido em energia; o fato de que apenas 5% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados; o baixo tratamento da fração orgânica, com apenas 8% sendo transformada em insumos para a agricultura; e a necessidade urgente de atrair indústrias de reciclagem para o DF. Sem compradores para os materiais separados, a coleta seletiva perde sentido econômico — e os catadores perdem renda.
Os invisíveis que sustentam a reciclagem
Por falar em catadores: são eles que fazem o sistema de reciclagem do DF funcionar na prática. Por meio do SLU, o GDF mantém 29 contratos com 22 cooperativas e associações, envolvendo 908 catadores de recicláveis que atuam na prestação de serviços de coleta seletiva e triagem. Esses trabalhadores separam, classificam, pesam, prensam e comercializam o material que chega às Instalações de Recuperação de Resíduos. Parte deles são ex-catadores do Lixão da Estrutural, que saíram de um ambiente degradante e sem regulamentação para contratos formais com o GDF.
O Complexo Integrado de Reciclagem, inaugurado na Cidade Estrutural, representa um investimento concreto nessa cadeia — com capacidade para processar até 5 mil toneladas de recicláveis por mês. Mas o sistema só funciona se a população fizer sua parte: separar corretamente os resíduos em casa. E aqui mora o gargalo mais difícil de resolver — não técnico, mas cultural.
O que o Dia Sem Lixo nos pede
Homenagear os garis é fácil. O difícil — e necessário — é mudar o comportamento coletivo que torna o trabalho deles tão pesado. Separar o lixo em recicláveis e orgânicos. Não jogar embalagem no chão. Não descartar móveis velhos na calçada. Não misturar lixo de banheiro com papelão limpo. Cada gesto errado multiplica o trabalho de alguém que acorda às 4h da manhã para varrer a cidade antes de o sol nascer.
O Dia Sem Lixo é uma pausa na rotina. Mas a questão dos resíduos sólidos em Brasília exige muito mais do que um dia de consciência — exige políticas de longo prazo, investimento em educação ambiental, fortalecimento das cooperativas de catadores, atração de indústrias de reciclagem e uma meta clara de redução do que vai para o aterro. Enquanto isso não acontece em escala, os garis — hoje de folga, merecidamente — voltarão amanhã para sustentar uma cidade que ainda não aprendeu a se responsabilizar pelo próprio lixo.
♻️ Para acompanhar: os dias e horários da coleta seletiva no DF podem ser consultados no site do SLU (slu.df.gov.br) ou pelo aplicativo SLU Coleta DF. Para descartar materiais especiais como eletrônicos, pilhas e lâmpadas, procure os papa-lixos e papa-recicláveis distribuídos nas regiões administrativas. Apoie as cooperativas de catadores do DF comprando produtos reciclados e separando corretamente seus resíduos.
Eco Políticas em Pauta

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