Sustentabilidade. A palavra que não sai de moda pode parecer vaga e abstrata, mas representa uma ideia disponível ao alcance das mãos. É mais ou menos isso o que aponta a novíssima geração de especialistas no tema. Em oficinas, feiras de rua e eventos que germinam aos montes por todo o país, uma turma crescente de profissionais — também conhecidos como ecoinfluencers — vem adubando as sete sílabas do longo substantivo feminino com ingredientes menos difusos e receitas que fogem da obviedade.
— A gente vinha numa tendência de
só falar em ecobags e copinhos reutilizáveis ao citar a importância da
sustentabilidade. De fato, tudo isso reduz muito a quantidade de plástico no
planeta. Mas a gente precisa avançar em outros pontos e resgatar nosso senso de
comunidade, algo muito revolucionário — diz Marcela Rodrigues, criadora da
plataforma A Naturalíssima, dedicada à elaboração e propagação de conteúdo
acerca de “consumo consciente”.
Antigos clichês normalmente
relacionados ao assunto seguem em voga, mas renovados por uma cartilha de
hábitos facilmente aplicáveis no cotidiano. O velho axioma se mantém de pé:
sim, pequenas atitudes geram impactos com efeito em larga escala.
— Às vezes são coisas muito mais
fáceis do que a gente pensa. Por exemplo: comer frutas de época. Além de serem
mais baratas, as frutas são mais suculentas, mais gostosas e produzidas com
menos uso de agrotóxicos — ilustra Marcela. — Só precisamos sair de nossas zonas
de conforto para que essas ações sejam possíveis.
‘Jogar fora’ é utopia
Fundadora da feira Faz Girar —
que há pouco menos de cinco anos se dedica à realização de eventos em prol da
educação ambiental, sobretudo no que diz respeito à conscientização acerca da
geração de resíduos —, Paula Maia não se cansa de mostrar que lugar de lixo não
é necessariamente no... lixo.
No último mês, ao longo de um fim
de semana, a organização capitaneada pela carioca — que organiza eventos na rua
bimestralmente — recolheu cerca de 1,3 tonelada de aparelhos digitais usados e
quebrados no Museu da República, no bairro do Catete, na Zona Sul do Rio. O
tamanho largo da massa de plástico chamou a atenção de quem circulava pelo
endereço. Na ocasião, também foram arrecadados 400 quilos de tampinhas de
garrafas PET, 130 litros de óleo de cozinha usado, 78 quilos de pilhas e
baterias, 12 quilos de canetas e lápis quebrados, 12 quilos de esponjas de
cozinha e 22 quilos de anéis de latas de refrigerante e cerveja. A princípio,
tudo seria descartado e destinado para um aterro sanitário. Só que...
— É preciso entender que não
existe isso de “jogar fora” — frisa Paula. — Jogar fora significa jogar em
outro lugar. A gente precisa sempre tentar dar o devido fim para todos os
resíduos que produzimos.
Práticas sustentáveis sem tanto
esforço: um bom começo
Na palma da mão
Nunca foi tão fácil encontrar o
lugar certo para o seu lixo. Em atividade há duas décadas, a fundação Terra
Cycle agora disponibiliza em seu site um mapa do Brasil com todos os ecopontos
presentes no país. Os endereços listados recebem uma variedade de produtos
normalmente descartáveis e os destina para instituições de reciclagem. Sem
qualquer custo.
Remédios fora da validade
Medicamentos vencidos devem ser
descartados, mas nunca em lixo comum. É o que alertam médicos e profissionais
da área da saúde. Especialistas ouvidos pelo GLOBO ressaltam que tais produtos
têm elevado poder de contaminação. Uma lei recente, datada de 2019, obriga
empresas farmacêuticas e farmácias do país a coletarem esse tipo de material,
que deve ser posto para incineração.
Moda circular é tendência
Está aí um termo que vem
chacoalhando o universo fashion. Upcycling é o uso de sobras, resíduos e
produtos inutilizados para a confecção de novas peças. De acordo com a
Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, 460 toneladas de
tecido são descartadas por dia no Brasil. Hoje, há pequenas marcas com coleções
oriundas do upcycling, além de feiras que aceitam doações.
Lavar ou sujar, eis a questão
Esponjas de cozinha possuem
baixíssimo índice de reciclabilidade e demoram mais de 400 anos para se
desfazerem no meio ambiente. O item aparentemente banal, feito com plástico da
pior qualidade, pode ser substituído por buchas vegetais, que servem de adubo
quando descartadas. E mais: um programa nacional, realizado pela empresa Scott
Bride, recebe velhas esponjas usadas para o descarte correto.
Comida sem desperdício
Empresa criada em 2021, em São
Paulo, a foodtech Food To Save vende via aplicativo — e por preços mais em
conta — sobras de produção ou alimentos próximos da data de validade oriundos
de padarias e restaurantes aptos para consumo. No último ano, a empresa evitou
o desperdício de 880 toneladas de comida. Para este ano, a estimativa é subir a
mil toneladas. A ferramenta não para de crescer. Bom sinal.
Fonte: O Globo.

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