Aves que cruzam continentes para chegar ao Cerrado — e o que ameaça essa viagem

Existe uma cena que se repete todo ano no outono do Planalto Central, quase sem que ninguém perceba. Enquanto o céu de Brasília vai ficando mais azul e o ar mais seco, aves que partiram de regiões distantes — algumas de tão longe quanto o Ártico — chegam ao Cerrado em busca de abrigo, alimento e temperatura amena. Em maio, período de outono no hemisfério sul, as aves migram atrás do clima primaveril do hemisfério norte, em uma das grandes migrações sazonais do planeta.  O Cerrado e o Planalto Central estão no coração da rota migratória conhecida como Brasil Central — uma das cinco grandes rotas mapeadas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres do ICMBio. E Brasília, sem saber, é parada obrigatória nessa jornada extraordinária.

O Brasil é uma encruzilhada do céu

No Brasil, são quase 200 espécies identificadas como migratórias. Algumas fazem movimentos entre América do Norte e América do Sul, outras se deslocam entre países da América do Sul e há as que migram somente pelo território brasileiro.  Essa diversidade faz do país um dos pontos mais estratégicos do planeta para a conservação de aves — e uma responsabilidade que poucas pessoas reconhecem.

As aves migratórias do Planalto Central se enquadram em dois padrões: “espécies de inverno”, que chegam na estação seca, e “espécies da primavera”, que ocorrem com as chuvas. Os dois grupos coincidem com períodos de maior abundância dos insetos que lhes servem como fontes de alimento.  Não é coincidência: a sazonalidade do Cerrado, com sua alternância marcada entre seca e chuva, cria janelas precisas de disponibilidade alimentar que as aves aprenderam a explorar ao longo de milênios de evolução.

Entre as espécies que passam pelo Cerrado nessa época estão o gavião-caramujeiro, o bem-te-vi-rajado e o falcão-peregrino — que vem da América do Norte e pode ser avistado em Brasília entre outubro e abril, inclusive nas áreas urbanas, para quem tiver o olhar treinado. Há também espécies que se reproduzem no interior do Cerrado e migram dentro do próprio território brasileiro, aproveitando as veredas, as matas de galeria e os campos limpos como corredores ecológicos.

Um mercado de US$ 90 bilhões que o Brasil ainda desperdiça

O turismo ornitológico — o famoso birdwatching — é um dos segmentos de ecoturismo que mais cresce no mundo. Estimativas indicam que o mercado global de observação de aves movimenta cerca de US$ 90 bilhões por ano, com mais de 100 milhões de praticantes. No Brasil, o WikiAves, maior plataforma de registros de avifauna, reúne atualmente 42 mil observadores ativos, número que cresce a cada temporada. 

O Brasil concentra 18% da diversidade mundial de aves, com 1.971 espécies catalogadas pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos, e muitos turistas, inclusive estrangeiros, viajam exclusivamente para observar e fotografar espécies raras encontradas no Cerrado.  A Chapada dos Veadeiros, o Parque Nacional de Brasília e o Jardim Botânico da capital são destinos de referência para quem quer observar espécies endêmicas do bioma — como o arapaçu-do-cerrado, o pato-mergulhão e a ararinha-azul, cujos últimos representantes silvestres foram avistados na região.

Goiás e o Entorno do DF já começaram a captar esse mercado de forma mais estratégica: estudos recentes revelam que o município de Goiás abriga 313 espécies de aves, sendo 8 endêmicas do Cerrado, 3 ameaçadas de extinção, além de 5 migratórias e 32 parcialmente migratórias — e projetos como a “Rota dos Papagaios”, lançada em 2025, já começam a estruturar o calendário turístico local em torno da biodiversidade. 

As ameaças que desorientam o voo

Mas o caminho das aves migratórias está cheio de obstáculos — muitos deles criados por nós. A perda de habitat ao longo das rotas é a ameaça mais grave: quando as paradas intermediárias desaparecem — veredas drenadas, matas de galeria desmatadas, campos limpos convertidos em pastagem ou soja — as aves ficam sem o reabastecimento necessário para continuar a jornada.

A poluição luminosa das cidades também é um problema crescente: cidades com intensa iluminação noturna podem prejudicar o deslocamento dessas espécies e fazer com que alguns indivíduos se desorientem e acabem colidindo com prédios e estruturas envidraçadas.  Brasília, com seus padrões arquitetônicos de vidro e concreto, é um risco real para aves que navegam à noite pelo campo magnético da Terra e pela luz das estrelas — e que confundem o reflexo dos espelhos d’água com o céu.

Há também a questão das turbinas eólicas, que se multiplicam nos campos do Nordeste e do Centro-Oeste cortando justamente as rotas de aves migratórias. A Resolução CONAMA nº 462/2014 já exige estudos de impacto ambiental para parques eólicos em áreas de concentração de aves migratórias — mas a implementação dessa exigência ainda é irregular.

Olhar para o céu é um ato político

Num país que frequentemente reduz a questão ambiental a conflitos entre preservação e produção, as aves migratórias oferecem uma narrativa diferente. Elas são indicadores de saúde ecológica — quando as rotas se mantêm íntegras, o bioma está funcionando. Quando as populações começam a declinar, é sinal de que algo está errado no território.

Neste 7 de maio, Dia Mundial das Aves Migratórias, olhe para o céu de Brasília. Aquela garça que pousa no Lago Paranoá, aquele gavião que sobrevoa o Parque Nacional, aquela andorinha que risca o horizonte do Cerrado — todos eles são viajantes. E a qualidade do pouso que encontram aqui diz muito sobre o tipo de cidade, e de país, que estamos construindo.

🦅 Para acompanhar: o ICMBio mantém o Relatório Anual de Rotas e Áreas de Concentração de Aves Migratórias no Brasil. Para registrar avistamentos, use o WikiAves (wikiaves.com.br). O evento Avistar Brasília, realizado anualmente no Jardim Botânico, é referência nacional em observação de aves no Cerrado.


Eco Políticas em Pauta

Postar um comentário

0 Comentários