No Dia Mundial do Campo, é impossível não olhar para o horizonte — e o que se vê, em 2026, é uma encruzilhada. De um lado, o Brasil colhe os frutos de anos de expansão agrícola, sendo hoje o maior exportador mundial de soja, carne bovina, café e açúcar. Do outro, as regras do jogo mudaram de vez: a partir de maio de 2026, o agronegócio brasileiro entra em uma nova fase de exigências com a implementação das diretrizes ESG previstas no acordo entre Mercosul e União Europeia — tornando obrigatória a adoção de práticas sustentáveis, transparência na produção e maior controle sobre toda a cadeia produtiva para exportações ao bloco europeu. O campo brasileiro nunca esteve tão pressionado a provar, com dados, que produz sem destruir.
O maior acordo de livre comércio do mundo — e seus porões ambientais
Assinado em janeiro de 2026, após 26 anos de negociações, o acordo Mercosul-UE cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo 31 países, cerca de 720 milhões de pessoas e mais de US$ 22 trilhões em PIB combinado. Para o agronegócio, os números são tentadores: a União Europeia foi o segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, com 14,9% de participação e US$ 25,2 bilhões embarcados.
Mas o acordo não vem de graça. A União Europeia poderá barrar produtos associados ao desmatamento ocorrido após 2020, o que afeta diretamente cadeias como soja, carne bovina, café, cacau e madeira, aumentando a pressão por rastreabilidade e sustentabilidade. Em outras palavras: quem não provar que sua produção não passou por cima de floresta nativa após aquela data não entra no mercado europeu. Simples assim — e revolucionário para um setor acostumado a operar com pouca transparência na origem.
Rastrear virou condição de existência
Para o professor Antônio Márcio Buainain, da Unicamp, o acordo representa um teste de realidade para o agronegócio brasileiro. Ele destacou que a credibilidade internacional da produção agrícola dependerá cada vez mais da capacidade de organizar e disponibilizar dados confiáveis. Um dos exemplos citados foi o Cadastro Ambiental Rural, que precisa se consolidar como base transparente de informações para demonstrar o cumprimento da legislação ambiental brasileira.
O problema é que o CAR, ferramenta central nessa equação, ainda está longe de funcionar plenamente. O sistema é autodeclaratório — o produtor se cadastra e fica com o registro ativo imediatamente, sem que os dados sejam verificados. A análise dos mais de 6 milhões de imóveis cadastrados avança em ritmo lento nos estados, que dispõem de poucos recursos humanos e financeiros para validar as informações. A incapacidade de diferenciar, com dados claros, o desmatamento legal do ilegal tende a ampliar a vulnerabilidade do Brasil às pressões comerciais, afetando cadeias exportadoras estratégicas.
A contradição no coração do campo
Há uma tensão real e honesta nesse debate que merece ser nomeada. O Brasil é, ao mesmo tempo, um dos países que mais avançou em redução de desmatamento nos últimos anos — com queda de 32,3% no Cerrado e 50% na Amazônia entre 2022 e 2025 — e um país que ainda registra supressão ilegal de vegetação em escala significativa. O campo brasileiro é plural: há produtores que já adotam integração lavoura-pecuária-floresta, bioinsumos e agricultura regenerativa, e há grandes operações que seguem pressionando fronteiras ambientais.
A agenda ESG chegou ao agronegócio para ficar. Financiadores, indústrias compradoras, cooperativas e exportadores estão exigindo padrões mínimos de boas práticas ambientais, sociais e de governança. A fiscalização ambiental, especialmente sobre desmatamento, uso irregular do solo e outorgas de água, deve se intensificar. O campo que não se adaptar ficará de fora — não por decreto, mas por exclusão de mercado.
Brasília no centro das decisões
É de Brasília que saem as normas que definem as regras do jogo no campo. O Ministério da Agricultura, o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama, o Serviço Florestal Brasileiro e o Congresso Nacional são atores centrais nessa disputa. E as escolhas feitas nos próximos meses — sobre como acelerar a análise do CAR, como estruturar o mercado de carbono, como implementar o Plano Clima no setor agrícola — vão determinar se o Brasil chega ao mercado europeu como parceiro confiável ou como réu ambiental.
O campo pode ser verde. Mas precisa provar isso com dados. E essa prova começa aqui, na capital onde as políticas são escritas.
🌾 Para acompanhar: o Observatório do Código Florestal (observatorioflorestal.org.br) monitora em tempo real a implementação do CAR e do PRA nos estados. O acordo Mercosul-UE está em vigor provisório desde 1º de maio — e seus impactos para a agricultura brasileira serão sentidos ao longo dos próximos meses.
Eco Políticas em Pauta

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