O Dia da Terra passou. As redes sociais encheram-se de fotos de mudas plantadas, hashtags verdes e discursos inspiradores. Mas, um dia depois, a pergunta que realmente importa é: e agora? O Brasil saiu da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, com uma reputação reconstituída no cenário global. O país assinou acordos, liderou negociações e recebeu os holofotes do mundo. Mas entre o que foi prometido e o que será entregue, há uma distância que precisa ser medida com seriedade.
O legado da COP30
A 30ª
Conferência do Clima das Nações Unidas foi um marco histórico. Realizada no
coração da Amazônia, em Belém do Pará, reuniu 195 países que aprovaram por
consenso o chamado 'Pacote de Belém' — 29 decisões cobrindo temas como
transição energética justa, financiamento climático e proteção de florestas.
Foi a primeira COP no Brasil, e o simbolismo de negociar o futuro do clima à
sombra da maior floresta tropical do mundo não passou despercebido.
Entre os
principais avanços, destacam-se três grandes mapas do caminho: um roteiro para
a transição para longe dos combustíveis fósseis, outro para reverter o
desmatamento até 2030 e o terceiro focado na mobilização de US$ 1,3 trilhão em
financiamento climático para países em desenvolvimento. Além disso, 122 países
submeteram suas contribuições climáticas nacionais (NDCs) — um novo ciclo de
compromissos para redução de emissões.
"A presidência da COP30 criou o Acelerador Global de Implementação, iniciativa voltada a apoiar países na execução de suas metas climáticas. O desafio agora é transformar plataformas em políticas reais."
O que o Brasil prometeu
O Brasil chegou
à COP30 com credenciais renovadas. Nos três anos anteriores, o desmatamento na
Amazônia caiu 50% em relação a 2022. No Cerrado, a redução foi de 32,3%. A área
queimada nos seis biomas brasileiros recuou 39,5% em comparação com a média histórica
de 2017 a 2024. Foram mobilizados R$ 138,1 bilhões em financiamento climático e
criadas 15 novas unidades de conservação federais.
O país também aprovou, em dezembro de 2025, o Plano Clima — um documento aguardado por 17 anos — que traça o roteiro para o Brasil atingir sua NDC: redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, em comparação com 2005. No papel, os números são expressivos.
As lacunas que permanecem
No entanto, o
cenário global expõe fragilidades importantes. Ao final de 2025, 64 países
ainda não haviam entregue suas novas metas climáticas, como exigido pelo Acordo
de Paris. Entre os ausentes: Índia, Argentina e Arábia Saudita — responsáveis
por mais de 10% das emissões globais. O relatório-síntese da UNFCCC que deveria
avaliar a suficiência das novas metas terminou inconclusivo por falta de dados.
A própria COP30
encerrou com a meta de 1,5°C ainda fora de alcance. A temperatura média global
de 2024 já havia ultrapassado esse limiar — o que não significa derrota
permanente, mas é um sinal de alarme. A Agência Internacional de Energia
projeta que, com os compromissos atuais, o aquecimento global chegará a 2,4°C
até 2100. Ainda há espaço de melhora — mas o relógio não para.
No Brasil, a questão dos combustíveis fósseis permanece controversa. O governo avança na transição energética enquanto expande a produção de petróleo no pré-sal. Essa contradição — presente também em outros países — será o principal campo de batalha das negociações climáticas até a COP31, prevista para Antalya, na Turquia, em 2026.
Brasília no centro das decisões
É de Brasília
que saem as políticas que definem o perfil ambiental do Brasil. Os ministérios
do Meio Ambiente, de Minas e Energia, da Fazenda e da Casa Civil precisam
trabalhar em conjunto para que o Plano Clima não vire mais um documento de
gaveta. A sociedade civil, os estados, os municípios e o setor privado precisam
ser incluídos na implementação — não apenas nas conferências.
O Dia da Terra
dura 24 horas. Mas a agenda climática é permanente. E o Brasil, que saiu de
Belém com os holofotes do mundo, não pode se dar ao luxo de apenas fazer bonito
nas conferências. A hora da entrega chegou.
Eco Políticas em Pauta
🌍 Para acompanhar: o Brasil segue na presidência
da COP até novembro de 2026, trabalhando nos chamados 'mapas do caminho' para o
fim do desmatamento e a transição para longe dos combustíveis fósseis. Fique de
olho nos relatórios do INPE, do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente.

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