Quando se fala em abelhas, a primeira associação costuma ser o mel.
Mas o produto mais importante desses pequenos insetos para os ecossistemas não está dentro de uma colmeia.
Está nas flores.
A polinização é um dos processos responsáveis pela reprodução de inúmeras plantas. Ao transportar pólen entre estruturas reprodutivas das flores, os animais ajudam a viabilizar a formação de frutos e sementes.
As abelhas estão entre os principais agentes desse processo.
E o impacto ultrapassa em muito a produção de mel.
Uma rede invisível
Em uma paisagem de Cerrado, uma única árvore em floração pode alimentar uma grande quantidade de organismos.
Abelhas procuram néctar e pólen.
Borboletas visitam flores.
Besouros participam da polinização de determinadas espécies.
Aves podem transportar pólen ou sementes.
Morcegos também desempenham funções importantes em diferentes ecossistemas.
Essas interações fazem parte de uma rede que mantém a reprodução das plantas e a diversidade da paisagem.
Quando um polinizador desaparece, o impacto potencial não fica necessariamente restrito àquele animal.
Pode atingir as plantas que dependem dele.
E, posteriormente, outros organismos que dependem dessas plantas.
Nem toda abelha é igual
Um erro comum é imaginar que existe apenas uma espécie de abelha.
No Brasil, a diversidade é muito maior.
As chamadas abelhas sem ferrão, pertencentes ao grupo dos meliponíneos, incluem dezenas de espécies nativas e possuem importância ecológica e cultural.
Jataí, mandaçaia, mandaguari, mirim e uruçu são alguns exemplos de abelhas sem ferrão conhecidas no país. A Embrapa destaca que diferentes espécies podem ser manejadas em meliponicultura e que sua presença também pode contribuir para a polinização de culturas agrícolas.
Elas não são simplesmente versões menores da conhecida abelha europeia.
Possuem comportamentos, habitats e relações específicas com as plantas.
Por isso, conservar polinizadores significa conservar diversidade de polinizadores, e não apenas aumentar a quantidade de uma única espécie.
O Cerrado é uma grande fonte de diversidade
O Cerrado oferece uma variedade enorme de plantas que florescem em diferentes épocas do ano.
Essa diversidade pode fornecer recursos alimentares aos polinizadores em diferentes períodos.
É justamente por isso que a conservação de vegetação nativa próxima às áreas agrícolas é tão importante.
A Embrapa recomenda a conservação e restauração de habitats naturais próximos às lavouras, incluindo Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente, como estratégia para favorecer a presença e diversidade de abelhas nativas.
A lógica é simples:
mais diversidade vegetal pode significar mais recursos disponíveis para diferentes polinizadores.
O que acontece dentro de uma lavoura?
Uma lavoura pode parecer, à primeira vista, um ambiente produtivo para os polinizadores.
Mas existe uma diferença entre uma área com uma única cultura durante determinado período e uma paisagem diversificada que oferece alimento ao longo de todo o ano.
Se a floração acontece durante poucas semanas, os polinizadores podem encontrar abundância de recursos por um período curto e escassez posteriormente.
Por isso, a conservação de áreas naturais próximas às plantações pode funcionar como uma espécie de “reservatório” de biodiversidade.
As abelhas encontram abrigo, locais para nidificação e plantas com diferentes períodos de floração.
E a lavoura pode se beneficiar dessa população.
A pesquisa que veio de Goiás
Um estudo divulgado pela Embrapa em agosto de 2026 reforçou essa relação.
Pesquisadores registraram 53 espécies de abelhas em plantações de soja e áreas próximas de vegetação nativa no sudoeste de Goiás. Deste total, 27 espécies representaram novos registros para a associação com a cultura da soja no país.
O resultado é relevante por duas razões.
Primeiro, demonstra que áreas agrícolas não são necessariamente desprovidas de biodiversidade.
Segundo, mostra a importância de observar o que existe ao redor da lavoura.
A paisagem agrícola não termina na linha da plantação.
A vegetação nativa próxima pode ajudar a sustentar populações de polinizadores que posteriormente visitam as culturas.
Agricultura também depende da biodiversidade
A relação entre polinizadores e agricultura não é igual para todas as culturas.
Algumas dependem fortemente da polinização por animais.
Outras podem produzir sem a presença desses organismos, mas apresentam aumento de produtividade ou qualidade quando ocorre polinização adequada.
A Embrapa classifica as plantas cultivadas justamente de acordo com seu grau de dependência ou benefício em relação à polinização por abelhas.
Isso significa que preservar polinizadores não é simplesmente uma questão de proteger insetos.
