Agosto chega ao fim. As primeiras chuvas de outubro ainda estão a mais de um mês de distância. E o Cerrado que abraça Brasília vive, nesta última semana do mês mais crítico do calendário do fogo, o momento de maior tensão acumulada da temporada. Os dados são frescos, publicados há dois dias pelo Correio Braziliense com base nos registros do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal: até o dia 10 de agosto, o CBMDF já havia combatido 605 incêndios em vegetação só neste mês — e os números estavam aumentando. O total acumulado em 2026 chegou a 2.844 ocorrências de incêndio em vegetação no DF. O período mais crítico ainda não terminou.
Os números que definem a temporada de 2026
Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para os dados com a perspectiva histórica que eles merecem. Em 2024, o pior ano recente para o DF, foram registrados 8.545 incêndios em vegetação ao longo de todo o ano — com julho somando 1.594 ocorrências, agosto atingindo 2.065 e setembro chegando ao pico com 2.851 registros. Em 2025, o total anual ficou em 6.488, com agosto novamente sendo o mês mais intenso, somando 1.826 registros.
Em 2026, o cenário até julho era de relativa melhora: com exceção de maio, o número de ocorrências apresentou quedas em todos os meses em comparação com os anos anteriores. Maio somou 589 incêndios, junho teve 554 e julho contabilizou 691 registros até o dia 23. Eram números que davam algum alento — mas que o próprio CBMDF avisou que não significavam alívio. Porque agosto é onde a temporada muda de patamar.
E mudou. Só nos primeiros dez dias de agosto, 605 incêndios foram registrados — mais da metade do total de julho inteiro em apenas dez dias. Em 6 de agosto, um incêndio na Reserva Biológica do Guará obrigou a evacuação do Centro de Educação da Primeira Infância Lobo Guará, no Setor Lúcio Costa. Em 11 de agosto, as aulas da Universidade de Brasília no campus de Ceilândia precisaram ser suspensas por causa do fogo na vegetação ao lado que se aproximava do prédio. O fogo não está longe. Está dentro da cidade.
El Niño: o agravante que ainda está chegando
O que torna este final de agosto particularmente grave é que o pior pode ainda estar por vir. Levantamentos do INPE e da NOAA — a agência meteorológica norte-americana — indicam evolução das condições para o fenômeno El Niño no ciclo 2026/2027. A probabilidade de prolongamento da estiagem e elevação das temperaturas no Brasil Central aumenta significativamente o risco de incêndios no bioma Cerrado ao longo de setembro e possivelmente outubro — meses que historicamente já concentram grande volume de ocorrências.
Em 2024, setembro foi o mês mais devastador: 2.851 incêndios no DF, com o Parque Nacional de Brasília perdendo mais de 6% de sua área para um incêndio de origem criminosa. Em 2026, com o El Niño se intensificando e a vegetação acumulando meses de ressecamento, as condições para um evento de grande proporção estão sendo construídas dia a dia, fogueira a fogueira, bituca a bituca.
O que o fogo consome que não volta
Além dos números de ocorrências, há uma conta ambiental que raramente aparece nos boletins oficiais: o que é destruído quando o Cerrado queima. Uma área queimada fora de época — no pico da seca, com vegetação completamente ressecada e fogo de alta intensidade — não se recupera no ano seguinte. A camada de matéria orgânica do solo que levou décadas para se formar evapora em horas. Os ninhos de aves em formação de grama incendiada desaparecem antes do filhote nascer. As raízes das plantas lenhosas — aquelas raízes profundas que chegam a trinta metros e que eram a resiliência do Cerrado à seca — ficam comprometidas quando o fogo é intenso o suficiente para atingi-las.
O biólogo e doutor Marcelo Kuhlmann, consultado pelo Jornal de Brasília nos primeiros dias de agosto, foi preciso ao descrever a situação: a colaboração da população é essencial para evitar ao máximo os incêndios florestais. Não usar fogo para limpeza de terrenos, evitar queimar lixo, nunca jogar bitucas de cigarro em áreas verdes ou margens de estradas, não soltar balões, não fazer fogueiras em áreas naturais e não estacionar veículos sobre vegetação seca são atitudes simples, mas que fazem toda a diferença.
O que falta para setembro ser diferente
A Operação Verde Vivo do CBMDF segue ativa, com monitoramento por câmeras de longo alcance instaladas na Torre Digital em parceria com a UnB, além de imagens de satélite que permitem identificar rapidamente novos focos. O sistema é mais sofisticado do que qualquer temporada anterior. Mas a tecnologia não substitui a consciência coletiva — e quase 100% dos incêndios combatidos têm causa humana.
Agosto está acabando. Setembro começa daqui a poucos dias. E a única certeza sobre o que virá é que depende, em parte significativa, das escolhas que cada morador de Brasília fizer nas próximas semanas: acender ou não o fogo, jogar ou não a bituca, denunciar ou não o vizinho que queima lixo no quintal.
O Cerrado ainda está queimando. A temporada ainda não acabou.
🔥 Para denunciar focos de incêndio no DF: Corpo de Bombeiros pelo 193; Polícia Militar pelo 190; Brasília Ambiental pelo Participa DF, no 162. O monitoramento de focos de calor em tempo real está disponível no Programa Queimadas do INPE.
Eco Políticas em Pauta

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