Há um lobo-guará que atravessa o gramado de um condomínio em Águas Claras
ao entardecer. Uma família de tamanduás-bandeira que visita regularmente as
bordas do Parque Nacional de Brasília. Bandos de araras-canindé que sobrevoam o
Eixo Monumental em formações que param o trânsito de pedestres. Capivaras que
tomaram as margens do Lago Paranoá como território próprio. Brasília é, ao
mesmo tempo, uma metrópole com mais de três milhões de habitantes e um dos
habitats urbanos com maior biodiversidade do Brasil — e essa convivência entre
humanos e fauna nativa é um dos aspectos mais singulares e preciosos da capital
federal.
Essa riqueza não é acidente. É resultado de décadas de proteção de áreas
verdes dentro e ao redor da cidade, da preservação de fragmentos de Cerrado
entre as regiões administrativas e da manutenção de parques urbanos que
funcionam como refúgios e corredores para a fauna. Conhecer e valorizar essa
biodiversidade é fundamental para garantir que ela continue existindo nas
próximas décadas.
O lobo-guará: símbolo e sentinela do Cerrado
Nenhum animal representa melhor a biodiversidade de Brasília do que o
lobo-guará. Com suas pernas longas, pelagem avermelhada e olhos dourados, o
maior canídeo da América do Sul é presença frequente nas áreas verdes do DF —
do Parque Nacional de Brasília às margens do Lago Paranoá, passando por parques
menores e áreas rurais. Sua presença na cidade é um indicador positivo:
lobos-guará precisam de território extenso e de presas disponíveis, o que
significa que a matriz de áreas verdes de Brasília ainda tem qualidade
ecológica suficiente para sustentar populações desse predador de topo.
O Instituto Lobo e pesquisadores da UnB monitoram as populações de
lobo-guará no DF há décadas, acompanhando seus deslocamentos, comportamento
reprodutivo e interações com o ambiente urbano. Os dados mostram que os animais
adaptaram alguns de seus hábitos à presença humana — incluindo o consumo de
frutos de palmeiras ornamentais plantadas em praças e condomínios —, mas ainda
dependem fundamentalmente das áreas de Cerrado nativo para sobreviver.
Tamanduás, micos e a fauna que divide espaço conosco
O tamanduá-bandeira, outro ícone do Cerrado, também é avistado com
regularidade em diferentes pontos do DF. Apesar de seu porte imponente, é um
animal extremamente vulnerável ao atropelamento e à fragmentação de habitat — e
Brasília registra, infelizmente, um número significativo de acidentes com essa
espécie nas rodovias que cortam áreas de vegetação nativa. Iniciativas como a
instalação de passagens de fauna em viadutos e a redução de velocidade em
trechos críticos têm contribuído para reduzir esses acidentes.
Os micos — especialmente o mico-estrela, espécie endêmica do Cerrado —
habitam as matas de galeria e os parques urbanos de Brasília em grupos
familiares que interagem, às vezes com excessiva intimidade, com os humanos. A
alimentação de micos por visitantes de parques é um hábito bem-intencionado,
mas prejudicial: alimentos humanos comprometem a saúde dos animais e estimulam
uma aproximação perigosa para ambos os lados. Educar os visitantes sobre esse
comportamento é um trabalho contínuo das equipes dos parques.
"Brasília é uma das poucas capitais do mundo onde é
possível avistar um lobo-guará a poucos quilômetros do centro da cidade. Isso é
extraordinário — e precisa ser preservado com consciência e políticas sérias de
conectividade ecológica." — Pesquisadora do Instituto Lobo, 2025
Aves migratórias: Brasília como ponto de escala
O Planalto Central é uma zona de passagem para dezenas de espécies de
aves migratórias que viajam entre o Hemisfério Norte e o Sul ao longo do ano.
Estações ecológicas como Águas Emendadas e os parques urbanos do DF funcionam
como pontos de escala e alimentação para essas espécies — um papel ecológico
que só é possível graças à manutenção de áreas úmidas, veredas e matas de
galeria dentro e ao redor da cidade.
A prática do birdwatching — observação de aves — tem crescido de forma
expressiva entre os brasilienses. Grupos de entusiastas se reúnem regularmente
no Parque Nacional, na APA do Lago Paranoá e em outros espaços para registrar
espécies, compartilhar dados com plataformas científicas como o eBird e
simplesmente desfrutar da riqueza avifaunística da cidade. É uma forma de
ciência cidadã que contribui genuinamente para o monitoramento da
biodiversidade.
Capivaras e jacarés: a fauna aquática do Lago Paranoá
O Lago Paranoá é um ecossistema aquático rico e surpreendentemente
saudável para um lago artificial no coração de uma metrópole. Populações de
capivaras — os maiores roedores do mundo — habitam suas margens em números
expressivos, convivendo pacificamente com ciclistas, corredores e
frequentadores das orlas. Jacarés-do-papo-amarelo, espécie nativa do Cerrado,
também são presença registrada nas margens mais preservadas do lago,
especialmente nas áreas da APA.
Essa diversidade faunística é um reflexo direto das melhorias na
qualidade da água do lago promovidas ao longo das últimas décadas. Um lago mais
limpo atrai mais peixes; mais peixes sustentam mais predadores; mais predadores
equilibram as populações de herbívoros. A cadeia trófica do Lago Paranoá é um
exemplo vivo de como a recuperação ambiental produz resultados visíveis e
mensuráveis.
Como conviver e proteger
A convivência com a fauna urbana exige informação e respeito. Não
alimentar animais silvestres, respeitar as áreas de preservação, reduzir a
velocidade ao dirigir em zonas de travessia de fauna, manter cães e gatos
domésticos longe de áreas de Cerrado nativo e apoiar projetos de corredores
ecológicos são atitudes que qualquer cidadão pode adotar.
Brasília tem um patrimônio faunístico que a maioria das cidades do mundo
não possui. Protegê-lo não é uma concessão ao romantismo ecológico — é uma
decisão racional de preservar serviços ecossistêmicos, qualidade de vida e uma
identidade urbana única que nos pertence a todos.
Eco Políticas em Pauta
Fontes
consultadas: Instituto Lobo, ICMBio, Ibram-DF, eBird Brasil, UnB/Departamento
de Zoologia, WWF-Brasil.

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