No último domingo, 12 de julho, o Brasil celebrou o Dia do Engenheiro Florestal — data escolhida em homenagem a São João Gualberto, que faleceu nessa data em 1073 e foi consagrado pelo Papa Pio XII como patrono das florestas e dos florestais. É uma homenagem discreta, que passa quase despercebida nas redes sociais, nos noticiários e até nos corredores das instituições ambientais. E talvez seja justamente essa invisibilidade o maior sintoma do problema que este artigo quer nomear: o engenheiro florestal é um dos profissionais mais necessários para o futuro do Cerrado — e um dos menos reconhecidos publicamente.
O que faz um engenheiro florestal
A definição formal diz que o engenheiro florestal se dedica à gestão sustentável e à conservação de florestas e ecossistemas, com responsabilidades que envolvem administrar recursos naturais para preservar a biodiversidade da fauna e da flora. Mas a lista real de atribuições vai muito além: elaborar e implantar projetos de florestamento, reflorestamento e recuperação de áreas degradadas; extrair produtos de florestas naturais e plantadas considerando fatores econômicos, sociais e ecológicos; coordenar sistemas de monitoramento florestal e ambiental com geoprocessamento e satélite; executar vistorias, avaliações e perícias. E, cada vez mais, atuar no mercado de créditos de carbono, na restauração ecológica inclusiva e na arborização urbana de cidades que crescem desavisadas sobre o que estão destruindo.
É o profissional por trás da restauração de áreas queimadas no Parque Nacional de Brasília após os incêndios de 2024. É quem planeja os aceiros que separam a vegetação nativa das propriedades rurais no entorno do DF. É quem monitora, com câmera e satélite, se os buritis estão voltando a uma vereda que foi drenada. É quem diz ao produtor rural: aqui você pode plantar, aqui você não pode, e aqui você precisa recuperar.
Em Brasília, onde o Cerrado é o quintal
A profissão foi regulamentada no Brasil em 1960, nascida na Escola Nacional das Florestas, em Viçosa, Minas Gerais. Em Brasília, a Universidade de Brasília forma engenheiros florestais há décadas pelo Departamento de Engenharia Florestal — e foi exatamente desse departamento que nasceu, há mais de vinte anos, a Rede de Sementes do Cerrado, uma das iniciativas mais importantes de restauração ecológica do bioma no país.
A Rede de Sementes do Cerrado, sediada na Asa Norte, conecta coletores de sementes nativas, pesquisadores, comunidades tradicionais e projetos de restauração em todo o bioma. É uma associação civil sem fins lucrativos reconhecida como OSCIP, cuja missão é promover a conservação do Cerrado e a valorização de sua sociobiodiversidade. Em parceria com a UnB, o Brasília Ambiental e projetos financiados pelo BNDES e pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, a Rede atua em corredores da biodiversidade, assentamentos rurais e unidades de conservação — sempre com a engenharia florestal como espinha dorsal técnica.
Jimena Stringuetti, coordenadora do Núcleo de Projetos da Rede de Sementes do Cerrado, representa esse perfil que a profissão mais precisa multiplicar: quem faz engenharia florestal com apelo socioambiental, promovendo restauração ecológica inclusiva em parceria com comunidades tradicionais. Não é só reflorestamento. É território, é gente, é memória e é Cerrado ao mesmo tempo.
A técnica da muvuca: semear como a natureza
Uma das inovações mais elegantes que a engenharia florestal trouxe para a restauração do Cerrado é a semeadura direta por muvuca. Em vez de mudas plantadas em covas, joga-se uma mistura de sementes nativas de diferentes espécies diretamente sobre o solo preparado. As espécies nascem quando há um ambiente propício para isso, não como a muda que é colocada e acaba tendo uma grande mortalidade. Na semeadura por muvuca, jogam-se todos os grupos funcionais de espécies e, conforme encontram o ambiente propício, vão crescendo no seu melhor momento — imitando o processo natural de regeneração do bioma, mas em velocidade e escala que a natureza sozinha não conseguiria na urgência atual.
