Bioeconomia do Cerrado: como transformar a biodiversidade em renda sem destruir a natureza

O aproveitamento sustentável de frutos nativos, sementes e outros recursos do bioma pode fortalecer economias locais, valorizar conhecimentos tradicionais e criar alternativas de desenvolvimento para o Centro-Oeste.

O Cerrado costuma aparecer no noticiário associado ao avanço da fronteira agropecuária, ao desmatamento e aos riscos para a segurança hídrica. Mas existe outra dimensão desse bioma que merece mais atenção: sua capacidade de gerar alimentos, produtos e oportunidades econômicas a partir da própria biodiversidade.

Frutos como pequi, baru, buriti e cagaita, além de sementes, fibras e outros recursos naturais, podem abastecer cadeias produtivas que envolvem coleta, beneficiamento, transformação industrial e comercialização. Quando essas atividades são organizadas de maneira sustentável, a vegetação nativa deixa de ser vista apenas como uma área que poderia dar lugar a outra atividade econômica e passa a representar uma fonte de renda que depende de sua conservação.

Essa é uma das ideias centrais da bioeconomia, conceito que reúne atividades econômicas baseadas em recursos biológicos, conhecimento científico, inovação e uso responsável da biodiversidade.

No Brasil, a Estratégia Nacional de Bioeconomia, instituída pelo Decreto nº 12.044, de 5 de junho de 2024, estabelece diretrizes para promover atividades produtivas associadas à conservação e à regeneração ambiental, à geração de trabalho e renda e à valorização dos conhecimentos tradicionais.

No Cerrado, esse modelo representa uma oportunidade, mas também exige planejamento. Afinal, não basta comercializar produtos da natureza: é preciso garantir que sua exploração não comprometa a capacidade de regeneração dos ecossistemas.

O valor econômico que existe na vegetação nativa

O pequi é um dos exemplos mais conhecidos da relação entre biodiversidade e economia regional. Presente na culinária de diferentes estados do Brasil Central, o fruto movimenta atividades de coleta, transporte, processamento e venda. Seu valor vai além do consumo doméstico, alcançando mercados de polpas, conservas, óleos e outros derivados.

O baru também ganhou espaço em mercados de alimentos, especialmente na forma de castanha, utilizada em produtos como farinhas, doces e preparações culinárias. O buriti, por sua vez, oferece possibilidades de aproveitamento de frutos, polpas, óleos e fibras.

Esses produtos mostram que a biodiversidade do Cerrado pode alimentar cadeias produtivas diversificadas. Mas o potencial econômico não se concretiza automaticamente. Para chegar ao consumidor, muitos produtos precisam passar por etapas de seleção, higienização, armazenamento, processamento, embalagem, transporte e controle de qualidade.

Sem estrutura adequada, produtores e coletores podem ficar restritos à venda de matérias-primas a preços baixos, enquanto as etapas mais lucrativas acontecem longe de suas comunidades.

Por isso, uma política de bioeconomia precisa considerar toda a cadeia de valor, desde o manejo da espécie até o acesso ao mercado.

Uma política específica para os frutos do Cerrado

Um passo importante nessa direção foi a Lei nº 15.089, de 7 de janeiro de 2025, que instituiu a Política Nacional para o Manejo Sustentável, Plantio, Extração, Consumo, Comercialização e Transformação do Pequi e de outros frutos e produtos nativos do Cerrado.

A legislação prevê medidas relacionadas à conservação das espécies, ao fortalecimento das cadeias produtivas, à pesquisa, à produção de mudas, à recuperação de áreas degradadas e à melhoria da infraestrutura de beneficiamento e comercialização. Também reconhece a importância das comunidades tradicionais que dependem da coleta desses recursos.

A existência de uma lei, entretanto, é apenas parte do caminho. Para produzir resultados concretos, é necessário que as diretrizes se traduzam em assistência técnica, financiamento, infraestrutura, organização comercial e mecanismos de acompanhamento ambiental.

O desafio consiste em fazer com que a valorização econômica dos frutos nativos contribua para manter as árvores em pé, em vez de estimular uma exploração que reduza sua disponibilidade no futuro.

Comunidades locais precisam participar dos benefícios

A bioeconomia do Cerrado não pode ser construída apenas a partir dos interesses de grandes empresas ou de mercados consumidores distantes.

Agricultores familiares, extrativistas, cooperativas, povos indígenas e comunidades tradicionais possuem conhecimentos acumulados sobre os ciclos das espécies, os períodos de coleta e as características dos ambientes onde esses recursos são encontrados.

Esse conhecimento pode contribuir para práticas produtivas mais adequadas às condições locais. Também representa patrimônio cultural e deve ser respeitado na formulação de projetos e políticas públicas.

A distribuição dos benefícios econômicos é outro ponto fundamental. Se o produto passa a ter maior valor comercial, mas quem realiza a coleta continua recebendo uma parcela pequena do preço final, o modelo pode ampliar desigualdades em vez de promover desenvolvimento.

Cooperativas e associações podem ajudar a reunir a produção, negociar melhores condições de venda, compartilhar equipamentos e ampliar o acesso a mercados. Projetos de beneficiamento comunitário também podem permitir que parte maior do valor permaneça no território.

