Hoje, 5 de setembro, o Brasil celebra o Dia da Amazônia — data criada pela Lei nº 11.427/2007 em memória da criação da Província do Amazonas por Dom Pedro II, em 5 de setembro de 1850. É uma data que deveria ser de celebração. E há razões genuínas para celebrar: a Amazônia foi o bioma que mais reduziu desmatamento no Brasil nos últimos anos, com queda de 50% entre 2022 e 2025. A floresta ainda existe. Ainda funciona. Ainda armazena carbono, produz chuva e abriga a maior biodiversidade terrestre do planeta.
Mas há uma frase que a pesquisadora Rafaela de Oliveira Ferreira, mestre em Botânica pelo Museu Nacional da UFRJ, disse num boletim do Rádio Senado que merece ser lida com atenção: proteger a Amazônia é proteger a vida. E hoje, enquanto o Dia da Amazônia é celebrado, partes da floresta estão queimando.
O que aconteceu no Dia da Amazônia de 2024
Antes de olhar para 2026, vale revisitar o que aconteceu em 5 de setembro de 2024 — porque aquele dia funciona como espelho do que pode voltar a acontecer. O jornal Público, de Portugal, registrou com precisão: o Brasil comemorou o Dia da Amazônia vendo a riqueza da floresta arder e contaminar os céus de todo o país. Os aerossóis dos incêndios monstruosos chegaram à capital, Brasília, e a 15 estados brasileiros simultaneamente — coincidindo com alertas laranja do INMET devido a baixos níveis de umidade.
O país acumulou naquele setembro 83.157 focos de incêndio — o pior mês de 2024 e o mais grave desde 2010. A fumaça da Amazônia e do Pantanal chegou ao Sul do Brasil em forma de chuva negra em alguns pontos. Daniela Orofino, do movimento Amazônia de Pé, que reúne 350 organizações, foi direta: é importante que o Brasil entenda que o que acontece na Amazônia não fica só na Amazônia.
Essa frase, dita em 2024, é a mais importante que o Eco Políticas em Pauta pode trazer para seus leitores em Brasília neste 5 de setembro de 2026.
A Amazônia e o Cerrado: dois biomas, um destino
Existe uma narrativa que separa artificialmente Amazônia e Cerrado no debate ambiental brasileiro — como se fossem pautas distintas, públicos distintos, urgências distintas. Não são. Os dois biomas estão conectados por uma rede de interdependências que a ciência documenta com crescente precisão.
Os rios voadores — correntes de umidade que partem da Amazônia e percorrem o interior do continente — sustentam as chuvas do Cerrado e do Planalto Central. Quando a Amazônia seca, quando queima, quando perde vegetação, essa corrente de umidade enfraquece. E Brasília, a mais de dois mil quilômetros da floresta, ressente isso em cada dia sem chuva que se prolonga além do esperado, em cada reservatório que baixa, em cada verão que começa mais tarde do que o clima histórico previa.
O desmatamento da Amazônia e do Cerrado também formam um circuito vicioso. A expansão da fronteira agrícola que devasta o Cerrado no Matopiba — a região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — avança em direção à Amazônia. As estradas que cortam o Cerrado facilitam o acesso ao interior da floresta. Os mesmos grupos econômicos que pressionam o bioma savânico pressionam a floresta tropical. São frentes de uma mesma expansão que a política de desmatamento zero precisa conter de forma integrada, não separada.
O que 2026 reserva para a Amazônia
Em 2026, o cenário para a Amazônia em setembro é de alerta — mas com uma nuance importante que o Greenpeace destacou em análise publicada em maio: embora o cenário para o bioma Amazônia ainda seja incerto para este ano — devido ao elevado volume de chuvas incomum para a época —, permanecem em estado de alerta as áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado e, principalmente, o Pantanal.
É nas bordas que o fogo começa. É nas áreas de transição — onde o Cerrado encontra a floresta, onde o campo encontra a mata, onde o legal encontra o ilegal — que a ignição criminosa encontra as condições mais favoráveis. E é exatamente nessas áreas que o El Niño, com sua seca prolongada e suas temperaturas acima da média, cria as condições para que um único foco se transforme numa frente de fogo que consome milhares de hectares em horas.
O que Brasília tem a ver com a Amazônia — além da fumaça
É de Brasília que saem as decisões que determinam o futuro da Amazônia. O Ibama que fiscaliza ou que tem orçamento cortado. O Congresso que aprova ou rejeita legislação que protege a floresta. O Ministério do Meio Ambiente que negocia compromissos internacionais e define as metas de desmatamento zero. O STF que cobra — como fez o ministro Flávio Dino — que o governo apresente planos emergenciais para os biomas em risco.
Neste Dia da Amazônia, enquanto focos de incêndio são monitorados em tempo real por satélites do INPE, enquanto brigadistas trabalham em condições extremas em regiões remotas do Pará e do Mato Grosso, enquanto comunidades ribeirinhas e povos indígenas assistem ao fogo se aproximar de seus territórios — a capital do país tem uma responsabilidade que não pode ser terceirizada.
A floresta que está queimando enquanto você lê este artigo é a mesma floresta que produz parte da chuva que cai sobre Brasília. É a mesma floresta que absorve o carbono que o aquecimento global libera em quantidades crescentes. É a mesma floresta que abriga 20% de toda a biodiversidade terrestre do planeta.
Proteger a Amazônia é proteger a vida. E a vida, em setembro de 2026, precisa de mais do que uma data comemorativa.
🌳 O Programa Queimadas do INPE monitora focos de incêndio em tempo real em todos os biomas brasileiros. O movimento Amazônia de Pé, que reúne mais de 350 organizações, publica alertas e dados sobre a situação da floresta durante a temporada crítica. Para acompanhar o desmatamento em tempo real: o PRODES e o DETER do INPE disponibilizam dados atualizados periodicamente.
Eco Políticas em Pauta

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