O Laboratório de Termobiologia da UnB, parceiro da Rede de Sementes do Cerrado, já levantou informações sobre mais de 300 espécies de sementes nativas do Cerrado — estudando os efeitos do fogo, da seca e das variações de temperatura no crescimento das mudas, e identificando quais espécies serão mais adaptadas ao clima em mudança das próximas décadas. Porque a restauração que fazemos hoje precisa funcionar daqui cem anos, num Cerrado mais quente e mais seco. E essa conta exige ciência, não improviso.
Um mercado aquecido, uma carreira ameaçada
O mercado de trabalho para o engenheiro florestal está, segundo os próprios profissionais, aquecido — com demanda crescente em órgãos públicos, empresas de celulose, consultorias ambientais, indústria de bioenergia e, cada vez mais, nos projetos de mercado de carbono. Mas há uma contradição urgente: ao mesmo tempo em que a demanda cresce, os instrumentos institucionais que dão sustentação ao trabalho desses profissionais estão sendo esvaziados.
A nova Lei do Licenciamento Ambiental, em vigor desde fevereiro de 2026, simplificou ou dispensou uma série de exigências que antes geravam trabalho para engenheiros florestais — laudos, estudos de impacto, compensações ambientais. Com menos exigência legal de estudos técnicos, menos espaço para o profissional que deveria dizer não antes que a floresta desapareça. É uma ironia ambiental que merece atenção: o país que mais precisa restaurar florestas está reduzindo as exigências que obrigam as empresas a contratar quem sabe fazê-lo.
São João Gualberto, o patrono da categoria, foi, segundo a lenda, um nobre italiano que, ao vencer o assassino de seu irmão, escolheu o perdão em vez da vingança e seguiu para um monastério. Há algo na escolha da floresta que ressoa nessa narrativa — a decisão de trabalhar pelo que cresce devagar, pelo que dura, pelo que não dá retorno imediato. Os engenheiros florestais que protegem o Cerrado fazem, a cada dia, uma escolha parecida.
🌿 A Rede de Sementes do Cerrado está sediada na Asa Norte, Brasília, e atua em projetos de restauração ecológica inclusiva em parceria com comunidades de todo o bioma. O Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília é referência nacional na formação de profissionais voltados à conservação do Cerrado.
📅 16 de julho de 2026
O Curupira ainda existe? Proteção das florestas no Brasil entre avanços reais e retrocessos graves
Amanhã, 17 de julho, o Brasil celebra o Dia de Proteção às Florestas — data escolhida em homenagem ao Curupira, personagem emblemático do folclore brasileiro, conhecido por cuidar das matas do país. O Curupira é um ser de cabelos e olhos cor-de-fogo que vive nas florestas e prega peças em quem entra com intenção de destruí-las ou de caçar seus animais. Uma espécie de justiceiro ecológico da mitologia brasileira — que pune o caçador furtivo, confunde o madeireiro ilegal, faz o desmatador se perder nas matas que pretendia derrubar. Seria bom se existisse de verdade. Porque o que os dados mostram, em 2026, é que o Curupira da vida real — quando existe — tem nome, CPF, salário, muitas vezes defasado, e enfrenta adversários que contam com lobbies bilionários e bancadas parlamentares.
O que os dados mais recentes mostram
O cenário florestal brasileiro em 2026 é, ao mesmo tempo, de avanço real e de ameaça crescente. Do lado positivo, os números são consistentes. Os alertas de desmatamento na Amazônia caíram 37,5% entre agosto de 2025 e maio de 2026 em comparação com o período anterior. No Cerrado, a queda foi de 8,2%. Em 2024, quase um terço dos focos de incêndio registrados na Amazônia atingiram áreas de floresta primária — resultado, segundo a ministra Marina Silva, de um esquema criminoso de destruição ambiental com o objetivo de ocupar terras públicas que, depois, ganham pedidos de regularização fundiária. É roubo do patrimônio público. Não tem outro nome, afirmou a ministra.
