O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Essa afirmação já foi repetida tantas vezes que corre o risco de perder o impacto que merece ter. Por isso vale acrescentar o dado mais recente, publicado em junho de 2026: em 2025, o país registrou o maior número de liberações de novos agrotóxicos de toda a sua história — superando marcas anteriores que já eram alarmantes. Em agosto, mês em que o Cerrado está no pico da seca e os rios do DF operam abaixo do nível ideal, o tema dos agrotóxicos se conecta diretamente ao que está acontecendo aqui no Planalto Central — nos córregos, nas nascentes, na fauna e no solo do bioma que abraça a capital.
O recorde que ninguém deveria comemorar
Os dados são contundentes e recentes. O Brasil bateu novo recorde de liberações de agrotóxicos em 2025 — superando marcas anteriores que já eram alarmantes. Esse aumento contínuo nos registros não é coincidência nem resultado de avanço científico que tornou os produtos mais seguros. É consequência direta de uma mudança legislativa deliberada: a aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como Pacote do Veneno, que flexibilizou profundamente as normas de registro e enfraqueceu o papel da Anvisa e do Ibama no processo de aprovação de novos produtos.
Uma reportagem publicada pelo portal ((o))eco em 15 de junho de 2026 foi direta ao nomear o que aconteceu: o Pacote do Veneno afrouxou o controle sobre agrotóxicos no Brasil, retirando a possibilidade de Ibama e Anvisa barrarem registros, com as decisões concentradas no Ministério da Agricultura. O professor Eduardo Wallan Batista Moura, pesquisador especializado no tema, foi preciso ao analisar os dados de 2025: eles reforçam empiricamente a hipótese de que a nova lei institucionalizou um modelo de governança que facilita a expansão do mercado de agrotóxicos sem os mecanismos técnicos de contenção necessários à proteção da saúde e do meio ambiente — que foram materializados na nova lei sobretudo pela retirada do papel vinculante do Ibama e da Anvisa nas alterações pós-registro e reanálise dos riscos dos produtos.
O que mudou na lei — e por que isso importa
Antes do Pacote do Veneno, o registro de um agrotóxico dependia da aprovação conjunta de três órgãos federais: o Ministério da Agricultura, que avalia a eficácia agronômica do produto; a Anvisa, que analisa os riscos à saúde humana; e o Ibama, que avalia os impactos ambientais. Os três precisavam dizer sim para o produto ser aprovado. O poder de qualquer um dizer não era real e foi exercido.
A nova lei mudou esse arranjo. O Ministério da Agricultura tornou-se o coordenador do processo — e ganhou poder de aprovar produtos mesmo que Ibama e Anvisa tenham sinalizado preocupações técnicas. A especialista em regulação Tamara Andrade, do Instituto de Defesa do Consumidor, foi direta: o Mapa virou um cartório de venenos. E outra integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida completou: o aumento contínuo nos registros mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de liberação de veneno, concentrando poder sobre a saúde e o meio ambiente em um ministério cujo mandato é o de representar o agronegócio.
Há ainda uma mudança específica que alerta toxicologistas e oncologistas: a lei anterior vedava automaticamente substâncias com características cancerígenas, mutagênicas, que gerassem distúrbios hormonais ou para as quais não houvesse antídoto. A nova lei substituiu esse critério absoluto por uma avaliação de risco caso a caso — o que significa que substâncias antes proibidas por presunção agora podem ser aprovadas se a empresa produtora apresentar estudos que demonstrem que, em doses definidas pelo próprio processo regulatório, os riscos são aceitáveis.
O Cerrado no centro da exposição
Para o bioma que abraça Brasília, os impactos dos agrotóxicos são múltiplos e documentados. A contaminação dos corpos d'água é o mais direto: os córregos que nascem nas nascentes do Cerrado e abastecem a capital recebem a carga de defensivos usados nas lavouras do entorno — por escoamento superficial nas chuvas, por irrigação excessiva, por deriva de aplicações aéreas. Estudos da Universidade de Brasília já registraram presença de agrotóxicos em córregos do DF e entorno, incluindo substâncias proibidas na Europa mas ainda permitidas no Brasil.
A fauna do Cerrado paga um preço severo. As abelhas nativas — polinizadoras essenciais do bioma, responsáveis pela reprodução de espécies como o pequizeiro e o buriti — são especialmente vulneráveis a neonicotinóides e outros inseticidas, apresentando em 72% dos estudos científicos maior sensibilidade a pesticidas do que as espécies com ferrão. Os anfíbios, altamente sensíveis a alterações químicas nos corpos d'água, funcionam como indicadores precoces de contaminação — e populações inteiras têm desaparecido de nascentes do Planalto Central sem que as causas sejam investigadas de forma sistemática.
Agrotóxicos e saúde pública: o custo invisível
O impacto dos agrotóxicos sobre a saúde humana é documentado, mas raramente contabilizado com honestidade no debate público. Trabalhadores rurais que aplicam os produtos sem equipamento adequado, comunidades que vivem na zona de deriva de aviões agrícolas, populações que consomem água de mananciais contaminados — todos pagam um custo que não aparece nas planilhas de produtividade do agronegócio.
A intoxicação crônica por agrotóxicos está associada a aumento de casos de cânceres específicos, distúrbios neurológicos, problemas reprodutivos e comprometimento do desenvolvimento infantil. Em 2025, o estado do Maranhão registrou 91 ocorrências de contaminação por agrotóxicos documentadas pela Comissão Pastoral da Terra — e especialistas alertam que esse número pode representar apenas uma fração do real, dado o contexto de subnotificação, medo e dificuldade de acesso a diagnóstico nas regiões mais expostas.
O que precisa mudar
A resposta que a ciência e a sociedade civil oferecem é clara: o processo de registro de agrotóxicos precisa recuperar o caráter tripartite que a lei de 1989 estabelecia — com Ibama, Anvisa e Mapa atuando de forma verdadeiramente independente e com poder real de veto. As substâncias cancerígenas, mutagênicas e desreguladoras hormonais precisam voltar a ser proibidas por critério objetivo, não submetidas a avaliações de risco que os próprios produtores financiam. E o Brasil precisa avançar de forma acelerada nos bioinsumos — defensivos de origem biológica que controlam pragas sem os impactos sistêmicos dos agrotóxicos sintéticos.
O Cerrado que está secando em agosto, com seus córregos baixos e sua fauna pressionada, não precisa de mais veneno. Precisa de políticas que tratem a proteção ambiental e a saúde humana não como obstáculos à produção, mas como condições da própria possibilidade de produzir por muito mais tempo.
🌿 A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida monitora os registros de agrotóxicos no Brasil e publica alertas sobre novos produtos liberados. O portal ((o))eco publica reportagens investigativas sobre o tema com regularidade. O Ibama disponibiliza os dados de classificação toxicológica e ambiental dos agrotóxicos registrados no país em seu portal institucional.
Eco Políticas em Pauta

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