Bem-vindo a agosto. No calendário do Cerrado, esse mês tem um peso específico que quem vive em Brasília conhece visceralmente: a fumaça que faz o sol ficar vermelho, a umidade do ar que despenca para níveis de deserto, a garganta que resseca antes mesmo do primeiro café da manhã. Agosto é o pico da temporada de incêndios no Centro-Oeste — e em 2026, ele chega com um agravante que os meteorologistas confirmaram oficialmente há menos de três semanas: o El Niño está estabelecido, é forte e deve se intensificar ainda mais nos próximos meses.
O Instituto Nacional de Meteorologia, em parceria com o INPE, a ANA, o Cemaden e o Serviço Geológico do Brasil, divulgou em 29 de junho o Boletim nº 1 de monitoramento e previsão do El Niño 2026. A mensagem é inequívoca: os modelos indicam probabilidade acima de 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre a primavera e o verão de 2026, quando as anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial podem ficar acima de 2°C. Para o Centro-Oeste e o norte do Brasil, a previsão para o trimestre julho-agosto-setembro é clara: chuvas abaixo da média e temperaturas acima da normal climatológica. A combinação perfeita para incêndios catastróficos.
Os números do risco
O Cemaden mapeou com precisão os municípios em alerta. Para os meses de julho, agosto e setembro, são 1.863 municípios em atenção, 615 em alerta e 106 em alerta alto para risco de fogo. Os níveis mais elevados concentram-se principalmente no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, abrangendo áreas de Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas e sul do Pará, além de porções do Tocantins. O norte do Cerrado e o Matopiba — que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — também apresentam extensas áreas em alerta e atenção.
Para o Distrito Federal especificamente, o histórico é assustador. Em 2024, mais de 18 mil hectares queimaram no DF — incluindo mais de 6% da área do Parque Nacional de Brasília, destruído por incêndio de origem criminosa. O GDF decretou emergência ambiental já em maio de 2026, meses antes do pico da temporada, justamente para acelerar contratações e mobilizações preventivas.
O governo chegou melhor preparado — mas os desafios são enormes
A boa notícia é que 2026 começou com uma estrutura de combate a incêndios historicamente robusta. O orçamento do Ministério do Meio Ambiente para prevenção e combate a incêndios é de pouco mais de R$ 1 bilhão — o maior da história. São 240 brigadas florestais federais, responsáveis por prevenção e combate em todo o país. Em junho, uma medida provisória liberou R$ 337,5 milhões adicionais — R$ 194,4 milhões ao Ibama e R$ 143,1 milhões ao ICMBio — revertendo cortes de início de ano que haviam reduzido o orçamento em 17%.
Há também avanços qualitativos importantes. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, sancionada em 2024, cria uma nova arquitetura de governança que coordena governo federal, estados, municípios, proprietários rurais e academia. O uso de inteligência artificial, drones e câmeras de alta resolução para monitoramento em tempo real amplia a capacidade de detecção precoce. E o manejo integrado do fogo — com queimas prescritas controladas no outono, antes da estação seca — começa a ganhar escala como ferramenta preventiva.
Mas a especialista em incêndios florestais da Universidade Federal de Mato Grosso, pesquisadora referenciada pelo Greenpeace em análise recente, é direta sobre o que ainda falta: ainda existem grandes desafios. O primeiro é orçamentário — cortes ou incertezas de recursos podem comprometer justamente as ações de prevenção, contratação de brigadistas, logística, equipamentos e planejamento. E a prevenção, como sempre, é mais barata e mais eficaz do que o combate. Cada real gasto antes do fogo economiza dezenas depois que ele começa.
O que o super El Niño pode significar para o Cerrado
A NOAA confirmou em 11 de junho o estabelecimento das condições do El Niño 2026. Os meteorologistas identificaram um forte acoplamento entre a atmosfera e o Oceano Pacífico — o que aumenta as chances de que o fenômeno permaneça ativo com força até o início de 2027. No Brasil, os efeitos já começam a aparecer e devem se intensificar ao longo do segundo semestre: um país dividido entre excesso de chuva no Centro-Sul e calor intenso, seca e queimadas no Centro-Norte.
Para o Cerrado e as áreas de transição com a Amazônia, a combinação de seca prolongada, temperaturas acima da média e vegetação ressecada por meses de estiagem cria o cenário mais propício para grandes incêndios. As projeções indicam aumento do perigo de ocorrência de queimadas entre agosto e outubro, especialmente em áreas do Tocantins, Maranhão e Mato Grosso — estados que concentram as fronteiras mais pressionadas do bioma.
O que acontece quando o fogo se alimenta do crime
Há um dado que o Corpo de Bombeiros do DF repete em todas as entrevistas: quase 100% dos incêndios florestais combatidos nos últimos anos têm causa humana. O fogo não cai do céu no Cerrado — ele é aceso por mãos humanas, deliberadamente ou por descuido. E quando é deliberado, frequentemente tem motivação econômica: queimar para limpar, queimar para depois regularizar como pastagem, queimar para abrir fronteira agrícola aproveitando a seca e o vento.
A ministra Marina Silva foi categórica ao descrever o padrão que o Ibama tem documentado na Amazônia — mas que se replica no Cerrado: um esquema criminoso de destruição ambiental com o objetivo de ocupar terras públicas que, depois, ganham pedidos de regularização fundiária. Fogo como ferramenta de grilagem. É roubo do patrimônio público, afirmou. Não tem outro nome.
O que cada morador do DF pode fazer agora
Agosto começa. O fogo ainda não chegou ao seu pico — mas está chegando. Algumas ações concretas que qualquer morador do DF pode adotar nos próximos meses fazem diferença real: nunca atear fogo em vegetação, lixo ou entulho, independentemente do tamanho ou da localização; denunciar imediatamente qualquer foco de incêndio pelo 193, o número do Corpo de Bombeiros, ou pelo 0800-618-080 do Ibama; evitar atividades físicas intensas ao ar livre nos dias em que a fumaça for visível; cadastrar-se nos alertas da Defesa Civil pelo 40199; e acompanhar diariamente o índice de qualidade do ar divulgado pelo Brasília Ambiental.
E, sobretudo, cobrar. Cobrar dos candidatos às eleições de outubro que apresentem propostas concretas para prevenção de incêndios, proteção do Cerrado e adaptação climática. Porque o fogo que queima em agosto não é uma fatalidade natural — é o resultado de décadas de escolhas políticas, de descaso com o bioma e de uma cultura que ainda não aprendeu que o Cerrado que arde hoje é a água que falta amanhã.
🔥 Para monitoramento em tempo real de focos de incêndio: o Programa Queimadas do INPE disponibiliza dados atualizados por bioma e município. O Brasília Ambiental publica boletins diários de qualidade do ar durante o período de seca. Denúncias de incêndios no DF: 193 (CBMDF) ou 0800-618-080 (Ibama).

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