Existe uma pergunta simples que revela muito sobre como o Brasil distribui seus riscos e seus recursos: quando chove forte em uma grande cidade brasileira, quem fica debaixo d’água? Quando a aviação agrícola pulveriza agrotóxico, de quem são as casas abaixo da nuvem de veneno? Quando uma nova usina de processamento industrial é instalada, em qual bairro ela fica? As respostas, invariavelmente, apontam para o mesmo endereço: periferias predominantemente negras, comunidades ribeirinhas, territórios indígenas e quilombolas, favelas, assentamentos rurais. O meio ambiente no Brasil não é uma questão apenas ecológica. É uma questão racial.
O que é racismo ambiental
O conceito foi formulado nos Estados Unidos nos anos 1980 pelo ativista Benjamin Chavis para descrever a exposição desproporcional de comunidades negras a riscos ambientais. No Brasil, ele ganhou força a partir dos anos 2000 com a criação da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e, mais recentemente, com o portal Combate Racismo Ambiental — referência nacional no tema. Aqui, o conceito se expande: os negros, cerca de 56% da população brasileira segundo o Censo 2022, e outros grupos racializados, como as diversas comunidades indígenas, vivem em áreas que recebem menos infraestrutura para se relacionar com a natureza ou em territórios destinados a receber os impactos negativos das infraestruturas instaladas em outros locais. Assim são as favelas em cima de desfiladeiros, as comunidades ribeirinhas atingidas por despejo de agrotóxicos, as populações quilombolas pressionadas pela pecuária e hidrelétricas e os indígenas impactados pela mineração.
Não é acidente. É padrão.
Os dados de 2025: um retrato da violência socioambiental
O relatório Conflitos no Campo 2025, lançado pela Comissão Pastoral da Terra em Brasília no dia 27 de abril de 2026 — junto com a plataforma inédita do Observatório Socioambiental —, traz um quadro alarmante. Entre 2002 e 2023, a CPT documentou 89.583 conflitos sociais no campo brasileiro. Mais de 78% dos casos registrados estão ligados à luta por território, frequentemente acompanhados por ataques contra povos indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais.
Em 2025 especificamente, as principais violências registradas foram contaminação por agrotóxicos, com 127 casos, invasão, com 193, e pistolagem, com 113. O Maranhão foi o estado que mais registrou casos de violência no eixo terra, com destaque para 91 ocorrências de contaminação por agrotóxicos — contexto que, segundo a Rede de Agroecologia do Maranhão, pode representar um cenário agudo de subnotificação, medo e aperfeiçoamento de táticas de intimidação e ocultação pelo agronegócio. Subnotificação. Ou seja: o que os números mostram pode ser apenas a ponta do iceberg.
Indígenas, quilombolas, pequenos agricultores e ribeirinhos são as principais vítimas de casos como destruição de mananciais, contaminação por agrotóxicos e impedimento de acesso à água. A água — o recurso mais básico — se torna arma de poder nos conflitos territoriais. Rios desviados para irrigar monoculturas. Mananciais contaminados por defensivos. Comunidades tradicionais bloqueadas do acesso a córregos que sempre foram seus.
Racismo ambiental urbano: o CEP que determina o risco
O fenômeno não é exclusivo do campo. Nas cidades, o estudo da distribuição da população negra e branca na região metropolitana de São Paulo aponta um forte padrão de segregação racial, com uma área de concentração crescente de pessoas brancas que é justamente aquela região que recebeu historicamente mais investimentos e está menos exposta a riscos ambientais. Em contrapartida, a população negra ocupa áreas mais vulneráveis a tais riscos.
Em Brasília, o padrão é semelhante. As regiões administrativas mais afastadas — Planaltina, Paranoá, São Sebastião, Fercal — concentram populações majoritariamente negras e de baixa renda, com menor acesso a saneamento, menor cobertura de coleta seletiva e maior exposição a descarte irregular de resíduos e a obras de infraestrutura com impacto ambiental direto. A Fercal, no extremo norte do DF, abriga grandes indústrias de cimento e cal que convivem com uma população que respira a poeira de calcário no cotidiano — sem que esse custo apareça nas planilhas de desenvolvimento econômico da região.
Novo instrumento, velha luta
O lançamento do Observatório Socioambiental em 27 de abril de 2026 representa um avanço importante: pela primeira vez, uma plataforma cruza sistematicamente dados de desmatamento, expansão do agronegócio e violações de direitos humanos no campo ao longo de quatro décadas. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o ISPN, CPT, WWF-Brasil, Imaflora, ICV e outras entidades, e reposiciona os povos indígenas e comunidades locais como protagonistas na conservação dos territórios e no enfrentamento ao desmatamento. Dados públicos, acessíveis, cruzados — para que ninguém mais possa dizer que não sabia.
Combater o racismo ambiental não é uma pauta periférica no debate ecológico. É, talvez, a sua questão central. Porque enquanto os custos ambientais do modelo de desenvolvimento brasileiro forem pagos pelos mais pobres, mais negros e mais vulneráveis — e os lucros forem acumulados pelos mais ricos — não haverá transição ecológica justa. E sem justiça, não há sustentabilidade que dure.
🔍 Para acompanhar: a Plataforma Socioambiental do Observatório está disponível em plataformasocioambiental.org. O portal Combate Racismo Ambiental, em racismoambiental.net.br, publica diariamente casos, análises e mobilizações sobre justiça ambiental no Brasil. O relatório Conflitos no Campo 2025 da CPT está disponível em cptnacional.org.br.
Eco Políticas em Pauta

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