O ar que você respira em Brasília: qualidade, seca e o que a capital ainda não resolveu

O Dia Mundial do Meio Ambiente passou ontem. As redes sociais encheram-se de ipês, fotos de parques e mensagens sobre o futuro do planeta. Hoje, 6 de junho, Brasília acorda na prática: com a seca se instalando, a umidade do ar caindo e a temporada de queimadas oficialmente iniciada. E há uma questão que raramente aparece nas celebrações ambientais, mas que afeta cada morador do DF da forma mais concreta possível, a cada respiração: qual é a qualidade do ar da capital do Brasil?

O que os dados dizem — e quando eles pioram

Durante a estação chuvosa, de outubro a abril, o ar de Brasília é, em geral, satisfatório. O Índice de Qualidade do Ar (AQI) do DF costuma ficar na faixa "Boa" nesses períodos, com concentrações de PM2,5 e PM10 dentro dos limites aceitáveis. Mas essa janela de qualidade fecha rapidamente quando a chuva para.

O Distrito Federal enfrenta episódios críticos de poluição atmosférica no período de seca: com mais de 100 dias sem chuva e temperaturas ultrapassando 35°C, a concentração de partículas no ar pode ficar acima dos padrões da Organização Mundial da Saúde por dias consecutivos. O monitoramento da Secretaria de Saúde do DF identificou níveis elevados de material particulado — MP10 e MP2,5 — em regiões como Fercal Oeste, Fercal Boa Vista e Jardim Zoológico, onde as concentrações já ultrapassaram 100 µg/m³, valor muito acima dos limites recomendados pela OMS. 

Esses números têm significado clínico direto. O material particulado fino — as partículas PM2,5, com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros — penetra profundamente nos pulmões, alcança a corrente sanguínea e pode provocar desde irritação das vias aéreas até agravamento de doenças cardiovasculares e pulmonares crônicas, hospitalizações e mortes prematuras. Idosos, crianças e pessoas com asma, bronquite e doenças cardíacas são os mais vulneráveis — e são exatamente essas populações que vivem em maior proporção nas regiões periféricas do DF, onde o monitoramento é mais escasso e as estruturas de saúde são mais frágeis.

Quando a fumaça envolve Brasília

Setembro de 2024 deixou marcas indeléveis na memória de quem vive na capital. Por dias seguidos, o sol apareceu vermelho em Brasília, por detrás de uma camada cinza de fumaça e fuligem. Mais de 6% da área do Parque Nacional de Brasília pegou fogo, com incêndio de origem criminosa que se alastrou de forma subterrânea, passando por baixo de rios e queimando matas de galeria a partir da raiz. 

A qualidade do ar no DF chegou a níveis "perigoso" e "péssimo". A Secretaria de Educação autorizou a suspensão das atividades em escolas e a UnB adotou expediente remoto. A visibilidade nas pistas era tão baixa em bairros como a Asa Norte que motoristas tiveram dificuldade para transitar nas primeiras horas da manhã. 

O fenômeno não se limita ao que queima localmente. Os chamados "rios voadores" — correntes de ar que transportam umidade da Amazônia para outras regiões — também transportam a poluição das queimadas de uma região para outra. A fumaça de queimadas no Sudeste já foi transportada para Brasília, e vice-versa, comprovando que a qualidade do ar da capital está conectada ao que acontece em outros biomas. 

O professor Ricardo Martins, da área de clínica médica da Faculdade de Medicina da UnB, é claro sobre o que precisa mudar: é indispensável que sejam adotadas medidas preventivas de educação da população para evitar queimadas, além de alarmes imediatos e monitoramento e avaliação constantes da qualidade do ar por órgãos governamentais. "Estamos há mais de 140 dias sem chuvas no DF e, agora, a fumaça chega para somar aos efeitos danosos ao nosso corpo.

O que o DF monitora — e o que ainda falta monitorar

O Brasília Ambiental mantém uma rede de estações de monitoramento de qualidade do ar no DF, com boletins publicados em seu site durante os períodos críticos. O sistema é mais robusto do que era há dez anos — mas ainda insuficiente para uma cidade de 3 milhões de pessoas espalhada por 31 regiões administrativas com dinâmicas ambientais muito distintas.

Fercal, no extremo norte do DF, é o caso mais emblemático de desigualdade ambiental na capital. A região abriga grandes indústrias de cimento e cal — e sua população respira diariamente partículas de calcário que se somam às da fumaça das queimadas durante a seca. As estações de monitoramento da SES-DF já registraram ali as piores concentrações de material particulado do DF — e a população local tem menos acesso a informação, menos capacidade de exigir melhorias e menos opções para simplesmente "ficar em casa" nos dias críticos.

O que Brasília precisa resolver

Cinco medidas concretas que a capital precisa avançar para proteger a qualidade do ar de seus moradores:

Primeiro, ampliar a rede de monitoramento de qualidade do ar, com estações em todas as regiões administrativas, especialmente as periféricas. Segundo, criar um sistema de alerta integrado, simples e acessível, que chegue diretamente ao celular dos moradores — como já funciona para outros tipos de desastre. Terceiro, investir em arborização urbana nas regiões mais expostas: árvores absorvem partículas, regulam a temperatura e reduzem o efeito de ilha de calor que intensifica a seca local. Quarto, acelerar a eletrificação da frota de transporte público do DF — os ônibus a diesel são uma fonte constante de poluição, especialmente nas regiões de maior tráfego. E quinto, fortalecer o manejo integrado do fogo no Cerrado do DF, com queimas prescritas controladas no outono que reduzem o combustível disponível para os grandes incêndios do fim da seca.

O ar não tem muro, não tem CEP e não respeita fronteiras entre regiões administrativas. Respiramos o mesmo ar — mas não sofremos igualmente suas consequências. Resolver a qualidade do ar em Brasília é, ao mesmo tempo, uma questão ambiental, de saúde pública e de justiça social. E é uma questão que começa agora, antes que setembro chegue com o sol vermelho e a fumaça que já conhecemos.

💨 Para monitorar a qualidade do ar em tempo real em Brasília: brasiliaambiental.df.gov.br (Brasília Ambiental/GDF). Para denunciar queimadas: ligue 193 (Bombeiros) ou 0800-618-080 (Ibama). Alertas da Defesa Civil do DF: envie mensagem para 40199.


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