O biólogo que salva o Cerrado: a profissão da vida no pico da crise ambiental

Hoje, 3 de setembro, o Brasil celebra o Dia do Biólogo — data que marca a regulamentação da profissão pela Lei nº 6.684, assinada em 3 de setembro de 1979. Quarenta e sete anos depois, em setembro de 2026, com o Cerrado em emergência ambiental, o El Niño pressionando o pico da temporada de incêndios e a biodiversidade do Planalto Central sob ameaça crescente, homenagear o biólogo não é protocolo comemorativo. É reconhecimento urgente de quem está na linha de frente de uma das maiores crises ambientais do país — muitas vezes com recursos insuficientes, carreira mal remunerada e trabalho invisível para a maior parte da população.

O que faz um biólogo — na teoria e na prática do Cerrado

A definição formal é vasta: o biólogo atua em meio ambiente e biodiversidade, saúde, biotecnologia e produção industrial e educação, segundo a Resolução nº 700 do Conselho Federal de Biologia, aprovada em abril de 2024. Na prática do Cerrado e de Brasília, isso se traduz em trabalho concreto e urgente.

É o biólogo que instala câmeras-armadilha nas trilhas do Parque Nacional de Brasília para monitorar a onça-pintada que pode ainda transitar pelo bioma. Que analisa amostras de água dos córregos do DF para detectar contaminação por agrotóxicos antes que ela chegue à torneira da capital. Que identifica espécies endêmicas em áreas sob pressão imobiliária e fornece o laudo técnico que pode — ou não — impedir a supressão da vegetação. Que acompanha a recuperação da vegetação em áreas queimadas, documentando quais espécies retornam, em qual ordem e com qual velocidade. Que estuda como o comportamento da fauna muda durante a seca extrema — quando os animais migram, quando ficam estressados hídricos, quando morrem.

É também o biólogo que, num laboratório da Fiocruz ou da UnB, rastreia as mudanças nos vetores de arboviroses. O aumento de arboviroses como dengue e malária, agravado por mudanças climáticas e urbanização, reforça o papel do biólogo em pesquisas aplicadas à saúde pública e no desenvolvimento de estratégias de prevenção — como registrou o Instituto de Biologia da UFPel ao celebrar a data. Em 2024, o Brasil registrou 9.569.467 casos prováveis de dengue com 5.303 mortes — e a expansão do vetor Aedes aegypti para áreas antes consideradas impróprias para sua sobrevivência é um dos efeitos documentados das mudanças climáticas que os biólogos têm acompanhado com crescente preocupação.

Os desafios que o Cerrado impõe à profissão

O avanço das mudanças climáticas tem alterado a distribuição de espécies, o ciclo de reprodução e até causado extinções locais — ampliando a responsabilidade do biólogo em desenvolver estratégias de conservação e manejo que sejam eficazes no longo prazo. Esse cenário, descrito com precisão pelo portal Mata Nativa ao analisar a profissão, coloca o biólogo num campo de trabalho que cresce em complexidade na mesma velocidade em que cresce a crise ambiental.

O Cerrado, que já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, comprime o habitat das espécies que o biólogo estuda. A fragmentação dos ecossistemas torna mais difícil o monitoramento, a restauração e a compreensão dos fluxos genéticos entre populações isoladas. As queimadas de setembro destroem em horas trabalho de campo que levou meses para ser planejado. E a nova Lei do Licenciamento Ambiental — em vigor desde fevereiro de 2026 — reduziu o espaço para laudos técnicos independentes nos processos de aprovação de obras e atividades de impacto ambiental, esvaziando parte do mercado de trabalho para biólogos que atuam na área de consultoria ambiental.

Quem são os biólogos do Cerrado em Brasília

A biólogo Nathalia, cujo perfil foi publicado pelo portal do INPP do governo federal em abril de 2026, resume o que muitos profissionais da área descrevem: não foi ela quem escolheu a ornitologia, mas sim a ornitologia que a escolheu. Desde o primeiro contato com essa área, ficou encantada com a diversidade que muitas vezes está diante dos nossos olhos, mas pode passar despercebida.

Fazer pesquisa no Cerrado é, ao mesmo tempo, um privilégio e um desafio — como o mesmo portal descreveu. O privilégio está na oportunidade de pesquisar em um bioma tão especial. O desafio, nas dificuldades logísticas e na necessidade de conciliar a conservação com atividades que muitas vezes avançam sobre o bioma.

Em Brasília, os biólogos atuam na Embrapa Cerrados, no ICMBio, no Jardim Botânico, no Brasília Ambiental, na UnB e em dezenas de ONGs e consultorias. São os profissionais que monitoram a qualidade do ar nas estações espalhadas pelo DF. Que avaliam o impacto de obras nas APAs do entorno. Que treinam brigadistas para reconhecer espécies que precisam ser resgatadas antes de uma queima prescrita. Que ensinam a crianças nas escolas públicas do DF o nome das plantas nativas do Cerrado — para que a próxima geração saiba o que está perdendo, caso a perda continue.

Uma profissão que o Brasil precisa valorizar mais

O mercado de trabalho para biólogos está aquecido — com demanda crescente em conservação ambiental, biotecnologia, saúde pública e, cada vez mais, no mercado de carbono que agora começa a exigir laudos de verificação de estoques florestais. Mas a remuneração média ainda não reflete a complexidade e a importância estratégica da profissão. E o corte de recursos em ciência e pesquisa — que periodicamente assola as universidades e institutos federais — ameaça exatamente os laboratórios e programas de pós-graduação que formam os biólogos que o Cerrado precisa.

Neste 3 de setembro, com o Cerrado queimando e o El Niño pressionando o pico da crise ambiental, o melhor presente que o Brasil pode dar ao biólogo não é uma postagem nas redes sociais. É investimento em ciência, em carreira, em pesquisa e em políticas que levem a sério o conhecimento que esses profissionais produzem com tanto esforço — e que tantas vezes é ignorado quando as decisões mais importantes sobre o futuro do bioma são tomadas.

🔬 O Conselho Federal de Biologia, o CFBio, regula e fiscaliza o exercício profissional em todo o Brasil. A Sociedade Brasileira de Ecologia e o Instituto de Pesquisas Ecológicas são referências nacionais em pesquisa aplicada à conservação do Cerrado e de outros biomas brasileiros.


Eco Políticas em Pauta

Postar um comentário

0 Comentários