Há algo de paradoxal na relação de Brasília com o Lago Paranoá. Para quem passa de carro pela Asa Norte ou pela Asa Sul em uma tarde de outono, com o espelho d'água refletindo o céu alaranjado do Planalto Central, o lago é pura beleza — um cartão-postal que define a identidade visual da capital. Para os que andam de caiaque, fazem cooper na orla ou tomam cerveja gelada às margens nos finais de semana, o Paranoá é lazer e qualidade de vida. Mas por baixo dessa superfície sedutora, há tensões ambientais que precisam ser discutidas com seriedade, porque dizem respeito ao futuro hídrico de uma cidade de 3 milhões de pessoas.
A história de uma recuperação notável
Para entender o
presente, é preciso lembrar o passado. Nas décadas de 1960 e 1970, o Lago
Paranoá era um esgoto a céu aberto. O reservatório artificial, criado para
compor a paisagem da capital modernista inaugurada em 1960, recebia diariamente
cerca de 500 kg de fósforo — resultado do lançamento in natura de esgoto
doméstico e industrial. A eutrofização era avançada: o lago cheirava mal, tinha
algas em excesso e era completamente inadequado para uso humano.
A virada veio
com um esforço monumental de saneamento. A Companhia de Saneamento Ambiental do
Distrito Federal (Caesb) construiu estações de tratamento de esgoto que mudaram
radicalmente o cenário. Hoje, apenas cerca de 20% da antiga carga de fósforo
ainda chega ao lago, e 95% de seus 38 km² são considerados balneáveis —
próprios para banho. O Paranoá é, por tudo isso, uma história de sucesso
ambiental rara no Brasil urbano. Uma prova de que investimento em saneamento
transforma realidades.
A recuperação
foi tão significativa que a Caesb passou a captar água do Paranoá para consumo
humano, abastecendo cerca de 600 mil pessoas em regiões como o Lago Norte, Lago
Sul, Jardim Botânico e Sobradinho. O lago, antes agonizante, virou manancial.
"O Lago Paranoá está em boas condições — mas é
justamente por isso que precisamos estar atentos. Os problemas que podem
comprometer sua integridade no futuro exigem políticas eficazes e educação
ambiental hoje." — Prof. Geraldo Boaventura, Instituto de Geociências da
UnB
As ameaças que persistem
Mas a história
não termina aqui — e o final ainda está sendo escrito. Pesquisadores da
Universidade de Brasília monitoram o Paranoá com crescente preocupação.
Análises de qualidade da água revelaram índices elevados de zinco e ferro em
amostras do lago e de seus afluentes — valores acima do permitido pela
resolução ambiental vigente, que representam risco para a biodiversidade
aquática e, por extensão, para a saúde humana.
O assoreamento
dos rios que alimentam o lago é outro problema crítico. O Riacho Fundo e o
Ribeirão do Bananal, dois dos principais braços do reservatório, perderam mais
de 4 km de extensão ao longo das últimas décadas. Só no Riacho Fundo, a
sedimentação avançou 62 metros de extensão de água por ano entre 1966 e 2009 —
resultado direto da expansão urbana desordenada que impermeabilizou o solo e
acelerou o carreamento de sedimentos para os cursos d'água.
A pressão
imobiliária nas margens do lago é constante. Empreendimentos de alto padrão —
orlas revitalizadas, restaurantes, marinas e condomínios — disputam centímetro
por centímetro da zona de amortecimento que deveria proteger o espelho d'água.
Quando esse cinturão de proteção é fragilizado, a qualidade da água paga o
preço.
O Paranoá e a crise hídrica do DF
O Lago Paranoá
não existe isolado. Ele faz parte de um sistema hídrico complexo e vulnerável
que abastece uma cidade que cresce sem parar em uma das regiões mais secas do
Brasil central. O Distrito Federal viveu, em 2024, o maior período sem chuvas
de sua história: 167 dias consecutivos de seca. O Lago Descoberto — que junto
com o sistema Santa Maria/Torto responde por 85% da produção de água do DF —
atingiu níveis críticos. O Paranoá se tornou ainda mais estratégico nesse
contexto.
A lição é
clara: a segurança hídrica de Brasília depende da saúde dos seus corpos d'água,
das matas ciliares que os protegem e das políticas de uso e ocupação do solo
que determinam quanto dessa paisagem sobreviverá ao crescimento da cidade. O
Cerrado que abraça a bacia do Paranoá é a esponja que regula o ciclo das chuvas
— e cada hectare desmatado é um fragmento a menos dessa proteção.
O que precisa mudar
Há caminhos
concretos. O Projeto Drenar-DF avança na construção de bacias de retenção que
reduzirão a pressão de lançamento de águas no lago durante os eventos de chuva
— diminuindo o carreamento de sedimentos e poluentes. A Adasa monitora
periodicamente os níveis e a qualidade da água. A Caesb investe em ampliações
do sistema de captação. São iniciativas importantes, mas pontuais.
O que falta é
uma visão integrada. Uma política de proteção das nascentes e matas ciliares
dos rios que alimentam o Paranoá. Um plano de uso e ocupação das margens que
equilibre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Educação hídrica
que ensine às novas gerações de brasilienses que a água que bebem vem, em
parte, do mesmo lago onde fazem stand-up paddle nos fins de semana.
O Lago Paranoá
é muito mais do que um cartão-postal. É um termômetro da capacidade de Brasília
de cuidar do seu território. E os dados mostram que, apesar dos avanços reais,
ainda há muito trabalho a fazer — antes que a crise hídrica, que já bate à
porta, faça o que nenhuma campanha de conscientização conseguiu: forçar a
urgência que o Paranoá merece.
Eco Políticas em Pauta


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