Durante décadas, a lógica predominante da economia foi relativamente simples: extrair recursos naturais, fabricar produtos, consumi-los e descartá-los.
É o chamado modelo linear.
O problema é que os recursos naturais não são infinitos e o descarte também tem consequências. Quanto mais materiais são retirados da natureza e transformados em produtos de vida curta, maior tende a ser a pressão sobre água, energia, solo, biodiversidade e sistemas de gestão de resíduos.
É nesse contexto que a economia circular ganhou espaço na agenda ambiental brasileira.
A proposta é mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas em como dar destino ao que foi descartado, a economia circular procura evitar que o resíduo seja gerado, prolongar a vida útil dos produtos e manter materiais circulando pelo maior tempo possível.
O Brasil já possui uma política específica para essa transição. A Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), instituída em 2024, busca justamente substituir gradualmente a lógica linear por uma economia baseada em redução do desperdício, reutilização, reparo, recondicionamento, remanufatura e reciclagem.
Reciclar é importante, mas não é suficiente
É comum associar economia circular exclusivamente à reciclagem.
Ela faz parte do processo, mas está longe de ser a única solução.
Se uma empresa fabrica um produto descartável, utiliza grande quantidade de matéria-prima e depois depende exclusivamente da reciclagem para resolver o problema, parte importante da questão permanece.
A circularidade começa antes.
Um produto pode ser projetado para durar mais, ser consertado, desmontado, reutilizado ou ter seus componentes substituídos.
Uma embalagem pode utilizar menos matéria-prima.
Um equipamento pode ser recondicionado em vez de descartado.
Um resíduo orgânico pode voltar ao solo na forma de composto.
Essa visão amplia consideravelmente o debate sobre sustentabilidade.
O Brasil ainda tem um longo caminho
Os números mostram o tamanho do desafio.
Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão de Resíduos Sólidos, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos prevê elevar a recuperação de resíduos para aproximadamente 50% em 20 anos, por meio de reciclagem, compostagem, biodigestão e outras formas de aproveitamento. Atualmente, o próprio sistema informa que apenas 2,2% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados.
A diferença entre a situação atual e o objetivo estabelecido mostra que não basta estimular campanhas para que as pessoas “separem o lixo”.
É necessário estruturar toda a cadeia.
Isso envolve coleta seletiva, transporte, triagem, unidades de processamento, mercado para os materiais reciclados e políticas que estimulem empresas a incorporar esses materiais novamente à produção.
Catadores estão no centro dessa transformação
Existe ainda uma dimensão social que não pode ser ignorada.
Catadoras e catadores de materiais recicláveis desempenham um papel fundamental na recuperação de materiais que poderiam terminar em aterros ou em locais inadequados.
A economia circular, portanto, não pode ser pensada apenas como uma agenda tecnológica ou industrial.
Ela também envolve trabalho e renda.
Em 2026, a Funasa informou que já havia destinado R$ 8,5 milhões até 2025 para cooperativas e associações de catadores e que novas ações estavam sendo desenvolvidas para ampliar estrutura, capacidade de beneficiamento e condições de trabalho.
Fortalecer essas organizações significa melhorar a eficiência da reciclagem e, ao mesmo tempo, reconhecer o valor econômico e ambiental de um trabalho que durante muito tempo permaneceu invisível.
E os resíduos orgânicos?
Outro ponto frequentemente esquecido é que nem todo resíduo reciclável é plástico, papel, vidro ou metal.
Os resíduos orgânicos representam uma parcela importante do que é descartado diariamente.
Restos de alimentos, podas e outros materiais biodegradáveis podem ser tratados por processos como compostagem e biodigestão.
Em vez de serem simplesmente enviados para disposição final, esses materiais podem gerar composto ou outros produtos úteis.
Isso muda a lógica: o que antes era tratado apenas como lixo passa a ser visto como matéria-prima.
O plástico está no centro do debate
O desafio dos plásticos também tem recebido atenção crescente.
O governo federal estabeleceu medidas relacionadas à circularidade de embalagens plásticas, incluindo metas de conteúdo reciclado e estímulo ao aumento da reciclagem. Para grandes empresas, determinadas metas de conteúdo reciclado passaram a ter aplicação a partir de janeiro de 2026.
A discussão é importante porque a solução não depende apenas do consumidor.
Se determinado material é difícil ou caro de reciclar, se não existe mercado para ele ou se a embalagem foi projetada sem considerar sua recuperação, a responsabilidade não pode ser colocada exclusivamente sobre quem compra o produto.
A economia circular pressupõe responsabilidade distribuída por toda a cadeia.
As cidades têm papel decisivo
É nos municípios que boa parte do problema dos resíduos aparece de maneira concreta.
São as cidades que precisam organizar a limpeza urbana, estruturar sistemas de coleta e definir soluções para diferentes tipos de resíduos.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico vem estabelecendo normas de referência para os serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos urbanos, reforçando a necessidade de planejamento e qualidade na prestação desses serviços.
Para o cidadão, isso significa que sustentabilidade não depende apenas de escolhas individuais.
É muito difícil praticar uma separação adequada quando não existe coleta seletiva regular.
Da mesma forma, não adianta estimular a reciclagem se os materiais separados não conseguem chegar a uma cadeia de reaproveitamento.
Brasília também precisa avançar
No Distrito Federal, a discussão sobre resíduos se conecta diretamente ao crescimento urbano.
Uma capital com grande população, intensa atividade comercial, construção civil e elevada geração de resíduos precisa pensar além da coleta e do aterro.
Isso inclui ampliar a recuperação de materiais, melhorar a integração com cooperativas, estimular a compostagem, combater o descarte irregular e criar condições para que produtos e materiais permaneçam na economia por mais tempo.
A mudança também pode ocorrer dentro de escolas, empresas, condomínios e órgãos públicos.
Comprar melhor, reparar antes de substituir, reutilizar materiais e separar corretamente os resíduos são atitudes importantes. Mas elas funcionam melhor quando acompanhadas por políticas públicas e por mudanças na própria forma como os produtos são planejados.
Uma mudança de lógica
A economia circular propõe uma mudança que parece simples, mas é bastante profunda.
Na economia tradicional, o produto termina quando é descartado.
Na economia circular, o descarte pode representar apenas o começo de uma nova etapa.
Uma garrafa pode voltar à indústria. Um móvel pode ser reformado. Uma peça pode ser substituída. Um equipamento pode ser recondicionado. Restos de alimentos podem retornar ao solo.
O objetivo não é simplesmente produzir “mais lixo reciclável”.
É produzir menos desperdício.
O Plano Nacional de Economia Circular aprovado em 2025 estabelece 18 macro-objetivos e 71 ações para orientar essa transformação ao longo de uma década.
O desafio agora é transformar estratégia em prática.
Para isso, será necessário envolver governo, indústria, comércio, consumidores, municípios e trabalhadores da reciclagem.
Porque a economia circular não começa na lixeira.
Ela começa muito antes: no momento em que alguém decide o que produzir, como produzir, quanto utilizar e o que acontecerá com aquele material depois que o consumidor terminar de usá-lo.
Eco Políticas em Pauta

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