Fumaça que mata: do cigarro ao Cerrado em chamas, o ar de agosto como questão de saúde pública

Hoje, 29 de agosto, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Fumo — data criada para lembrar os riscos do tabagismo e mobilizar a sociedade em torno de um dos maiores desafios da saúde pública do país. Em Brasília, em agosto de 2026, a data chega num momento em que a fumaça não vem apenas dos cigarros — vem também dos incêndios que consomem o Cerrado diariamente, da queima de lixo em quintais, das queimadas criminosas que encobrem a capital com um manto cinza que a população já aprendeu, com amargura, a reconhecer pelo cheiro. Duas fumaças. Uma decisão. Uma questão de saúde pública.

O que o Brasil conseguiu com o cigarro — e o que pode aprender

A história do controle do tabagismo no Brasil é um dos maiores casos de sucesso de política pública de saúde do país — e pouco celebrada como tal. Em 1989, 34,8% da população adulta brasileira era fumante. Dados do Sistema de Vigilância Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que o número de pessoas fumantes com 18 anos ou mais nas capitais brasileiras caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023 — uma redução de 40,8% em menos de vinte anos.

Esse resultado não foi acidente. Foi política pública deliberada e consistente: proibição de publicidade de cigarros, aumento progressivo de impostos, ambientes livres de tabaco, alertas nas embalagens, campanhas de cessação, apoio a fumantes que querem parar. Uma combinação de medidas que transformou o comportamento de dezenas de milhões de pessoas ao longo de décadas.

Há, porém, uma sombra nessa história de sucesso. Uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 na revista Ciência e Saúde Coletiva revelou que a redução do tabagismo perdeu velocidade nos últimos anos. E dados do Ministério da Saúde apontam que de 2023 para 2024 voltou a haver crescimento do número de fumantes, chegando a 11,6% — um alerta que acendeu a atenção dos gestores de saúde pública. O fator mais preocupante é o crescimento dos cigarros eletrônicos e vapes entre jovens. Até março de 2026, sete leis e uma emenda de lei haviam sido aprovadas em diferentes estados e municípios para regular os dispositivos eletrônicos para fumar — sinal de que a batalha contra o tabagismo ainda não está vencida.

A fumaça que ninguém escolheu respirar

Mas há uma diferença fundamental entre a fumaça do cigarro e a fumaça do Cerrado: quem fuma, em alguma medida, fez uma escolha. Quem respira a fumaça das queimadas não escolheu nada. E é exatamente aí que a conversa sobre saúde pública e qualidade do ar em Brasília precisa incluir uma dimensão de justiça ambiental que raramente aparece no debate sobre tabagismo.

Em agosto de 2026, com 2.844 incêndios já registrados no DF e o mês mais crítico da temporada em curso, a exposição à fumaça de queimadas é involuntária, universal e, para os grupos mais vulneráveis, potencialmente letal. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias crônicas não têm a opção de simplesmente parar de respirar o ar de Brasília — ao contrário do fumante que pode, com apoio adequado, parar de fumar.

A fumaça das queimadas e a fumaça do cigarro compartilham, aliás, componentes químicos perigosos. Ambas contêm material particulado fino — o PM2,5 —, monóxido de carbono, compostos orgânicos voláteis e substâncias que irritam as vias aéreas, comprometem a função pulmonar e, em exposição crônica ou aguda intensa, aumentam o risco de eventos cardiovasculares e mortes prematuras. A ciência que fundamenta o controle do tabagismo é a mesma que fundamenta a urgência de controlar as queimadas.

O que falta na política de qualidade do ar do DF

O Brasil avançou enormemente no controle do tabagismo porque criou, ao longo de décadas, um conjunto coerente de políticas: regulação, fiscalização, tributação, educação e apoio ao tratamento. O mesmo arcabouço não existe, com a mesma consistência, para a qualidade do ar durante as queimadas.

O Brasília Ambiental monitora a qualidade do ar, mas a rede de estações ainda não cobre todas as regiões administrativas. O sistema de alertas existe, mas não chega automaticamente ao celular de toda a população. As recomendações de saúde são publicadas, mas não chegam com a mesma força de uma campanha antitabagismo. E as causas das queimadas — que são quase 100% humanas, como o próprio CBMDF afirma — não são combatidas com a mesma determinação com que o cigarro foi combatido.

Não existe nível seguro de exposição ao material particulado fino, assim como não existe forma segura de consumir tabaco — para usar as palavras do especialista consultado pela CNN Brasil em análise de março de 2026. Essa premissa, que guiou décadas de política antitabagismo no Brasil, deveria guiar também a política de controle das queimadas e da qualidade do ar no Cerrado.

O direito a respirar

Neste 29 de agosto, Dia Nacional de Combate ao Fumo, a reflexão que o Eco Políticas em Pauta propõe é mais ampla do que o cigarro. É sobre o ar que todos respiramos — e sobre quem decide sua qualidade. O fumante que hoje acende um cigarro em Brasília faz, ainda que inconscientemente, uma escolha que afeta não só a ele. O morador que queima lixo no quintal, o fazendeiro que ateia fogo no pasto, o grileiro que usa o fogo para limpar a terra antes de ocupá-la ilegalmente — todos estão tomando decisões que afetam o ar de três milhões de pessoas.

O direito a respirar ar limpo é tão fundamental quanto o direito à saúde, à água, à moradia. No Brasil que conseguiu reduzir o tabagismo de 35% para menos de 10% em trinta anos, há capacidade técnica, institucional e cultural para enfrentar a outra fumaça. A que vem do Cerrado que queima todo agosto. A que ninguém escolheu respirar.

💨 O Dia Nacional de Combate ao Fumo é celebrado em 29 de agosto. Para parar de fumar, o Sistema Único de Saúde oferece tratamento gratuito — busque a UBS mais próxima ou ligue para o 136, a central de saúde do Ministério. Para monitorar a qualidade do ar em Brasília durante a temporada de queimadas: Brasília Ambiental em brasiliaambiental.df.gov.br, com boletins diários durante o período crítico.


Eco Políticas em Pauta

Postar um comentário

0 Comentários