É também uma estratégia de segurança ecológica para sistemas de produção de alimentos.
Quando a paisagem perde diversidade
A perda de vegetação nativa pode reduzir os locais disponíveis para alimentação e reprodução dos polinizadores.
A expansão urbana também transforma seus habitats.
O uso inadequado de produtos químicos agrícolas pode representar outra pressão.
Além disso, incêndios frequentes podem alterar a disponibilidade de plantas e locais de nidificação.
A Embrapa aponta a supressão de áreas nativas, expansão agrícola e urbana e práticas agrícolas inadequadas entre os fatores associados à redução de polinizadores.
Isso ajuda a entender por que proteger uma população de abelhas exige muito mais do que proteger algumas colmeias.
É preciso proteger a paisagem.
Abelhas sem ferrão também podem gerar renda
A conservação não precisa ser incompatível com atividade econômica.
A meliponicultura — criação racional de abelhas sem ferrão — pode integrar conservação ambiental, produção e geração de renda.
A Embrapa destaca que boas práticas de manejo podem contribuir para a conservação dessas espécies e, ao mesmo tempo, oferecer oportunidades econômicas aos meliponicultores.
Mas existe uma diferença importante entre criar abelhas e retirar colônias da natureza.
A criação responsável depende de técnicas adequadas, respeito às espécies e atenção à origem dos enxames.
A exploração predatória de ninhos pode produzir o efeito contrário ao desejado.
Agroflorestas podem criar corredores de alimento
Outro caminho é a diversificação da paisagem.
Sistemas agroflorestais biodiversos reúnem diferentes espécies vegetais e podem oferecer recursos aos polinizadores em épocas distintas do ano.
Segundo a Embrapa, essa diversidade é importante porque plantas diferentes florescem em períodos diferentes, fornecendo pólen, néctar e outros recursos.
Em vez de pensar apenas em uma lavoura cercada por áreas sem vegetação, a propriedade pode ser planejada como uma paisagem com diferentes ambientes.
Isso favorece a biodiversidade.
E pode contribuir para a própria produção.
E nas cidades?
A conservação dos polinizadores também pode começar dentro das áreas urbanas.
Jardins, praças, parques e quintais podem oferecer flores e abrigo para diferentes espécies.
No caso de Brasília, essa discussão ganha uma dimensão especial porque a cidade está inserida no Cerrado e possui extensas áreas verdes.
A escolha de espécies vegetais nativas pode contribuir para criar recursos mais adequados à fauna local.
Não é necessário transformar todo jardim em uma área de conservação.
Mas uma cidade com maior diversidade de plantas oferece mais oportunidades para diferentes organismos.
O problema não é apenas a quantidade de abelhas
Existe uma diferença importante entre abundância e diversidade.
Uma paisagem pode apresentar muitas abelhas de poucas espécies e, ainda assim, ser menos resiliente do que uma paisagem que abriga diversas espécies com diferentes comportamentos.
Cada polinizador pode apresentar características próprias.
Alguns visitam determinados tipos de flores.
Outros possuem horários específicos de atividade.
Alguns nidificam no solo.
Outros utilizam cavidades.
Preservar essa diversidade significa preservar uma rede de funções.
O que está em jogo
Quando uma abelha visita uma flor, dificilmente alguém percebe a dimensão daquele ato.
Mas aquela visita pode contribuir para a formação de uma semente.
A semente pode gerar uma nova planta.
A planta pode produzir frutos.
O fruto pode alimentar um animal.
O animal pode transportar sementes.
E novas plantas podem nascer em outros lugares.
A biodiversidade funciona assim: por meio de milhares de interações pequenas, muitas delas invisíveis para quem observa apenas a paisagem.
É por isso que a perda de polinizadores não deve ser encarada como um problema restrito à apicultura.
É uma questão ecológica.
E também agrícola.
Proteger polinizadores é proteger a paisagem
No Cerrado, preservar abelhas significa preservar flores.
Preservar flores significa preservar plantas.
Preservar plantas significa conservar habitats.
E conservar habitats significa manter uma série de relações ecológicas que sustentam tanto os ecossistemas naturais quanto parte da produção agrícola.
A melhor estratégia não é escolher entre agricultura e polinizadores.
É construir paisagens agrícolas nas quais os dois possam coexistir.
Isso exige vegetação nativa, manejo responsável, diversidade de culturas, proteção de áreas naturais e conhecimento científico.
Porque o verdadeiro serviço prestado por uma abelha não termina no pote de mel.
Ele começa muito antes — e ajuda a manter funcionando uma das engrenagens mais importantes da biodiversidade.
Eco Políticas em Pauta

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