Setembro chegou: o mês mais temido do Cerrado começa sob alerta máximo

Hoje começa setembro. Para quem vive em Brasília e conhece o Cerrado, essa frase carrega um peso específico que vai muito além da virada do calendário. Setembro é o mês em que tudo converge: a vegetação está no ápice do ressecamento após meses de seca, a umidade do ar despenca para os níveis mais baixos do ano, os ventos do centro do continente varrem as partículas de fumaça de um estado para outro — e os incêndios, que foram crescendo ao longo de agosto, chegam ao seu pico histórico. O calendário do fogo no Brasil tem um mês mais temido. É esse.

O que os dados históricos dizem sobre setembro

Os números falam por si. Em 2024, o Brasil registrou 83.157 focos de incêndio em setembro — o pior mês daquele ano e o mais grave desde setembro de 2010, quando foram contabilizados 109.030 focos. No Distrito Federal especificamente, setembro de 2024 somou 2.851 incêndios em vegetação — o recorde absoluto daquele ano e o mês que trouxe as cenas mais perturbadoras da temporada: o sol vermelho sobre o Eixo Monumental, o Parque Nacional de Brasília perdendo mais de 6% de sua área, as escolas suspendendo aulas por causa da fumaça e a qualidade do ar chegando ao nível "péssimo" em várias estações de monitoramento simultaneamente.

Em 2025, uma temporada significativamente melhor por conta do La Niña e do maior investimento em brigadas, setembro ainda registrou 1.361 incêndios no DF — queda expressiva, mas ainda assim o mês mais intenso daquele ano. O padrão é consistente ao longo de décadas: setembro é o pico. Sempre foi. E em 2026, com o El Niño se intensificando, as condições climáticas apontam para um setembro que pode superar o histórico recente.

O El Niño que está chegando ao pico

O Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia em conjunto com outros órgãos federais três semanas atrás, é explícito: o fenômeno gera alerta severo de riscos de incêndios no Brasil. O documento alerta para um cenário de redução das chuvas, temperaturas acima da média e atraso no início da estação chuvosa em parte da Amazônia Legal. Para o Centro-Oeste e o DF, o Painel El Niño projeta temperaturas acima da normal, com maior potencial de ondas de calor e de queimadas, e chuva em torno ou abaixo da média.

O pesquisador Gilvan Sampaio, consultado pelo Jornal de Brasília em julho, foi direto sobre o que esperar: o fenômeno deverá ganhar ainda mais força até o fim do ano, atingindo intensidade entre forte e muito forte, com pico previsto entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a probabilidade de incêndios florestais, principalmente em áreas de florestas degradadas.

A preocupação é tão séria que o ministro Flávio Dino, do STF, intimou a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal a apresentarem medidas de prevenção — e a previsão é de que o El Niño atinja seu pico exatamente entre setembro e outubro, justamente o período historicamente mais favorável à propagação de incêndios florestais.

O que setembro de 2026 já acumulou antes de começar

Setembro começa hoje com um acumulado que não tranquiliza. Até o dia 10 de agosto, o DF já havia registrado 605 incêndios em vegetação só naquele mês — mais da metade do total de julho inteiro em apenas dez dias. O total acumulado em 2026 chegou a 2.844 ocorrências antes de setembro sequer começar. Em 6 de agosto, um incêndio na Reserva Biológica do Guará obrigou a evacuação de uma creche no Setor Lúcio Costa. Em 11 de agosto, as aulas da UnB no campus de Ceilândia foram suspensas por causa do fogo na vegetação ao lado do prédio. O fogo não espera setembro para começar — mas é em setembro que ele atinge sua máxima expressão.

O que está sendo feito — e o que a ciência pede que aconteça

O Boletim nº 2 do Painel El Niño reconhece a assimetria do desafio: enquanto o orçamento federal para prevenção e combate a incêndios chegou ao maior nível histórico em 2026 — pouco mais de R$ 1 bilhão —, as condições climáticas impostas pelo El Niño colocam esse investimento à prova de uma forma que nenhum planejamento consegue garantir completamente.

O Greenpeace, em análise publicada em maio, foi claro sobre o que o poder público precisa fazer diante do super El Niño: garantir que governos federal, estaduais e municipais estejam preparados para prevenir e combater incêndios florestais, especialmente em biomas sob maior risco, como Pantanal, Cerrado e áreas de transição. A preparação é possível. O El Niño não é surpresa — foi previsto meses antes e os dados de intensificação chegaram com antecedência. O que determina o quanto setembro de 2026 vai devastar é a qualidade da resposta institucional — e a consciência coletiva de cada morador do Cerrado.

Setembro chegou. E o Cerrado que abraça Brasília está, uma vez mais, no olho da tempestade seca.

🔥 Para denunciar focos de incêndio: Corpo de Bombeiros pelo 193, Polícia Militar pelo 190 e Brasília Ambiental pelo Participa DF, no 162. O monitoramento em tempo real de focos de calor está disponível no Programa Queimadas do INPE. Alertas do INMET e da Defesa Civil chegam pelo número 40199.


Eco Políticas em Pauta

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