A Semana Nacional do Meio Ambiente começa hoje — e o Cerrado já está em alerta. Não é exagero nem catastrofismo. É a combinação de três fatores que qualquer meteorologista ou brigadista do DF conhece de cor: a seca que começa em junho, a vegetação ressecada que vai acumulando combustível ao longo dos meses, e agora uma variável nova e preocupante que está mobilizando governo federal e Judiciário ao mesmo tempo.
Dados apresentados pelo INPE, CEMADEN e pela NOAA (agência oceanográfica e meteorológica dos Estados Unidos) apontam elevada probabilidade de formação de um fenômeno El Niño de forte intensidade, com possibilidade de atingir um "super El Niño" entre setembro e outubro de 2026. O cenário projetado inclui seca severa e prolongada na Amazônia Legal e no Pantanal, temperaturas acima da média histórica, baixa umidade do ar e aumento expressivo do risco de incêndios florestais. Para o Cerrado e o DF, que já enfrentaram em 2024 o maior período de seca de sua história — 167 dias consecutivos sem chuva —, essa projeção não é abstrata. É uma ameaça com nome, data e coordenadas geográficas.
O governo chegou preparado — mas o desafio é imenso
Os números de 2025 são, de fato, encorajadores. O Ministério do Meio Ambiente anunciou redução de 39% na área queimada no Brasil em 2025 em comparação com a média entre 2017 e 2024. No Pantanal, a queda chegou a 91%; na Amazônia, 75%; na Mata Atlântica, 58%; e no Pampa, 45%. É o resultado de uma política pública consistente, de investimento em brigadas, de redução do desmatamento e de integração entre diferentes níveis de governo.
Para 2026, o planejamento está mais robusto do que nunca. As medidas adotadas para o enfrentamento aos incêndios envolvem 246 brigadas florestais federais — 131 do Ibama e 115 do ICMBio — além de helicópteros, aviões, embarcações, 973 caminhonetes e 408 veículos especializados. A estrutura inclui ainda 340 barracas de campanha, 3.100 equipamentos individuais motorizados e 4.358 conjuntos de equipamentos individuais de combate.
Uma novidade significativa é o salto qualitativo no monitoramento. O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, destacou que antes o país contava basicamente com dados de focos de calor, e agora passou a ter monitoramento diário das áreas queimadas em todo o Brasil, o que representa um ganho expressivo de qualidade e na capacidade de resposta. Ver o fogo mais cedo significa apagá-lo mais rápido — e salvar mais hectares de Cerrado.
O DF decretou emergência — e ainda assim enfrenta limites estruturais
No plano local, o Governo do Distrito Federal não esperou a temporada chegar para agir. O GDF decretou estado de emergência ambiental para o período de estiagem de 2026. Publicada no Diário Oficial do Distrito Federal em 15 de maio, a medida terá validade até novembro e busca acelerar ações de prevenção e combate aos incêndios florestais no Cerrado. Na prática, o decreto permite maior rapidez na contratação de brigadistas e na mobilização dos órgãos responsáveis pelo enfrentamento ao fogo, especialmente em unidades de conservação e parques ecológicos.
Mas os números revelam o tamanho do desafio. Apenas em 2024, mais de 18 mil hectares foram atingidos por incêndios florestais no Distrito Federal. Já no primeiro semestre de 2025, cerca de 988 hectares haviam sido consumidos pelo fogo até julho. E o problema vai além do fogo imediato: embora o Cerrado seja um bioma adaptado ao fogo no período correto, incêndios frequentes, intensos e fora de época destroem a capacidade de regeneração da vegetação nativa, favorecendo a invasão de gramíneas exóticas. A destruição da cobertura vegetal também afeta diretamente os recursos hídricos do DF: sem proteção no solo, a infiltração da água diminui, comprometendo a reposição de aquíferos e reservatórios estratégicos para o abastecimento da capital.
O Judiciário também entrou em campo. O ministro Flávio Dino, do STF, cobrou um plano urgente contra incêndios diante dos alertas de "super El Niño" em 2026, assinando despacho na ação que trata da crise climática e das políticas de prevenção a incêndios ambientais. É uma sinalização importante: quando o Estado não age por convicção, o Judiciário pode ser acionado para cobrar responsabilidade.
O que acontece quando o fogo chega em Brasília
Quem viveu setembro de 2024 em Brasília não esquece. Por dias seguidos, o sol apareceu vermelho na capital, por detrás de uma camada cinza de fumaça e fuligem. Mais de 6% da área do Parque Nacional de Brasília pegou fogo. O incêndio teve origem criminosa e se alastrou com muita facilidade, passando de forma subterrânea por baixo de rios e queimando matas de galeria a partir da raiz.
O impacto na saúde pública foi imediato. A qualidade do ar no DF chegou a níveis "perigoso" e "péssimo". Em decorrência da névoa seca que encobriu a capital, a Secretaria de Educação do DF autorizou a suspensão das atividades em instituições de ensino e a UnB adotou expediente remoto. O monitoramento da Secretaria de Saúde do DF identificou níveis elevados de material particulado em regiões como Fercal Oeste, Fercal Boa Vista e Jardim Zoológico. Em Fercal Boa Vista, as concentrações ultrapassaram 100 µg/m³ — valor muito acima dos limites recomendados pela OMS.
O que cada morador do DF pode fazer agora
A temporada de seca começa em junho. As ações preventivas precisam começar antes do fogo. Algumas medidas concretas: nunca atear fogo em qualquer área de vegetação, mesmo em propriedades privadas, durante a estiagem — além de crime ambiental, a ignição criminosa foi responsável pela maior parte dos grandes incêndios do DF em 2024. Denuncie focos de incêndio pelo telefone 193 (Bombeiros) ou 0800-618-080 (Ibama). Cadastre-se no sistema de alertas da Defesa Civil pelo número 40199. Evite atividades físicas intensas ao ar livre nos dias de fumaça. E acompanhe diariamente o monitoramento de qualidade do ar do Brasília Ambiental.
O fogo não avisa. Mas a ciência avisa. E o aviso, desta vez, é claro: prepare-se.
🔥 Para acompanhar: o Programa Queimadas do INPE oferece monitoramento em tempo real de focos de incêndio em terrabrasilis.dpi.inpe.br. O Brasília Ambiental divulga boletins diários de qualidade do ar em brasiliaambiental.df.gov.br. A Defesa Civil do DF envia alertas pelo número 40199.
Eco Políticas em Pauta

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