Daqui a dez dias, em 9 de agosto, o mundo celebra o Dia Internacional dos Povos Indígenas — data criada pela ONU em 1994 para reconhecer as tradições dos povos originários e alertar sobre seus direitos. No Brasil de 2026, a data chega carregada de contradições que Brasília protagonizou nos últimos meses. Em abril, o Acampamento Terra Livre reuniu na capital indígenas de todo o país para uma marcha pelo Eixo Monumental até o Congresso Nacional — e o recado dado ali foi direto, urgente e cientificamente fundamentado: sem demarcação de terras, não há floresta. Sem floresta, não há clima estável. Sem clima estável, não há futuro para ninguém.
Os números que ninguém pode ignorar
Existe um dado que deveria encerrar qualquer debate sobre a importância das terras indígenas para a conservação ambiental brasileira: nos últimos 30 anos, as terras indígenas perderam apenas 1% de sua vegetação nativa. Nas áreas privadas, no mesmo período, a perda foi de 20,6%. Em 2020, as terras indígenas ocupavam 13,9% do território brasileiro — mas continham 19,5% da vegetação nativa do país.
Os povos indígenas representam cerca de 5% da população mundial. E são responsáveis pela proteção de 80% dos territórios onde há floresta viva — segundo a própria ONU. Como sintetizou a ativista indígena Nice Tupinambá em agosto de 2025: apesar de sermos mais ou menos 5% só da população mundial, nós temos a responsabilidade de proteção de 80% dos territórios onde há floresta viva. Então lembro que os povos indígenas têm essa missão de proteção da vida.
No Cerrado, especificamente, mais de 80 etnias — Karajá, Avá-Canoeiro, Krahô, Xavante, Xerente, Xacriabá, Tapuia e muitas outras — resistem após séculos de colonialismo e migrações forçadas. Organizam-se atualmente na MOPIC, a Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado, movimento que nasceu da tradição da Corrida de Toras de Buriti para lutar pela segurança territorial e impedir o avanço da agropecuária e do desmatamento que polui as cabeceiras dos rios.
O ATL 2026 e o que foi dito na marcha de abril
Em abril de 2026, o Acampamento Terra Livre — a maior e mais importante mobilização indígena do país — trouxe a Brasília representantes dos 391 povos originários que existem no Brasil. A marcha pelo Eixo Monumental não foi apenas simbólica. Foi um manifesto ambiental. O cacique Xavante que discursou no evento foi preciso: o povo Xavante está pronto, está vivo, pronto para defender o Cerrado. A terra sempre teve dono, que somos nós, mas com humildade recebemos quem chegou no passado. Hoje, porém, somos humilhados e discriminados pelos brancos. Isso é para vivermos com dignidade e dar um basta às violações dos nossos direitos.
A marcha também apresentou propostas concretas de integração entre proteção territorial e políticas de transição energética — incluindo a criação de Zonas Livres de Combustíveis Fósseis em áreas de alta relevância ecológica e cultural. Uma proposta que, longe de ser radical, é fundamentada na ciência: territórios indígenas bem demarcados são, comprovadamente, as áreas com maior estoque de carbono e maior biodiversidade por hectare no Brasil.
O paradoxo da terra demarcada e da terra invadida
Mas a realidade dos territórios indígenas no Cerrado é dramaticamente desigual. O povo Xavante, que clama pela defesa do Cerrado no Eixo Monumental de Brasília, vê ao mesmo tempo sua Terra Indígena Wedezé, no Mato Grosso, ser invadida pelo agronegócio. Entre agosto de 2023 e julho de 2024, a TI Wedezé perdeu 1.500 hectares de vegetação nativa — um aumento de 979% em relação ao período anterior e o valor mais alto desde o início da série histórica em 2008. Mais de 2 mil campos de futebol destruídos, numa terra que ainda aguarda conclusão do processo demarcatório.
Esse é o paradoxo central: as terras indígenas com demarcação concluída resistem ao desmatamento com eficiência extraordinária. As que ainda não têm demarcação concluída — a maioria — são as mais vulneráveis, justamente porque a incerteza jurídica é o convite ao invasor. No Cerrado, terras indígenas com processo de demarcação não concluído estão entre os territórios mais vulneráveis do bioma.
Os Kalunga: guardiões da Chapada dos Veadeiros
No norte de Goiás, a comunidade quilombola Kalunga — reconhecida em 1991 como patrimônio histórico e cultural brasileiro — exemplifica o que acontece quando povos tradicionais têm segurança sobre seus territórios. Os Kalunga preservam hoje seu modo de vida plantando roças tradicionais, criando animais e manejando as plantas do Cerrado para alimentação, medicina e uso cotidiano. Preservam também um legado cultural inestimável: histórias, festas e saberes específicos a cada uma das regiões do território — o Vão do Calunga, o Vão de Almas, o Vão do Moleque, o Ribeirão dos Bois. E ao fazer isso, protegem a biodiversidade da Chapada dos Veadeiros com uma eficiência que nenhum guarda-parques poderia replicar sozinho.
O que Brasília decide sobre o futuro dos povos do Cerrado
É em Brasília que as demarcações avançam ou paralisam. É no Congresso que o marco temporal — que limitaria os direitos indígenas às terras ocupadas em outubro de 1988, ignorando séculos de expulsão forçada — ganhou força legislativa. É na Funai que os processos acumulam ou destravam. É no STF que as ADIs que questionam o marco temporal estão em julgamento.
Com as eleições de outubro de 2026 se aproximando, o tema indígena precisa entrar na pauta dos candidatos com a seriedade que os dados exigem. Proteger territórios indígenas não é apenas questão de justiça histórica — embora seja isso também. É política climática, é conservação de biodiversidade, é segurança hídrica. É, em última análise, a estratégia mais barata e mais eficaz que o Brasil tem para cumprir seus compromissos ambientais internacionais.
A resposta que vem da floresta, para usar a expressão do Greenpeace, é clara: demarcação é conservação. E conservação, neste Cerrado que queima e que seca, é sobrevivência.
🌿 O Acampamento Terra Livre é organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib. A MOPIC — Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado — articula as lutas territoriais dos povos originários do bioma. O Instituto Socioambiental monitora sistematicamente a situação das terras indígenas em todos os biomas brasileiros.
Eco Politicas em Pauta

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