Existe um animal que vive a poucos quilômetros de Brasília — ou viveu, até bem recentemente — que a maioria dos moradores da capital jamais viu e poucos sabem que está ameaçado de extinção no bioma que abriga a cidade. A onça-pintada, Panthera onca, o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, era presença comum no Cerrado do Planalto Central antes que a expansão urbana e agrícola do DF e entorno reduzisse seu habitat a fragmentos cada vez mais isolados. Hoje, o animal que os tupis chamavam de jaguar — fera que mata com um salto — luta para sobreviver num bioma que perdeu mais da metade de sua cobertura original. E essa luta importa para além da conservação de uma espécie: a onça é um termômetro do Cerrado inteiro.
Por que a onça importa para o ecossistema
A onça-pintada é o que os ecólogos chamam de predadora de topo — o elo final de uma cadeia alimentar que regula tudo o que está abaixo dela. Como predadora de topo, ela cumpre uma função insubstituível: regular as populações de suas presas, como capivaras, queixadas, veados e outros mamíferos. Sem ela, essas espécies se reproduzem sem controle, devastam a vegetação, alteram cursos d'água e desequilibram o ecossistema de formas que se retroalimentam até o colapso. O desaparecimento de um predador de topo não é apenas a perda de uma espécie — é a desregulação de todo um sistema.
No Cerrado, a onça-pintada historicamente transitava entre os campos limpos, as matas de galeria e as veredas, controlando populações de antas, catetos e capivaras que habitam esses ambientes. Sua presença indicava um Cerrado saudável, com habitat suficiente, presas abundantes e corredores ecológicos funcionando. Sua ausência — que hoje é realidade em boa parte do bioma — indica o oposto.
O estado da onça-pintada no Brasil de 2026
O ICMBio classifica a onça-pintada como vulnerável à extinção no Brasil. A IUCN — União Internacional para a Conservação da Natureza — a classifica como quase ameaçada globalmente. A diferença entre as classificações reflete o que acontece dentro das fronteiras brasileiras: a situação é pior aqui do que a média global sugere.
A espécie já perdeu cerca de 50% de seu habitat histórico no continente americano. No Pampa, já foi considerada extinta. Na Mata Atlântica, o cenário é crítico: restam menos de 300 indivíduos, distribuídos em apenas cerca de 3% do que sobrou do bioma. A população está tão fragmentada que a variabilidade genética — essencial para a resiliência da espécie a doenças e mudanças ambientais — está comprometida. No Pantanal, onde a população é estimada em cerca de mil indivíduos e a espécie ainda é avistada com relativa facilidade, incêndios como os de 2020 e 2024 destruíram habitat inteiro e mataram animais diretamente.
No Cerrado, a situação é intermediária — mas degradando. A expansão agropecuária reduziu o bioma à metade de sua cobertura original, fragmentando os corredores que a onça precisa para se deslocar, encontrar parceiros e manter a diversidade genética das populações. A caça retaliatória — quando produtores rurais matam onças após ataques ao gado — segue sendo uma ameaça real, especialmente nas bordas entre o Cerrado e as fronteiras agrícolas do Matopiba. E os incêndios de agosto e setembro destroem habitat inteiro em questão de horas — exatamente o tipo de perturbação que a onça, com seu grande território e baixa taxa reprodutiva, tem mais dificuldade de absorver.
O Plano de Ação Nacional — e o que ele exige do Cerrado
O ICMBio coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Grandes Felinos, atualmente em seu 2º ciclo, com vigência até 2030. O plano inclui monitoramento por câmeras-armadilha e coleiras GPS, criação de corredores ecológicos que reconectam fragmentos de habitat, e trabalho com comunidades rurais para reduzir conflitos entre onças e pecuaristas.
Em março de 2026, o governo federal criou novas áreas de proteção ambiental no Cerrado e no Pantanal, incluindo a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas, com 40,8 mil hectares — uma área que protege nascentes, territórios de comunidades geraizeiras e habitat de espécies ameaçadas, incluindo a onça-pintada, o tamanduá-bandeira e o tatu-canastra. Cada nova área protegida é um passo. Mas o ritmo de criação de unidades de conservação ainda é insuficiente diante da velocidade com que o habitat se fragmenta.
Em março, a onça-pintada também foi destaque na COP15 — a Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias, realizada em Campo Grande. O evento debateu a proteção de espécies que cruzam fronteiras e conectam países em responsabilidade compartilhada. A onça transita entre Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina — o que torna sua conservação uma questão de diplomacia ambiental, não apenas de política doméstica.
Brasília e a onça: uma relação que precisa ser reconstruída
O Parque Nacional de Brasília já teve registros históricos de onça-pintada. Hoje, a probabilidade de uma onça habitar permanentemente o parque é baixíssima — o habitat foi reduzido demais, o entorno urbanizado demais, os corredores que ligariam o parque a outras áreas de Cerrado foram cortados pelas rodovias, os loteamentos e as monoculturas que cercam o DF. A onça sumiu de Brasília antes que a maioria dos moradores soubesse que ela estava lá.
Reconectar o Cerrado do DF com o Cerrado do Goiás — por meio de corredores ecológicos ao longo das matas de galeria, das APAs do entorno e das propriedades rurais que ainda têm vegetação nativa — é uma das apostas mais importantes para o futuro da biodiversidade do Planalto Central. Não porque a onça voltará amanhã. Mas porque um Cerrado conectado o suficiente para abrigar onças é um Cerrado saudável o suficiente para continuar produzindo a água, regulando o clima e sustentando a vida da cidade que foi construída no seu coração.
🐆 O ICMBio coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Grandes Felinos, disponível em seu portal institucional. O Instituto Onça-Pintada, sediado em Brasília, realiza pesquisa e educação ambiental sobre a espécie. O Programa de Monitoramento da Biodiversidade do Cerrado, da Embrapa, acompanha a distribuição de espécies ameaçadas no bioma.
Eco Políticas em Pauta

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