Esse diagnóstico é revelador: boa parte do desmatamento que persiste não é resultado de necessidade econômica ou de conflito fundiário legítimo — é especulação organizada. Derrubar para grilhar. Queimar para regularizar depois. Um modelo que existe há décadas, que conhece os atalhos da burocracia e que conta, muitas vezes, com cumplicidade institucional.
A lei que enfraqueceu o guardião
E é exatamente aqui que o cenário de 2026 revela sua contradição mais grave. Em fevereiro deste ano, entrou em vigor a Lei nº 15.190/2025 — a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada pelo Congresso dias após o encerramento da COP30 em Belém. O processo convencional de licenciamento, com análise prévia e controle dos órgãos ambientais, tornou-se exceção. A dispensa de licença, a regra.
A senadora Teresa Leitão, do PT de Pernambuco, reconheceu que o Congresso tem avançado na criação de leis de proteção ambiental, mas destacou que a fiscalização ainda é insuficiente. Para ela, crimes ambientais são uma ameaça direta à vida na Terra. A constatação é precisa — mas a própria casa legislativa que abriga essa declaração aprovou, semanas antes, a lei que enfraquece a principal ferramenta de controle ambiental prévia do país.
No Congresso, o chamado Pacote da Destruição segue avançando. O Observatório do Clima mapeou 70 projetos que avançam com o argumento da desburocratização mas que, na prática, reduzem salvaguardas, fragilizam a fiscalização e incentivam a grilagem de terras públicas. Em ano eleitoral, a previsão é que parte dessas propostas seja acelerada antes de outubro.
O Curupira nas instituições
Mas o Curupira existe. Ele tem vários nomes e endereços. Está nos 240 brigadistas federais do Ibama que estão agora, em julho, fazendo aceiros no Cerrado antes que a temporada mais crítica de incêndios chegue. Está nos pesquisadores da UnB que estudam como restaurar o que o fogo destruiu. Está nos agentes do Brasília Ambiental que percorrem as unidades de conservação do DF identificando focos de degradação. Está nos promotores de Justiça do MPDFT que investigam grilagem e crimes contra flora e fauna. Está nas comunidades quilombolas e tradicionais que, ao proteger seus territórios, protegem florestas inteiras que nenhuma política pública conseguiria guardar com o mesmo custo e eficiência.
O Ibama gerencia o maior sistema de controle e gestão florestal do mundo, o Sinaflor, que monitora toda a madeira extraída legalmente no Brasil por meio do documento DOF+. Como observou o coordenador da área florestal do órgão: ao comprar madeira legal, o indivíduo incentiva os proprietários de terra a que seja mais interessante economicamente manter a floresta em pé, produzindo madeira, do que trocar florestas por pastagem ou lavoura. Compra consciente como ato de proteção florestal. É real, funciona, e é uma das mensagens mais práticas que qualquer pessoa pode levar para casa neste Dia de Proteção às Florestas.
O que ainda pode o Curupira
Há uma dimensão que os dados não capturam completamente: o quanto a destruição das florestas é, antes de tudo, uma questão cultural. Enquanto o Cerrado for visto como terra disponível, como obstáculo ao progresso, como paisagem sem valor em si mesma, as leis e os brigadistas sempre serão insuficientes. O Curupira do folclore age sobre o imaginário — faz o caçador se perder, confunde os sentidos, provoca o medo de avançar sobre o que é sagrado.
A mídia, a escola, as redes sociais e os blogs ambientais — sim, este aqui inclusive — fazem um trabalho análogo ao do Curupira quando mostram ao público que cada árvore derrubada tem um custo real, que cada nascente secada tem um endereço, que cada incêndio criminoso tem consequências mensuráveis sobre a qualidade do ar, da água e do clima de Brasília.
O Curupira existe. Mas precisa de muito mais gente do seu lado.
🌳 Para acompanhar a situação das florestas brasileiras: o Serviço Florestal Brasileiro publica regularmente dados sobre florestas públicas e concessões florestais. O Observatório do Clima monitora o Pacote da Destruição no Congresso. O Sistema de Alertas de Desmatamento do INPE, o DETER, disponibiliza dados em tempo real sobre alertas de desmatamento em todos os biomas.
Eco Políticas em Pauta

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