A propaganda eleitoral começou em 16 de agosto. A partir de agora, candidatos a presidente, governador, senador e deputado vão encher telas, outdoors e redes sociais com imagens de florestas preservadas, crianças sorrindo perto de rios limpos e promessas de um Brasil mais sustentável. Alguns são sinceros. Outros usam o verde como cenário. E cabe ao eleitor — especialmente ao eleitor que lê e escreve sobre meio ambiente — saber a diferença entre um e outro.
O STF julgou ontem, 19 de agosto, a Ação Direta de Inconstitucionalidade 7919, proposta pelo PSOL e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil contra a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. A decisão — qualquer que seja — vai definir o campo de batalha ambiental dos próximos anos. E os candidatos que disputam as eleições de outubro precisam ter posição clara sobre ela. O Eco Políticas em Pauta propõe, neste artigo, um roteiro de perguntas concretas que qualquer eleitor pode — e deve — fazer a quem pede seu voto.
Por que o meio ambiente precisa estar nas eleições de 2026
A resposta mais simples é também a mais verdadeira: porque as decisões que os eleitos tomarão nos próximos quatro anos definirão o futuro do Cerrado, da Amazônia, do Pantanal e da Mata Atlântica pela próxima geração. O professor de Relações Internacionais e especialista em geopolítica ambiental Víctor Nascimento foi direto em análise publicada em junho de 2026: as mudanças climáticas deixaram de ser um tema distante e passaram a influenciar diretamente a vida das pessoas, tornando-se uma pauta estratégica para governos e candidatos.
Os eventos climáticos extremos dos últimos anos confirmam essa percepção. As enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, que causaram mais de 150 mortes e R$ 80 bilhões em prejuízos. Os incêndios que destruíram o Parque Nacional de Brasília em 2024. Os 167 dias de seca no DF no mesmo ano. O El Niño que agora pressiona o Cerrado com uma das secas mais severas da história. Esses eventos não são fatalidades naturais — são consequências de décadas de decisões políticas erradas, e só serão enfrentados com decisões políticas certas.
As perguntas que cada candidato precisa responder
Sobre licenciamento ambiental: você é favorável à revisão ou revogação da Lei nº 15.190/2025, a Lei Geral do Licenciamento? Se não, quais mecanismos propõe para garantir que obras de impacto ambiental significativo continuem sendo avaliadas de forma rigorosa antes de serem autorizadas? O Observatório do Clima publicou documento específico sobre as eleições de 2026 defendendo a integração de órgãos, a ampliação da participação social e o direcionamento de mais recursos à transição climática — qual a posição do candidato sobre cada um desses pontos?
Sobre o Cerrado: qual é seu compromisso com o desmatamento zero no Cerrado até 2030, conforme estabelecido nas metas nacionais de biodiversidade? Como pretende acelerar a implementação do PPCerrado — o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no bioma — e garantir que ele tenha orçamento e pessoal adequados? E especificamente para candidatos ao Senado e à Câmara pelo Distrito Federal e estados do Centro-Oeste: o que farão para proteger as nascentes, veredas e matas de galeria que abastecem os rios do Cerrado?
Sobre demarcação de terras indígenas e quilombolas: qual é o compromisso com a aceleração das demarcações — inclusive de territórios que estão parados há décadas no Incra e na Funai? Como o candidato posiciona-se sobre o marco temporal e as ADIs em julgamento no STF? A ciência é clara: territórios demarcados são os mais eficazes na proteção da biodiversidade e no estoque de carbono. O candidato reconhece isso como fundamento de política ambiental?
Sobre queimadas e desastres climáticos: o que propõe para ampliar a capacidade operacional do Ibama e do ICMBio na prevenção e combate a incêndios florestais? Como pretende integrar políticas de adaptação climática — drenagem urbana, segurança hídrica, habitação em áreas de risco — nas agendas dos municípios? E qual o compromisso com o Plano Clima aprovado em 2025 — incluindo orçamento, metas e responsáveis claros para sua execução?
O que não aceitar como resposta
Clichês ambientais sem proposta concreta. Fotos com árvores sem compromisso com legislação. Promessa de "equilíbrio entre desenvolvimento e meio ambiente" sem explicar como — especialmente quando o candidato votou a favor do pacote de retrocessos do Congresso nos últimos anos. Crítica ao licenciamento como burocracia sem reconhecer que ele é o único instrumento que obriga o capital a avaliar seus impactos antes de agir.
O Greenpeace lançou nesta semana uma plataforma específica para conscientizar eleitores sobre o papel do Senado nas votações ambientais — instrumento útil para rastrear o histórico de votos dos candidatos que já exerceram mandatos. E a Sumaúma revelou que há cientistas disputando cadeiras no Congresso em 2026, motivados justamente pela aprovação do chamado PL da Devastação — candidatos que conhecem a ciência por dentro e que entendem o que está em jogo.
Uma última palavra antes do voto
O voto ambiental não é voto de nicho. É voto de quem bebe água, respira ar, come alimento produzido em solo que alguém precisou cuidar. Em Brasília, cercada pelo Cerrado que queima todo agosto, é especialmente urgente que os eleitores conectem o ar que sufoca a capital com as leis que são aprovadas — ou rejeitadas — no Congresso a poucos quilômetros de onde esse ar piora.
Candidato que não tem posição clara sobre o meio ambiente não tem posição clara sobre o futuro. E outubro está chegando.
⚖️ O Observatório do Clima publica análise específica sobre as eleições de 2026 e os temas ambientais em jogo. O Greenpeace Brasil lançou plataforma de acompanhamento dos candidatos ao Senado com histórico de votações ambientais. O Instituto Democracia e Sustentabilidade disponibiliza ferramentas de análise de plataformas eleitorais com foco ambiental.
Eco Politicas em Pauta
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