Uma cadeia produtiva sustentável, portanto, precisa ser ambientalmente responsável e socialmente justa.

O exemplo do Mato Grosso

Experiências desenvolvidas no Mato Grosso ilustram como essa estratégia pode ser organizada. O projeto de fortalecimento de cadeias socioprodutivas apoiado pelo Programa REM Mato Grosso trabalha com produtos como baru, pequi e jatobá, buscando melhorar o manejo, o beneficiamento, a comercialização e a organização comunitária da produção.

A iniciativa envolve agricultores familiares e comunidades de diferentes territórios, demonstrando que o fortalecimento dessas cadeias depende não apenas da existência de produtos nativos, mas também de capacitação, articulação entre grupos e acesso a mercados.

Esse tipo de experiência não elimina os desafios de escala, logística e comercialização. Entretanto, ajuda a mostrar que a conservação pode estar associada a atividades econômicas concretas, desde que existam condições para que os produtores participem de maneira efetiva dos resultados.

Produzir mais valor sem retirar mais da natureza

Um dos princípios da bioeconomia é ampliar o valor econômico gerado por cada recurso utilizado, sem aumentar desnecessariamente a pressão sobre o ambiente.

No caso do Cerrado, isso pode significar melhorar o aproveitamento de frutos, reduzir perdas após a coleta, desenvolver produtos de maior valor agregado e utilizar tecnologias que aumentem a qualidade e a durabilidade dos alimentos.

Também envolve respeitar os ciclos naturais. A retirada excessiva de frutos e sementes pode comprometer a regeneração de determinadas espécies e reduzir os recursos disponíveis para a fauna. A intensidade da coleta, portanto, precisa considerar as características de cada espécie, a disponibilidade local e as necessidades de reprodução e dispersão.

O manejo sustentável não significa simplesmente coletar tudo o que estiver disponível. Significa conhecer os limites ecológicos e organizar a atividade para que ela possa continuar existindo ao longo dos anos.

É igualmente importante impedir que a demanda comercial estimule a conversão de vegetação nativa em áreas de cultivo sem planejamento. A bioeconomia perde sua razão de ser quando o aumento da produção depende da destruição dos ecossistemas que deveriam sustentar essa atividade.

Ciência, inovação e acesso ao mercado

A pesquisa pode contribuir para ampliar as oportunidades econômicas associadas à biodiversidade.

Estudos sobre conservação de alimentos, processamento, propriedades nutricionais, qualidade sanitária e desenvolvimento de novos produtos podem ajudar a diversificar os mercados e reduzir perdas.

Instituições de pesquisa, universidades, órgãos públicos e empresas também podem colaborar na criação de equipamentos adequados à realidade de pequenos produtores e cooperativas.

Entretanto, a inovação precisa chegar a quem está na base da cadeia. Uma tecnologia que funciona apenas em grandes unidades industriais pode não resolver os problemas de uma associação comunitária que precisa processar pequenas quantidades de frutos em determinada época do ano.

O mesmo vale para o acesso ao crédito e à assistência técnica. Sem esses instrumentos, iniciativas com potencial ambiental e econômico podem permanecer pequenas, informais e vulneráveis às oscilações de mercado.

O Cerrado também precisa de consumidores conscientes

A escolha dos consumidores pode ajudar a fortalecer produtos nativos, especialmente quando existe informação confiável sobre sua origem e sua forma de produção.

Comprar de produtores e empreendimentos comprometidos com o manejo responsável pode contribuir para manter essas cadeias ativas. Mas é importante evitar a ideia de que todo produto anunciado como natural ou sustentável necessariamente apresenta benefícios ambientais comprovados.

Rastreabilidade, transparência, respeito às normas sanitárias e informações sobre a origem dos produtos são elementos importantes para construir confiança.

Empresas e comerciantes também têm responsabilidade: precisam evitar publicidade ambiental enganosa e não devem utilizar a imagem do Cerrado como argumento de venda sem demonstrar práticas compatíveis com a conservação.

Desenvolvimento regional com a vegetação em pé

O Cerrado enfrenta pressões relacionadas à expansão agropecuária, à infraestrutura, à mineração, à urbanização e às mudanças climáticas. A bioeconomia não substituirá, sozinha, as políticas de combate ao desmatamento, a fiscalização ou a proteção de áreas naturais.

Ela pode, contudo, ampliar o conjunto de alternativas econômicas disponíveis para comunidades e produtores.

O potencial está em transformar a biodiversidade em uma fonte duradoura de trabalho, renda e inovação, sem comprometer os processos ecológicos que sustentam o bioma.

Para isso, será necessário combinar conservação, pesquisa, organização comunitária, políticas públicas, crédito e mercados responsáveis.

A pergunta central não é apenas quanto o Cerrado pode produzir, mas como essa produção pode beneficiar a população sem destruir a base natural que a torna possível.

Valorizar economicamente o Cerrado deve significar reconhecer que sua biodiversidade tem valor enquanto fonte de renda, mas também enquanto patrimônio ecológico que precisa continuar existindo para as próximas gerações.


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