O Curupira ainda existe? Proteção das florestas no Brasil entre avanços reais e retrocessos graves

Amanhã, 17 de julho, o Brasil celebra o Dia de Proteção às Florestas — data escolhida em homenagem ao Curupira, personagem emblemático do folclore brasileiro, conhecido por cuidar das matas do país. O Curupira é um ser de cabelos e olhos cor-de-fogo que vive nas florestas e prega peças em quem entra com intenção de destruí-las ou de caçar seus animais. Uma espécie de justiceiro ecológico da mitologia brasileira — que pune o caçador furtivo, confunde o madeireiro ilegal, faz o desmatador se perder nas matas que pretendia derrubar. Seria bom se existisse de verdade. Porque o que os dados mostram, em 2026, é que o Curupira da vida real — quando existe — tem nome, CPF, salário, muitas vezes defasado, e enfrenta adversários que contam com lobbies bilionários e bancadas parlamentares.

O que os dados mais recentes mostram

O cenário florestal brasileiro em 2026 é, ao mesmo tempo, de avanço real e de ameaça crescente. Do lado positivo, os números são consistentes. Os alertas de desmatamento na Amazônia caíram 37,5% entre agosto de 2025 e maio de 2026 em comparação com o período anterior. No Cerrado, a queda foi de 8,2%. Em 2024, quase um terço dos focos de incêndio registrados na Amazônia atingiram áreas de floresta primária — resultado, segundo a ministra Marina Silva, de um esquema criminoso de destruição ambiental com o objetivo de ocupar terras públicas que, depois, ganham pedidos de regularização fundiária. É roubo do patrimônio público. Não tem outro nome, afirmou a ministra.

Esse diagnóstico é revelador: boa parte do desmatamento que persiste não é resultado de necessidade econômica ou de conflito fundiário legítimo — é especulação organizada. Derrubar para grilhar. Queimar para regularizar depois. Um modelo que existe há décadas, que conhece os atalhos da burocracia e que conta, muitas vezes, com cumplicidade institucional.

A lei que enfraqueceu o guardião

E é exatamente aqui que o cenário de 2026 revela sua contradição mais grave. Em fevereiro deste ano, entrou em vigor a Lei nº 15.190/2025 — a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada pelo Congresso dias após o encerramento da COP30 em Belém. O processo convencional de licenciamento, com análise prévia e controle dos órgãos ambientais, tornou-se exceção. A dispensa de licença, a regra.

A senadora Teresa Leitão, do PT de Pernambuco, reconheceu que o Congresso tem avançado na criação de leis de proteção ambiental, mas destacou que a fiscalização ainda é insuficiente. Para ela, crimes ambientais são uma ameaça direta à vida na Terra. A constatação é precisa — mas a própria casa legislativa que abriga essa declaração aprovou, semanas antes, a lei que enfraquece a principal ferramenta de controle ambiental prévia do país.

No Congresso, o chamado Pacote da Destruição segue avançando. O Observatório do Clima mapeou 70 projetos que avançam com o argumento da desburocratização mas que, na prática, reduzem salvaguardas, fragilizam a fiscalização e incentivam a grilagem de terras públicas. Em ano eleitoral, a previsão é que parte dessas propostas seja acelerada antes de outubro.

O Curupira nas instituições

Mas o Curupira existe. Ele tem vários nomes e endereços. Está nos 240 brigadistas federais do Ibama que estão agora, em julho, fazendo aceiros no Cerrado antes que a temporada mais crítica de incêndios chegue. Está nos pesquisadores da UnB que estudam como restaurar o que o fogo destruiu. Está nos agentes do Brasília Ambiental que percorrem as unidades de conservação do DF identificando focos de degradação. Está nos promotores de Justiça do MPDFT que investigam grilagem e crimes contra flora e fauna. Está nas comunidades quilombolas e tradicionais que, ao proteger seus territórios, protegem florestas inteiras que nenhuma política pública conseguiria guardar com o mesmo custo e eficiência.

O Ibama gerencia o maior sistema de controle e gestão florestal do mundo, o Sinaflor, que monitora toda a madeira extraída legalmente no Brasil por meio do documento DOF+. Como observou o coordenador da área florestal do órgão: ao comprar madeira legal, o indivíduo incentiva os proprietários de terra a que seja mais interessante economicamente manter a floresta em pé, produzindo madeira, do que trocar florestas por pastagem ou lavoura. Compra consciente como ato de proteção florestal. É real, funciona, e é uma das mensagens mais práticas que qualquer pessoa pode levar para casa neste Dia de Proteção às Florestas.

O que ainda pode o Curupira

Há uma dimensão que os dados não capturam completamente: o quanto a destruição das florestas é, antes de tudo, uma questão cultural. Enquanto o Cerrado for visto como terra disponível, como obstáculo ao progresso, como paisagem sem valor em si mesma, as leis e os brigadistas sempre serão insuficientes. O Curupira do folclore age sobre o imaginário — faz o caçador se perder, confunde os sentidos, provoca o medo de avançar sobre o que é sagrado.

A mídia, a escola, as redes sociais e os blogs ambientais — sim, este aqui inclusive — fazem um trabalho análogo ao do Curupira quando mostram ao público que cada árvore derrubada tem um custo real, que cada nascente secada tem um endereço, que cada incêndio criminoso tem consequências mensuráveis sobre a qualidade do ar, da água e do clima de Brasília.

O Curupira existe. Mas precisa de muito mais gente do seu lado.

🌳 Para acompanhar a situação das florestas brasileiras: o Serviço Florestal Brasileiro publica regularmente dados sobre florestas públicas e concessões florestais. O Observatório do Clima monitora o Pacote da Destruição no Congresso. O Sistema de Alertas de Desmatamento do INPE, o DETER, disponibiliza dados em tempo real sobre alertas de desmatamento em todos os biomas.


Eco Políticas em Pauta

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